Pesquisar este blog

sábado, 31 de março de 2018

Sobre Joaquim Barbosa, Pretos e Negros

Resultado de imagem para negra rosto folha de são paulo

Sobre Joaquim Barbosa, Pretos e Negros
Por Carlos Sherman

[Na foto, publicada em matéria da Folha de São Paulo, uma belíssima mulher que se declara "preta", onde podemos denotar de forma insuspeita a pigmentação rica em melanina que a Evolução selecionou para a proteção contra os perigosos raios UV... além da marcante miscigenação em seus traços africanos, europeus e asiáticos...]


Um amigo publicou um panfleto em apoio à candidatura de Joaquim Barbosa, um verdadeiro "herói nacional"... O meu apoio a dita candidatura é total e irrestrito, já que o tom desta eleição será a "honestidade" - e muito me preocupa, já que este deveria ser apenas um pré-requisito. Não obstante, e sem maiores delongas, voto em Joaquim, não havendo outro candidato à altura em termos de atitude ética, coerência, integridade intelectual etc... Pero, o primeiro desafio será o partido, já que o PSB foi aliado de Lula, Dilma, Garotinho, entre outros picaretas... e segue na contravenção com Alckmin, Márcio França, Temer etc... E o Joca precisará subir no palanque com muitos investigados da Lava-Jato, assim como muitos participantes diretos e indiretos do vergonhoso escândalo do Mensalão - onde "nosso herói" serviria à nação como um feroz algoz, e guardião da Justiça. E aí, Joquinha Barbosa, vai ficar e enfrentar, ou correr muito - como o Zequinha?

Mas, uma apologia fora de lugar me chamou a atenção no panfleto,  a falsa alegação de que "isso é importante, já que 54% da população do Brasil é preta". Não é verdade, e mesmo que fosse trataria-se de um claro non sequitur, já que estamos falando em presidência do Brasil e não sobre racismo. E se o tema for o racismo, então muito mais precisará ser dito sobre a candidatura de Joaquim e a falsa afirmação do panfleto; afinal, e segundo o IBGE/Pnad (2017):
A população que se declara preta no pais cresceu 14,9% de 2012 a 2016, mostrou a Pnad em pesquisa domiciliar de abrangência nacional do IBGE, divulgada nesta sexta-feira. O levantamento é feito por meio de autodeclaração, e o IBGE utiliza o termo preta para se referir a raça negra. 
Desta forma, a população negra no Brasil está assim distribuída em termos de melanina e preferência pessoal:
Do total da população, 46,7% se declararam pardos, alta de o,6 ponto percentual em relação ao ano anterior. Os autodeclarados pretos corresponderam a 8,2% da população, alta de 0,5 ponto percentual. Na outra ponta, brancos somaram 44,2% em 2016, queda de 1,3 ponto percentual em relação a 2015. (IBGE/Pnad; 2017)
Se observarmos que pardos englobam diferentes etnias, características, e variantes fenotípicas, podemos afirmar que a declaração de "54% de negros" - somando especiosamente pardos e pretos - é falsa e viciada, não correspondendo minimamente à realidade. Sem considerar que toda a apologia à dita "Consciência Negra" tem produzido adesões ideológicas, mas sem qualquer correspondência biológica, genética, antropológica ou étnica. Somos, na verdade, 8,2% de pretos!
Segundo a gerente da Pnad, Maria Lucia Vieira, a queda dos pardos no Nordeste e Norte pode estar ligada aos movimento de reafirmação racial no pais. Mais negros estariam se declarando como tal, reduzindo, então, a quantidade de pardos. 
Mas, a quem interessa toda essa ladainha racial, e toda esta estória muito mal contada? A concentração de melanina em nossa pele serve tão e somente à proteção contra raios UV... Donde presumo que todo o debate em torno deste particular deveria focar em problemas como a carência de vitamina D, lúpus, câncer de pele etc... Em um recente e curioso estou o de DNA dos cantores Seu Jorge e Neguinho da Beija Flor foram rastreados até a Europa, enquanto Alcione é inexoravelmente africana. E daí? O que isso nos diz sobre a INDIVIDUALIDADE, sobre o caráter, personalidade? Sobre a Escravidão? E respondo à pergunta retórica  com um retumbante NADA!

