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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Buddha e o Bud-'ismo'...




Buda e o Bud-'ismo'...

Interessei-me pelo Budismo através da leitura e releitura de duas obras literárias: 1) O clássico 'Siddharta', de Hermann Hesse - Nobel de Literatura por 'O Lobo da Estepe'; 2) Seguido por 'A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen', de Daisetsu Teitaro Suzuki - famoso com o Professor D.T. Suzuki... Deixei-me invadir pela beleza, pureza e fluidez, da atitude, filosofia e mensagem - que imaginei - budista... E frequentei o círculo budista em Campinas por cerca de um ano, na década de 90... Distinguo o Budismo - e o Taoísmo - das religiões abraâmicas, e mesmo de outro vieses religiosos do mosaico indiano de crenças... Na verdade não considero que Siddhartha Gautama, 'O Buda', tinha em mente uma religião, e muito pelo contrário... Mas aqueles que fundaram o Budismo, e baseados naquilo que puderam entender sobre a sua a vida, sim... Eles queriam continuar 'ligados' ao Buda...

Mas o Budismo - construído sobre a interpretação da tradição oral de Buda - terminou por firmar-se como religião, apesar de não personificar um deus, e "não praticar o proselitismo" - entre aspas... Estabelecendo dogmas e crenças, como a reencarnação, inferno, fantasmas, milagres, etc... De todas as formas, ainda vejo o Budismo, em sua essência, mais como uma filosofia de vida do que uma religião formal... Os ensinamentos básicos do budismo são: evitar o mal, fazer o bem, e desenvolver a mente; mas valendo-se para isso de uma 'descrição' sobrenatural da vida... 

Para o Budismo, e em suma, o objetivo de nossas vidas, é atingir o fim do ciclo de sofrimento, ou Samsara, despertando o 'praticante' para o entendimento da realidade última, ou Nirvana... Mas para isso, vale-se da conceituação moral, entre bem e mal, certo e errado, e caminho para a purificação...  Evidentemente, sem o apelo dramático e a violência das religiões judaico-cristãs-islâmicas, mas com um forte apelo ao sobrenatural, ainda mais exótico e acentuado...

O primeiro passo no budismo, é aceitar que 'o desejo causa inevitavelmente a dor'... Deve-se portanto eliminar o desejo para eliminar a dor... Com a eliminação da dor, se atinge a paz interior... O que para eles é sinônimo de felicidade... Simples assim... Mas isso contraria absolutamente tudo o que sabemos hoje sobre o Ser Humano, sua Neurologia, Fisiologia, Sistema Endócrino, além dos desígnios de nossa Genética, e os impactos da Cultura, do Aprendizado, e da Cadeia de Eventos e Desafios de nossa vida... 

Matar o 'ego', ou eliminar o desejo, é portanto, no meu conceito, morrer duas vezes...

Os conceitos de sofrimento e de prazer, necessitam de urgente atualização e revisão por parte do Budismo, e à luz de nosso tempo, e do conhecimento disponível... A moral budista está baseada nos princípios de preservação da vida e moderação, dois excelentes princípios, mas que não necessitariam assistir ao funeral do 'prazer' para serem praticados... O 'treinamento mental' do budista, está centrado na disciplina moral (sila), na concentração meditativa (samadhi), e busca pela sabedoria (prajña)... Mas quando falamos em sabedoria, não estamos falando de outra coisa senão a sabedoria budista... Não estamos falando de 'conhecimento', embora o budismo, em tese, não esteja na contramão do conhecimento científico...


"A base do budismo é a compreensão das Quatro Nobres Verdades, ligadas à constatação da existência de um sentimento de insatisfação (Dukkha) inerente à própria existência, que pode no entanto ser transcendido através da prática do Nobre Caminho Óctuplo. Outro conceito importante, que de certa forma sintetiza a cosmovisão budista, é o das três marcas da existência: a insatisfação (Dukkha), a impermanência (Anicca) e a ausência de um "eu" independente (Anatta)"...  

As Quatro Verdades Nobres são quatro afirmações que descrevem o sofrimento:

1) A Natureza do Sofrimento (Dukkha)
"(..) esta é a nobre verdade do sofrimento: nascimento é sofrimento, envelhecimento é sofrimento, enfermidade é sofrimento, morte é sofrimento; tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero são sofrimento; a união com aquilo que é desprazeroso é sofrimento; a separação daquilo que é prazeroso é sofrimento; não obter o que queremos é sofrimento; em resumo, os cinco agregados influenciados pelo apego são sofrimento.(..)"