Centenas de ONGs estabelecidas na África tratam de conter o comércio de membros amputados de crianças albinas, e vendidos como amuleto da sorte por um punhado de dólares. Isso, enquanto celebramos o Dia da Consciência Negra no Brasil na data de morte do maior proprietário de escravos em seu tempo - cerca de 400. Longe de fundar um movimento libertário, Zumbi dos Palmares tratava de estabelecer um reino em formato africano de época, e com direito a escravos... muitos!!!

A primeira medida de um negro alforriado no Brasil, no tempo de Zumbi, era possuir escravos, ou possuir "gente". Nos censos à época, mulheres negras eram muito mais numerosas do que as brancas em termos de declaração de propriedade de escravos para o serviço doméstico, embora possuíssem normalmente menos escravos. Em um caso muito bem documentado, Zé Alfaiate, capturado por seus conterrâneos africanos no reino de Angola, seria negociado com traficantes iberos, levado como mercadoria ao Brasil, vendido e alforriado prematuramente... Então, ainda jovem, Zé decide voltar à "Mãe África" para tentar a sorte, e casando-se com a filha de Chachá, o maior negociante de escravos da África Atlântica.

Em um documento particularmente odioso, Zé assina uma "fatura" dando fé de que os escravos de um determinado cliente, e que deveriam ser marcados com o número 5 - conforme o pedido de compra -, em função da quebra do ferro em brasa, foram marcados com a letra V; e demonstrando com certo orgulho o seu conhecimento sobre os Algarismos Romanos, além do seu franco desprezo por seus conterrâneos, humanos como ele, e que começavam uma jornada aterrorizante, e onde ele também havia sido um passageiro da agonia...

Lembro-me agora, com orgulho, de quando fui ovacionado em um debate por declarar que TODOS NÓS VIEMOS DE UMA MESMA MÃE NASCIDA NA ÁFRICA SUL-ORIENTAL HÁ CERCA DE 200.000 ANOS... E lembro-me, de forma ainda mais vívida e enaltecida, do silêncio incômodo que se seguiu quando continuei: E NESTA ÉPOCA, A NOSSA PELE ERA BRANCA, CLARA, ROSADA, ABAIXO DA PELAGEM AINDA ESPESSA, COMO EM NOSSOS PARENTES CHIMPANZÉS.

Em uma única sentença o dilema racial é reduzido a pó, e a cor volta ao seu lugar bioquímico - de origem. Entendo o dilema racial, mas qual é a cor do poder? Negros submeteram brancos, assim como brancos submeteram negros, amarelos... Pardos, cafuzos, caboclos, e o que mais? Mas  afirmo que a luta contra esta pendenga e sofrimento não partiu - jamais - da África, senão da Inglaterra e do Iluminismo Francês. Qual foi a "consciência negra"? Luther King lutou contra o preconceito nos Estados Unidos, mas não ousou questionar as raízes deste flagelo humano na "Mãe África", enquanto incrementava a audiência (e.g.) de seu programa de rádio pregando a "Cura Gay"...

Em 1958, enquanto escrevia uma coluna de conselhos para a 'Ebony Magazine', 'Dr. King' foi interpelado por um leitor que se declarava "gay":
O seu problema não é totalmente incomum. No entanto, ele requer muita atenção. O tipo de sentimento que você tem para com os meninos provavelmente não é uma tendência inata, mas algo que foi culturalmente adquirido. Suas razões para adotar esse hábito já foram conscientemente suprimidas ou inconscientemente reprimidas. Portanto, é necessário lidar com este problema voltando a algumas das experiências e circunstâncias que o levaram a este hábito. A fim de solucionar a questão, eu sugiro que você consulte um bom psiquiatra que possa ajudá-lo a trazer para o primeiro plano da consciência todas essas experiências e circunstâncias que levaram ao hábito. Você já está no caminho certo em direção à uma solução, desde que você honestamente reconheça o PROBLEMA - grifo meu - e tenha o desejo de RESOLVÊ-LO.
A filha mais jovem de King declarou durante uma conferência em Auckland, Nova Zelândia:
Eu sei do fundo do meu coração que meu pai não levou um tiro em prol de uniões homossexuais.
Ela só faltou agregar "nojentos", ou coisa pior... Mas o 'Fé em Contexto' não perdeu a oportunidade:
Obama em seu pronunciamento gayzista usou as palavras de Jesus para justificar seu apoio ao casamento gay. [...] Mas há uma falha na compreensão do Teólogo-Presidente. Citando o Velho Testamento, Jesus disse: 'Por esta razão, o homem deixará seu pai e mãe e se unirá a sua mulher, e os dois serão uma só carne' (Marcos 10:7-8). Um homem, uma mulher.