2) A Origem do Sofrimento (Samudaya)
"(..) esta é a nobre verdade da origem do sofrimento: é este desejo que conduz a uma renovada existência, acompanhado pela cobiça e pelo prazer, buscando o prazer aqui e ali; isto é, o desejo pelos prazeres sensuais, o desejo por ser/existir, o desejo por não ser/existir.(...)"

3) A Cessação do Sofrimento (Nirodha)
"(..) esta é a nobre verdade da cessação do sofrimento: é o desaparecimento e cessação sem deixar vestígios daquele mesmo desejo, o abandono e renúncia a ele, a libertação dele, a independência dele.(...)"

4) O Caminho (Mārga) para a cessação do Sofrimento
"(..) esta é a nobre verdade do caminho que conduz à cessação do sofrimento: é este Nobre Caminho Óctuplo: entendimento correto, pensamento correto, linguagem correta, ação correta, modo de vida correto, esforço correto, atenção plena correta, concentração correta.(...)"

Só que a 'renuncia ao prazer' é sofrimento... E a renúncia no nível exigido pelo budismo, é sofrimento elevado à milésima potência... A RENÚNCIA À PRÓPRIA NATUREZA HUMANA... A morte em vida... Seria como receitar a alguém, que quer emagrecer, inocule em si mesma o vírus da AIDS? Como podemos evitar sofrer, evitando de viver? Cômodo, covarde, ilógico... Só faria sentido se nos apegássemos às falácias metafísicas da 'alma', 'vida após a morte', entre outras crenças já abolidas pela Ciência Moderna... De forma que a relação entre Budismo e Ciência é um tremendo absurdo... 

Podemos realmente relativizar toda esta questão, se argumentássemos que a vida - em última análise -, não tem sentido... Nem moral e nem prático, posto que a nossa exígua existência, em tempos cósmicos, assim como a nossa insignificância, em termos de participação no desenrolar cósmico do Universo, garante que não vamos mesmo a nenhuma parte... Meros e reles mortais... Insignificantes... Posto isso qual seria a diferença de passar os dias paralisado no meio da mata, em posição de 'lótus', deixando que os passarinhos façam ninhos em sua cabeça; ou sair para trabalhar em uma manhã de segunda-feira, voltar pra casa, pra sua família, escrever um post, encontrar amigos, viajar a Paris? Mas dadas as condições evolutivas da minha mente, e a saber que a minha Genética e a minha Neurologia me impelem a criar, lutar e sentir prazer, porque devo negar a minha natureza? Não tive os mesmos problemas que Buda para conviver, entender e aceitar o sofrimento... Siddartha teve uma vida incomum, que de muitas forma o impeliram a exagerar suas ações, conforme veremos mais adiante, e chegar a uma conclusão óbvia para ele, mas desnecessária em nossos dias, de que o desejo é sofrimento...

O PRAZER - QUE ADVÉM DO DESEJO - DISTINGUE O HOMEM!!!

Algumas pessoas, são impulsionadas por sua Genética a necessitar de roteiros para viver... Precisam seguir uma cartilha, um mestre, um líder... Para atingir uma condição que parece óbvia e cotidiana para uns - viver em paz consigo mesmo -, outros necessitam sentir o 'sacrifício' e praticá-lo... A questão temporal ou contextual também se impõe, posto que a quase 2.500 anos nada sabíamos sobre o Homem sua Fisiologia, Genética, Neurologia... Assim como nada sabíamos sobre a Vida e o Universo... Embora tenhamos avançado vertiginosamente sobre tais conceitos, uns sentem mais afinidade em seguir uma precária percepção sobre o sofrimento e o prazer humano do que atualizar-se em 2.500 anos para conviver simples e harmoniosamente com o sofrimento e o prazer; e com tudo o mais que nos cerca, invade e acomete...

O roteiro budista para vencer o sofrimento, e eliminar o prazer, considera a rígida observância do 'Nobre Caminho Óctuplo':

1) Visão ou Entendimento correcto (samyag-dṛṣṭi • sammā-diṭṭhi):
"(...)E o que é o entendimento correto? Compreensão do sofrimento, compreensão da origem do sofrimento, compreensão da cessação do sofrimento, compreensão do caminho da prática que conduz à cessação do sofrimento. A isto se chama entendimento correto.(...)"

2) Intenção ou Pensamento correcto (samyak-saṃkalpa • sammā-saṅkappa): 
"(...)E o que é pensamento correto? O pensamento de renúncia, o pensamento de não má vontade, o pensamento de não crueldade. A isto se chama pensamento correto.(...)"