Ele esqueceu de dizer que esta mulher poderia ser negociada e comparada a jumentos... Mas todos eles estão certos sobre as convicções de King... 

Lato sensu, a realidade e a verdade não pode ser sexista nem racial! E muito me preocupa o recrudescimento deste debate racial repletos de vícios de consentimento, ideologia, e desprezo pela verdade; quando poderíamos estar trabalhando exatamente para superar este triste capítulo da história humana - troppo umana. A escravidão nunca foi um problema racial, sendo a África - ontem e hoje - o continente que mais escraviza e atenta contra os Direitos Humanos, Civis e Individuais. Iguais sim, igualdade não... Somos diferentes, e o direito ao empenho humano nos trouxe até aqui, e com profundas vantagens... diminuindo a mortalidade infantil em 40 vezes, a violência em mais de 100 vezes, e aumentando a expectativa de vida em três vezes - adormecida desde o Homem de CroMagnon, e até o fim da Idade Média, até o inevitável confronto com a Ciência Médica. 

A solidariedade deve ser buscada e estimulada, e assim tem sido, e assim seguirá, de forma contingente, convergente e cega! Pois, abramos os olhos para ajudar, servir, e catalizar este processo de melhoramento contínuo. E observe que, em relação à esse assunto, tudo o que você pensava saber estava inescapavelmente equivocado... E o que mais você pode estar perdendo? O que mais estará mal entendendo? Voto em Joaquim, torço que sua dignidade seja maciça, contínua, duradoura... e jamais me importei com o seu filtro solar inato.

Q.E.D.

Carlos Sherman







quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

A QUESTÃO DA COMUNICAÇÃO




A QUESTÃO DA COMUNICAÇÃO
Ou Questão MACOB

A amiga e excelente profissional da área de comunicação, Sheila Magri, formulou o seguinte questão:

O que é mais difícil na comunicação interpessoal ?
1. Ser sincero, sem magoar
2. Escutar, sem julgar
3. Expressar posição contrária, sem agredir

Observei:


That is the question! Sem fugir à questão, considero que os três desafios são igualmente importantes - ou deletérios - em qualquer diálogo ou debate. E sobre qual seria o mais daninho dependerá muito da interlocução. As opções 1 e 3 são similares... Fico com a 2 + as ressalvas abaixo, rsrsrsrs...

Gostaria de agregar ainda, e sem a pretensão de desvendar toda a complexidade da comunicação (full-duplex), que o segredo pode estar engendrado no seguinte protocolo: 

(1) Escutar os fatos, tratando de filtrar as interpretações, e sem julgamento prévio; 

(2) Contribuir para melhor elaborar a questão; já que questões muito abrangentes ou mal formuladas não nos levam a lugar algum, abrindo espaço para a disputa eloquente; 

(3) Elaborar a reflexão em voz alta, abrindo as cartas sobre a mesa, uma a uma, sem estratagemas, mas totalmente empenhado no endereçamento da verdade - aproximando opiniões de fatos; 

(4) Estabelecer premissas e referências sólidas, usando de transparência e sinceridade, e avançando serenamente enquanto confirmamos coincidências - como estacas ou grampos de segurança em uma escalada; 

(5) Até que poderemos nos focar no cume, no pomo da discórdia, no "nó"; concentrando esforços e atenção, juntos, em desfazê-lo... 

(6) Isso sem jamais emitir críticas pessoais, afinal estamos tratando de proposições, não de um concurso de simpatia. 

Dessa forma, poderemos até mesmo concluir sem desatar o nó, mas saberemos exatamente onde ele está. O comprometimento de qualquer dos passos acima acirrará a disputa e converterá o diálogo em um campo de batalhas inócuo. 

Quando desestabilizamos proposições, demonstrando a fragilidade ou a força de um argumento, desvelando falácias retóricas, desvios cognitivos, intelectivos ou éticos, desnudamos também o argumentador... sem fazê-lo de forma frontal ou deselegante. 