3) Palavra ou Linguagem correcta (samyag-vāc • sammā-vācā): 
"(...)E o que é a linguagem correta? Abster-se da linguagem mentirosa, da linguagem maliciosa, da linguagem grosseira e da linguagem frívola. A isto se chama linguagem correta.(...)"

4) Atividade ou Ação correcta (samyak-karmānta • sammā-kammanta): 
"(...)E o que é ação correta? Abster-se de destruir a vida, abster-se de tomar aquilo que não for dado, abster-se da conduta sexual imprópria. A isto se chama de ação correta.(...)"

5) Modo de vida correto (samyag-ājīva • sammā-ājīva):
"(..)E o que é modo de vida correto? Aqui um nobre discípulo, tendo abandonado o modo de vida incorreto, obtém o seu sustento através do modo de vida correto. A isto se chama modo de vida correto.(...)"

6) Esforço correto (samyag-vyāyāma • sammā-vāyāma) : 
"(...)E o que é esforço correto? (i) Aqui, bhikkhus, um bhikkhu gera desejo para que não surjam estados ruins e prejudiciais que ainda não surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. (ii) Ele gera desejo em abandonar estados ruins e prejudiciais que já surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. (iii) Ele gera desejo para que surjam estados benéficos que ainda não surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. (iv) Ele gera desejo para a continuidade, o não desaparecimento, o fortalecimento, o incremento e a realização através do desenvolvimento de estados benéficos que já surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. A isto se denomina esforço correto.(...)"

7) Atenção correcta (samyak-smṛti • sammā-sati): 
"(...)E o que é atenção plena correta? (i) Aqui, bhikkhus, um bhikkhu permanece focado no corpo como um corpo - ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. (ii) Ele permanece focado nas sensações como sensações – ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. (iii) Ele permanece focado na mente como mente - ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. (iv) Ele permanece focado nos objetos mentais como objetos mentais - ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. A isto se denomina atenção plena correta.(...)"

8) Concentração correta (samyak-samādhi • sammā-samādhi): 
"(...)E o que é concentração correta? (i) Aqui, bhikkhus, um bhikkhu afastado dos prazeres sensuais, afastado das qualidades não hábeis, entra e permanece no primeiro jhana, que é caracterizado pelo pensamento aplicado e sustentado, com o êxtase e felicidade nascidos do afastamento. (ii) Abandonando o pensamento aplicado e sustentado, um bhikkhu entra e permanece no segundo jhana, que é caracterizado pela segurança interna e perfeita unicidade da mente, sem o pensamento aplicado e sustentado, com o êxtase e felicidade nascidos da concentração. (iii) Abandonando o êxtase, um bhikkhu entra e permanece no terceiro jhana que é caracterizado pela felicidade sem o êxtase, acompanhada pela atenção plena, plena consciência e equanimidade, acerca do qual os nobres declaram: ‘Ele permanece numa estada feliz, equânime e plenamente atento.’ (iv) Com o completo desaparecimento da felicidade, um bhikkhu entra e permanece no quarto jhana, que possui nem felicidade nem sofrimento, com a atenção plena e a equanimidade purificadas. A isto se denomina concentração correta.."

Tudo isso segue por um bom caminho, e enaltecendo verdadeiras virtudes... Mas repito, sem prazeres não somos humanos... A Testosterona, a Serotonina, a Endorfina, as Dopaminas, a Oxitocina e a Vasopressina, nos tornam Humanos - Demasiado Humanos... E o convívio com outros humanos, o compartilhar, a troca, a inter-relação humana, é essencial em nossa natureza, e por isso inventamos a linguagem, além de uma miríade de formas comunicação... A arte, o esporte, a música...


PARA QUE A NOSSA EXISTÊNCIA HUMANA
 SEJA 'TESTEMUNHADA...


Podemos manter o prazer humano intacto, e buscar, em meio ao desejo, ao prazer, e com ainda mais prazer, uma vida Ética... Alinhando o nosso 'saber que', com o nosso discurso ou descrição, e com nossas ações conscientes... Registrando a nossa experiência e feed-back, através do 'saber como'...

Reflita sobre isso... Com prazer...