Tudo isso pode parecer lógico e sedutor, mas é muito complicado seguir o rito... As pessoas operam regidas por sua fisiologia, sujeitas à neurotransmissores e receptores, e ao tênue e dinâmico equilíbrio bioquímico que caracteriza nossa natureza, comportamento e personalidade. 

Um simples café, ou uma cervejinha, podem ser suficientes para mudanças no ânimo. Uma noite mal dormida, e mesmo a presença de uma platéia ou audiência, assim como interesses escusos, sempre estarão à espreita.

Somos distintos, complexos, e podemos estar entrincheirados pelo medo ou ambição; de forma que, não raro, a tarefa de dialogar se tornará inviável. A lucidez não é a regra, somos animistas, sectários, maniqueístas, tendentes à conclusões causais, dicotômicas... 

Existe a mera questão do abismo intelectual, ou na capacidade de formular questões e interpretar réplicas. E neste terreno, se for necessário seguir, não poderemos nivelar a conversação por baixo, e as metáforas e analogias anedóticas jogarão um precioso papel. Por outro estará - inexoravelmente - a capacidade de decodificar metáforas... e avançamos sobre o terreno Neuropsicológico da empatia, ou do ToM - Teory of Mind -, sendo esse um aprofundamento inadequado para o momento.

Gostaria de agregar ainda que diálogos saudáveis devem versar sobre proposições positivas, já que não podemos contestar nem endossar - de fato - proposições negativas. Ou seja, não podemos discutir sobre o que "não existe", mas podemos conversar e propor argumentos que descrevam o que sim existe. Trata-se de um absurdo lógico provar a veracidade de uma negação. 


Com certo aprofundamento epistemológico, podemos propor ainda que mantenhamos impávido o conceito do onus probandi... formulando teses que possam ser comparadas com a realidade, e comprovadas por fatos. Precisamos alicerçar afirmações com dados, informações acreditadas, que conciliam fatos. O que pode ser afirmado sem provas, pode e deve ser rechaçado sem provas. Mas a ausência de provas não é prova da ausência... e muito menos da existência - ou pertinência argumentativa.

Nos comunicamos muito melhor do que no passado, mas ainda nos comunicamos mal - lato senso. Então, precisaremos primeiro bem escolher as lutas que queremos lutar, afinal a vida é feita de uma sucessão de prazos finitos... e o tempo "ruge" lá fora.

Deixo como lembrete que uma comunicação ou locução saudável e produtiva deve considerar sempre os seguintes pilares:

(A) Domínio gramatical e semântico da língua vernácula ou meio linguístico de comunicação - e.g., português, espanhol, francês, inglês, hindi etc.;

(B) Construção lógica de sentenças, evitando falácias retóricas e intelectivas;

(C) Conhecimento prévio sobre o objeto ou conteúdo do debate;

Uma sentença adequada, em uma conversação séria e bem intencionada, deve estar corretamente expressa em termos gramaticais e lógicos, e primar pela qualidade de seu conteúdo. No mais, e sem mais, fico com um antigo slogan da Rockwell Automation:

LISTEN, THINK and SOLVE!

Sincera e atenciosamente.

Carlos Leger Sherman Palmer

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

ORQUESTRANDO A LIDERANÇA


Dedicado a Reginaldo Faria, grande "maestro"!!!


ORQUESTRANDO A LIDERANÇA

A primeira responsabilidade de um líder é bem definir a realidade. A última é dizer obrigado. Entre estes dois pontos, o líder deve servir. - Jacqueline du Pré
Na gestão, a primeira preocupação da empresa deve ser a felicidade das pessoas que estão ligadas a ela. Se as pessoas não se sentem felizes e não podem ser felizes, essa empresa não merece existir. – Kaoru Ishikawa

Faltam quinze minutos para o início do concerto. Dediquei algum tempo para encontrar o melhor local, e de olho no piano solo. Mas agora estou absorto, e namorando cada detalhe da arquitetura desse majestoso lugar. O teatro Dom Predro II em Ribeirão Preto tem um estilo arquitetônico próprio, adequado a espetáculos de ópera foi fundado na tradição das salas italianas. Em mais de cinquenta anos de história superou a decadência, foi parcialmente destruído por um incêndio, e ficou eternizado como a “Caverna do Diabo” - quando o seu subsolo recebeu bailes carnavalescos. Quase posso ouvir os sons do passado...