O conceito de 'Karma' (ou ação) é utilizado abundantemente tanto no Budismo, como em outras religiões - Hinduísta, Jainista -, tendo sido adotado também pelo Espiritismo e pelo Esoterismo em Geral... Trata-se de uma aplicação moral do esquema newtoniano de 'ação e reação', aplicado aos homens, suas atitudes e suas consequências 'morais'... Se praticou o mal, então receberá em resposta o mal, na mesma intensidade... Se praticou o bem, então receberá de volta o bem na mesma intensidade... O 'Karma' é a insistência de projetar a moralidade sobre o Universo, sobre a Natureza, e sobre a Vida...


Trata-se de uma visão simplista da vida, equivalente ao jargão cristão 'aqui de faz aqui se paga'... Só que no caso do Budismo, 'aqui se faz, mas pode ser pago em prestações, através de várias vidas'... Este simplismo - Casas Bahia - decorre, assim como em todas as religiões, da dificuldade encontrada por seus praticantes, ainda nos dias de hoje, para conviver com sistemas caóticos, complexos, probabilísticos... Essa dificuldade, tem ao menos uma severa consequência: 


O magnânimo arsenal do sobrenatural, repleto de crendices, esoterismos, misticismos, e apontado contra a vida humana simples, real e saudável...


Quando não estão entorpecidos por falsas promessas de salvação, vida eterna, milagres, etc, estão tratando de matar o que há de mais humano: O DESEJO, O PRAZER...

Curiosamente, o Budismo é uma tradição 'não-teísta'... E por que não dizer 'ateísta'? Porque o 'não-teísmo' do Budismo, ainda assim, possui conotação sagrada, e uma moral 'teísta' para o Universo, assim como um caminho moral para a 'purificação', ou eliminação do sofrimento, fé, milagres, inferno, e até um equivalente ao 'Juízo Final'... Além de referenciar Buda como uma espécie de Messias... Ou seja, o 'pseudo não-teísmo' budista, torna o Budismo, na melhor das hipóteses, uma Religião Não-Teísta...   



O renascimento,  ou reencarnação, fundamental para o Budismo, 'ocorre dentro de um dos seis reinos', de acordo com 'os nossos reinos de desejos':
1) Seres dos infernos: aqueles que vivem em um dos muitos infernos;
2) Preta: o reino de seres que padecem de necessidades sem alívio, sofrimento, remorsos, fome, sede, nudez, miséria, sintomas de doenças, entre outros;
3) Animais: um espaço de divisão com os humanos, mas considerado como outra vida;
4) Deva: comparado ao PARAÍSO;
5) Semideuses: variavelmente traduzido como "divindades humildes", demônios, titãs e antideuses; não é reconhecido pelas escolas Teravada e Maaiana;
6) Seres humanos: um dos reinos de renascimento, em que é possível atingir o nirvana.


Tudo muito simplista e arbitrário, refletindo o estado de desconhecimento vigente na época, e encontrado também em outra religiões...


A teoria budista mais próxima do "Fim do Mundo" ou "Juízo Final", é chamada de Era Mappou... Map (matsu) significa final ou término, e po (hou) do Dharma... Dharma significa "Lei que rege o Universo" ou "Caminho para a Verdade Superior"... Sendo que o final dos tempos seria caracterizado pelo crepúsculo do Dharma, onde os ensinamentos, sua prática e efeitos, se ocultariam devido à ignorância dos seres quanto a Lei Universal... Bem bíblico, apesar das alegorias e da suavidade da mensagem... Apesar da conotação 'espiritualista' ou vaga, existe também referência ao fim do mundo material - o que incluiria os seres vivos -, o 'Ciclo dos 4 Kou' (ou Kalpas, transformações): Formação (Jyoukou), Vida (Jyuukou), Destruição (Ekou) e Vacuidade (Kuugou)... Sugerindo a sua repetição eterna...


O nascimento de Siddhartha, 'O Buddha', também guarda semelhanças com outros nascimentos de divinais - apesar da frequente negação de que o Buddha fosse ou seja uma divindade... Conforme a tradição shakya, quando a mãe de Siddhartha, a rainha Maya, estava prestes a dar a luz, ela deixou o seu reino, dirigindo-se para o reino de seu pai... Lembrado que Siddhartha era filho de pais nobres, que seguiam a tradição de castas... Mas Maya, com uma gestação de 10 meses, foi obrigada a dar a luz no caminho, em Lumbini - hoje no Nepal -, em um jardim, debaixo de uma árvore, em 563 a.C. ou 623 a.C.... Outras fontes citam com precisam 565 a.C.... 