A orquestra já está no palco, e sou despertado de minha viagem no tempo pelo ruído e caótico do espetáculo dos músicos afinando os seus instrumentos... Scheherazade de Korsakov e sua leituras das Mil e Uma Noites está prestes a desabrochar. 20:00 e nem mais um minuto, e o maestro entra em cena. Todos os músicos se levantam em reverência, e ele se dirige ao primeiro violino para uma saudação especial. Agora é hora de receber o pianista com nova reverência. O protocolo de cordialidade e respeito está cumprido, e concerto pode começar. Mas o maestro se dirige ao público, visivelmente emocionado, e captura gentil e alegremente a atenção de todos ao passear pela sinopse da obra que será executada.

De súbito, uma linguagem que ainda não era capaz de entender, transforma o antes caótico cenário, agora em relutante silêncio, em harmonia e música... Gestos ininteligíveis para minha parca compreensão da música clássica parecem fazer todo o sentido para esta maravilhosa orquestra. E logo fica muito claro que todos aqueles espetaculares e virtuosos músicos estão sendo liderados para conjurar um espetáculo magnífico, e muito maior do que suas possibilidades individuais.

Mas suspeito que o segredo de toda esta orquestração não resida simplesmente no aprendizado da linguagem corporal do maestro, mas em um protocolo muito mais sútil, embora poderoso e eficaz, e que pretendo investigar. Também noto que os músicos focam mais em suas partituras do que no maestro... Seria o maestro de alguma forma dispensável? Qual o seu papel? Maravilhosos e bem treinados músicos, suas partituras, pentagramas, notas, divisões rítmicas... não está tudo ali naqueles documentos?

Neste concerto em particular não pude deixar de notar a alegria do maestro e o seu papel como mestre de cerimônias, conectando a sinfonia e os músicos à audiência. Senti certa perplexidade e sabia que estava diante de um momento especial; e a minha cabeça fervilhava de ideias e pensamentos, enquanto passeávamos de forma allegro non troppo pela primeira parte: O mar e o navio de Simbad. E percebi que estava bem diante de um exemplo sólido e elegante de LIDERANÇA. E percebi a importância de que este líder estivesse feliz, satisfeito com o seu trabalho... e percebi também que isso transcendia ao amor pela música. Ele estava feliz por partilhar outras estórias, as estórias de cada músico, do compositor, da obra, da audiência, de Steinway, Stradivarius, e mesmo daqueles que construíram, restauraram e conservaram esse teatro. Todas estas estórias estão sendo contadas em um concerto ao vivo, e eu percebia isso pela primeira vez.

Reconheço certo viés extático, afinal estava envolto por esta inebriante névoa clássica, épica, lírica. Mas tudo fazia enorme sentido, e ainda faz, enquanto relembro esta experiência, para conectar esta estória agora escrita com a estória de cada um que a estará lendo e encenando em seu teatro privado – a mente. Mas não basta o lirismo, e aprofundo minha observação... Quero produzir alguma noção prática, tangível, funcional, dessa experiência. Tudo isso fluía durante a segunda parte, apinhada de solos e variações dinâmicas, ora lento, depois andantino, allegro molto, e finalmente con moto...  para contar A história do Príncipe Kalender.

Passei a estudar o papel do maestro. E, analisando muitos vídeos, pude perceber que a minha analogia inicial, comparando um regente a um gestor, poderia estar equivocada; já que haviam diferentes tipos de maestros, diferentes estilos, indo da graça e elegância ao controle agressivo por meio de um gestual intimidante. E todos, em certa medida, pareciam funcionar perfeitamente. A minha esperança na analogia entre a regência e a gerência de um negócio parecia naufragar. Mas prossegui... até cruzar com a abordagem do maestro Itay Talgam, dedicada ao mesmo tema.

Talgam relatou o caso do grande maestro Ricardo Mutti, um dos estilos mais agressivos que já conheci, rsrsrsrs... Mutti costumava dizer que ele era o “responsável” por sua orquestra e pela obra; e entrevejo a palavra “chefe”. “Sou o responsável perante ele” – dizia olhando para o céu... E Mutti não se referia a nenhuma divindade, mas a Mozart:
Se eu sou o responsável por Mozart, esta será a única estória que será contada; como eu, Ricardo Mutti, o compreende.
E lá estava: eureca! Assim como na vida empresarial a liderança ou chefia de uma orquestra será exercida por homens... humanos, tropo umanos! E um traço em particular demarcava muito bem a fronteira entre um líder e um chefe: o personalismo

E a resposta a este personalismo seria igualmente agressiva; já que os 700 músicos do La Scala de Milão escreveram um manifesto dizendo a Mutti que:
Você é um ótimo maestro, mas não queremos trabalhar com você, por favor demita-se.
E agregaram ainda que eram músicos, humanos, e não meros instrumentos; e que não havia espaço expressar virtude, talentos e características individuais com alegria diante de tal controle estrito. Mas existem outras formas de exercer certo controle sem escorregar para a tirania. Richard Strauss, por exemplo, em seus Dez Mandamentos do Maestro escreveu:
Se está suando muito ao final do concerto, significa que não fez um bom trabalho [...] não olhe para os trombones, porque isso encoraja eles [...].
Particularmente considero o estilo de Strauss um tanto quanto apático, e ele deixa rolar... e isso até certo ponto também funcionou. Por outro lado Strauss escreveu sua própria música, e ainda assim regia olhando suas partituras, solicitando aos músicos que simplesmente seguissem as regras... sem interpretações. Sendo este outro tipo de autoridade. Afinal, como reger a terceira parte da obra de Korsakov sem suar a camisa? O Jovem Príncipe e a Jovem Princesa em andantino quasi allegretto, depois pochissimo più mosso, come prima e pochissimo più animato... Como estar piú animato em um fraque sem suar?

O grande maestro Karajan tinha um estilo mais fluido, nebuloso, intimista, misterioso, quase enigmático; o que permitia espaço para a má interpretação de seus gestos. Quando perguntado sobre os riscos de provocar confusão entre os músicos, mesmo na filarmônica de Berlin, ele explicou que o primeiro músico está atento aos seus gestos, enquanto os demais seguem a este músico, de forma que uns seguirão aos outros. Karajan acreditava que isso induzia algum tipo de interação de grupo; de forma que gostava de acentuar que os seus comandos nunca eram muito claros.

Tenho as minhas ressalvas sobre este modelo, já que Karajan regia com os olhos fechados, e seus músicos pareciam estressados tentando interpretar o que fazer. Em um episódio em Londres o flautista perguntou: “Maestro, quando devo começar?”; ao que Karajan respondeu: “Quando não estiver mais aguentando.”. De todas as formas este estilo também guardava muito personalismo, já que todos estavam tentando descobrir o que Karajan desejava. Era a música dele, o estilo dele, e de olhos bem fechados para outras necessidades. Este também era um controle rígido, embora exercido pela evocação de abstrações, e disfarçando mais uma vez a figura de um chefe... um chefe bem misterioso neste caso.

O caso que muito me impressionou, no entanto, foi o estilo de Carlos Kleiber. Ele regia com alegria, conectado aos músicos e à audiência, fiel à obra, mas solto e quase íntimo... como o maestro de Ribeirão Preto. Kleiber consolidava as minhas suspeitas sobre a possibilidade de liderar em lugar de chefiar uma orquestra. Assim como acredito ser possível liderar uma companhia ao invés de chefiá-la, abarcando as diferentes personalidades humanas, aplicando este mesmo conceito a diferentes negócios, produtos e serviços, fruto de diferentes histórias, e que participarão das estórias e histórias de outras pessoas e empresas.

Kleiber viaja na obra, mas abrindo espaço para a expressão da virtuose individual em meio a uma condução segura, embora saltitante... Como na Festa em Bagdá e no Naufrágio do Barco nas Rochas, fechando a quarta parte da obra de Korsakov em allegro molto, vivo e allegro non troppo maestoso. Assim como fizera o maestro Cláudio Cruz, regente apaixonado da Orquestra Jovem do Estado, ao abrilhantar o espetáculo no Teatro Dom Pedro II.

Afinal, e quando aprimoramos ou reinterpretamos uma obra, também estamos construindo uma nova estória dentra da história. Não proponho aqui que divaguemos sobre a obra, e em absoluto, mas sim que alimentemos a liberdade criativa humana, e que contemos a mesma estória em outro tempo, e um outro capítulo histórico. Mas como isso acontece? Como este mágico momento acontece?
É como estar em uma montanha-russa [...] Mas as forças desse processo por si só mantém você no caminho. – Itay Talgam
Isso enquanto cada um se expressa de maneira individual, em um processo relativamente controlado...  A confiança, o respeito, a liderança segura e justa, transforma toda a orquestra em uma fraternal parceria – como em um barco a remo. Podem haver disputas internas, diferentes temperamentos e níveis de ambição, mas o processo não pode acomodar e incentivar ambições desmedidas, ou todos naufragam.