Segundo a tradição, o Jardim de Lumbini (no Nepal de hoje), era "um parque cheio de flores lindas a desabrochar e correntes de águas cristalinas, numa floresta tranquila e bonita. Quando - Maya - estendeu a mão para colher um ramo florido de uma árvore “ashoka”, nasceu o Sidharta Gautama, o futuro Buddha."... O pequeno Siddhartha teria - imediatamente ao nascer - dado 'sete passos' em cada uma das 'quatro direções cardinais'... Então "flores brotaram do chão no local de cada passo, e um doce néctar caiu do céu banhando-o... Com a mão direita apontando o céu e a mão esquerda apontando para a terra, o recém nascido teria dito: 


“Entre o céu e a terra, sou eu o mais honrado”


Poético, mitológico, inverossímil e extremamente contraditório... Primeiro porque Siddhartha permanece ignorante sobre a sua condição de 'predestinado' até os 29 anos... Depois porque muitas outras fontes na mesma tradição, denotam que Siddhartha manteve uma postura de humildade em sua conduta, nascer dizendo 'eu sou o tal', não condiz com tais conceitos... 


Por volta do ano 600, os japoneses uniram às festividade budistas já existentes – o Banho do Buda-nenê (Kambutsu-e) e a cerimônia do Nascimento do Buda (Gotan-e) – mais uma que é o popular Festival das Flores (Hanamatsuri)...


Maya, sua mãe, faleceu uma semana após o nascimento de Siddhartha... Diz a lenda que ela "foi dormir sorrindo e não despertou; acabou renascendo em Trayastrinsha, o paraíso dos trinta e três deuses".... Exótico, sobrenatural... Mas Maya provavelmente morreu decorrente das complicações no parto de 10 meses, em um ambiente pouco adequado...


DEVEMOS RESPEITAR, SENTIR E ACOLHER O PRAZER, DEVEMOS COMPARTILHAR O PRAZER, ENALTECENDO A MARAVILHOSA POSSIBILIDADE DE VIVER - AO INVÉS DE NEGAR A VIDA... VIVER E TER A SUA VIDA TESTEMUNHADA... ISSO SIM NOS TORNA HUMANOS... 'DEMASIADO HUMANOS'... ISSO SIM PRODUZ VERDADEIRA FELICIDADE E ÊXTASE... SIDDHARTHA, O BUDDHA, NUNCA PÔDE SENTIR ESSA SENSAÇÃO... TRISTE DESTINO...


Podemos fazer uso de silogismos baratos, mas estaremos nos afastando da verdadeira essência de SER HUMANO... O silogismo budista pode ser expresso por:


- A vida não pode ser plena porque existe o sofrimento [Premissa Maior (P)];
- Todo prazer gera sofrimento [Premissa Menor (p)];
- Logo, eliminando o prazer alcançaremos a plenitude da vida [Conclusão (c)];


Mas na realidade, a premissa de que 'a vida não pode ser plena porque existe o sofrimento', não diz muito... Muitos aspectos da vida, além do sofrimento, impedem uma 'vida plena', a ignorância por exemplo... O medo... Tudo por ser convertido em sofrimento, forçando a barra, mas tal premissa pode ser derrubada ou relativizada... 'Sofrimento' é antes de tudo um conceito semântico... O que causa sofrimento para você pode ser natural pra mim, e vice-versa... Novelas, BBB, Futebol, causa sofrimento aos meu sistema neural... E pode causar prazer para você... E o que diremos dos sadomasoquistas? Sabemos, com evidência e comprovação, que as diversas experiências da vida deflagram diferentes coquetéis bioquímicos em nosso corpo, criando variedade em nossa experiência... A tese de Siddhartha de que o desejo ou o prazer causam sofrimento é completamente refutável, e sem dúvida improcedente... Sabemos que certas experiências causam dor, alegria, medo, ansiedade, desejo... Somos muito mais do que uma redução 'sofrimento-prazer', e é este simplismo que conduz a todo este 'mal entendido' por parte de Siddhartha...


As conclusões de Siddhartha dependem exclusivamente de sua experiência, crenças, frustrações, medos... A experiência de Siddhartha não pode, sob nenhum pretexto, ser generalizada e ampliada, sem uma análise isenta e descritiva de suas vida... O despreparo de Siddhartha para o convívio com a realidade é flagrante... Siddhartha sofre um choque de realidade depois de 29 anos enclausurado por seu pai, e sem contato com a realidade, preso em um mundo fantasioso, em plena cultura védica... E então, decide fugir de tudo em sua vida, e até fugir de estar vivo - tentando o suicídio -, sob pretexto de 'fugir ao que entende por sofrimento', eliminando a sua causa primária, o prazer... Tudo isso, de forma demasiadamente simplista, porém claramente contraditória... 