Todos precisam conhecer seus papéis, e estar em boa forma para exercê-los, além da alegria; mas a liderança os transformará em um organismo orquestrado... Os procedimentos estão lá, as partituras; o plano está traçado, assim como os diferentes protocolos a serem seguidos. Existe uma métrica subjacente, uma divisão rítmica, o tempo está contado. Mas subsiste a alegria da expressão e do orgulho pessoal como colaborador, como parte do grupo, atentos ao líder que por sua vez vibra com a performance de cada um, e de todos.

Uma apresentação de Kleiber em especial é fantástica, e quando um trompetista comete não um, mas três erros consecutivos; o maestro sutilmente indica a falha uma, duas, três vezes, e demonstra a sua autoridade sem perturbar o andamento de toda a orquestra. Kleiber é sutil na puxada de orelha, e demostra toda a sua maestria como líder. Um dos maiores desastres em uma empresa ou organização é viver em um ambiente de intriga e fofoca; mas o problema será infinitamente maior quando os próprios líderes alimentarem intrigas e fofocas.

Empresas modernas têm estudado ambientes e sistemáticas que não valorizem o péssimo hábito de falar pelas costas. A transparência e a ética serão bens muito valiosos nas próximas décadas. Um líder deve dar o exemplo; afinal, de alguma forma ele deve replicar o DNA da empresa em sua conduta. Estamos enveredando por um caminho onde o compliance deixará de estar só no papel. Na dúvida, faça o que é correto.

Em diversos momentos é possível notar na regência de Kleiber quando ele abaixa corpo, como se rendesse honras ao solista, e parece mesmo baixar os braços para apreciar o solo... É magistral, é excepcional. Ele rege com os olhos – bem abertos -, com a boca, com todo o corpo, e de repente, suspende tudo e se curva para apreciar os seus músicos... seus parceiros. Ele está lá, está entregue ao que faz, mas não está mandando... está conduzindo e apreciando o trabalho de seus colaboradores. Kleiber circunscreve o processo dentro de um objetivo, e passa então a servir sua orquestra, para finalmente agradecer pelo belíssimo trabalho... ou pelo incansável empenho. 

Não seria possível adentrar este mundo tão sutil, e esta linguagem tão maravilhosa, sem a ajuda de Talgam e a inspiração de Cláudio Cruz. E gostaria de tocar em um último ponto: a liderança não é um jogo de soma zero! O êxito de um líder não pode implicar em perdas e descaracterização de seus liderados. Eles estão no mesmo barco. O progresso não é um jogo de soma zero... E por esta razão estamos vivendo três vezes mais, morrendo quarenta vezes menos ao nascer, e somos cem vezes menos violentos do que no passado. O progresso, em termos objetivos, mais parece uma curva ascendente em forma de serra. As subidas e descidas produzem desvios cognitivos. E apesar dos psicopatas à solta nas altas esferas corporativas e políticas, a compaixão tem ganho a batalha.

E, ao entender tudo isso, será possível extrair boa música de sua empresa... e praticar a verdadeira liderança. Mutti tinha sempre a mesma expressão no rosto; Kleiber interpreta suas obras com tudo o que existe nele. Esta é a suma experiência da entrega. Um líder deve entregar-se... em sacrifício. E você poderá sentir e ver a música em seu rosto.

Leonard Bernstein tem uma variação do estilo de Kleiber, com maior desenvoltura nas obras que retratam o sofrimento – talvez por ser judeu. Em determinado momento, em meio à regência, Bernstein costumava colocar a batuta debaixo do braço, como se dissesse ao solista: agora você está comando, companheiro! Um líder não rouba a cena, ele promove seus colaboradores, ele faz música com eles.

E finalmente, um líder se torna um exímio contador de estórias... Bernstein simboliza este gesto em uma regência única de sua orquestra de câmara. Ele coloca a batuta debaixo no braço e passa a admirar todo o concerto, apenas fazendo movimentos com a face, com os olhos, boca, sem perder o controle... É sensacional! Bravo, bravíssimo!!!


Carlos Sherman