Que sofrimento pode ser maior do que lutar contra a nossa volição natural de desejar, de buscar e sentir prazer? Trata-se de um argumento falacioso ou Falácia da Definição Contraditória ou do Reductio ad Absurdum... 


Já mostramos que a subsequente premissa de que 'todo prazer gera o sofrimento', também pode ser facilmente derrubada, com argumentos e provas... Somos dotados de um Sistema Neural Complexo, que caracteriza o homem como um ser vivo dedicado ao prazer... Não podemos - e não devemos - escapar à nossa própria natureza, sob pena de estarmos questionando a própria natureza humana.... E qual o valor deste gesto, senão apagar nossos vestígios de humanidade, para existir somente em forma 'molecular'? A Genética é uma impulsão feroz, embora não determinística... Mas por que deveríamos negar a nossa natureza? Acho que a lógica para vida plena pode ser 'tateada' por outro silogismo:

- As nossas ações na Vida, são fortemente dirigidas - e não determinadas - pela Fisiologia - decorrente de nossa Genética. Embriogênese, Neurologia, Endocrinologia, etc;
- As nossas ações na Vida, são fortemente influenciadas por nosso aprendizado sobre a vida, conhecimento e crenças, estímulos e bloqueios;
- As nossas ações na Vida, são também deflagradas em resposta aos desafios impostos pelo meio caótico;
- Logo para buscar uma vida plena, devemos respeitar a nossa natureza humana, maximizando-a pelo aprendizado, para conciliá-la com os desafios impostos pelo meio;


E com muito prazer...

O silogismo central no Budismo, pode ser refutado e tipificado como argumento falacioso, através de vários padrões consagrados e nomeadas abaixo:


1) Apelo à Autoridade;
2) Apelo à Emoção;
3) Apelo à Consequência;
4) Argumento ad ignorantiam;
5) Magister dixit (Meu mestre disse);
6) Argumentum verbosium (Prova por Verborragia ou Eloquência)
7) Complexo do Pombo Enxadrista;
8) Conclusão Irrelevante;
9) Definição Contraditória;
10) Latissimo definition (Definição Muito ampla);
11) Citatus generalization (Generalização Apressada ou Falsa Indução);
12) Egocentrismo ideológico;
13) Equívoco;
14) Estilo sem substância;
15) Evidência anedótica;
16) Explicação incompleta;
17) Explicação superficial;
18) Falácia da pressuposição;
19) Falácia nomotética;
20) Non causae ut causae (Tratar como Prova o que não é Prova);
21) Falácias tipo "A" baseado em "B" (outro tipo de conclusão sofismática):
Ocorrem dois fatos. São colocados como similares por serem derivados ou similares a um terceiro fato.
Ex.:
A vida não pode ser plena porque está cheia de sofrimento.
O prazer traz o sofrimento.
Logo, eliminando o prazer teremos uma vida plena.
22) Invenção de Fatos;
Consiste em mentir ou formular informações imprecisas.
Ex.: A causa da gripe é o consumo de arroz.
23) Inversão de causa e efeito:
Considerar um efeito como uma causa.
Ex.: A propagação da SIDA foi provocada pela educação sexual.
24) Reversal de onere probandi (Inversão do ônus da prova);
25) Petitio principii (Princípio Pré-Validado);
26) Post hoc ergo propter hoc (Depois Disso, Por Causa Disso);
27) Reductio ad bsurdum (Redução ao absurdo);
28) 'Reificação': Ocorre quando um conceito abstrato é tratado como coisa concreta.
Ex.: A tristeza de Joãozinho é a culpada por tudo.
29) Teoria irrefutável;

O Cânone - ou conjunto de regras ou ensinamentos sagrados - do Budismo, se divide em três grupos de textos, conhecidos também como 'O Triplo Cesto de Flores': 1) Sutra Pitaka: agrupa os discursos do Buddha tais como foram recitados por Ananda no primeiro concílio; 2) Vinaya Pitaka: reúne o conjunto de regras que os monásticas, ou seja, que os 'monges budistas' devem seguir - à risca -, e cuja transgressão é alvo de penitência; 3) Abhidharma Pitaka: trata do aspecto filosófico e psicológico contido nos ensinamentos do Buddha, incluindo uma lista de termos técnicos...


É importante ressaltar novamente, que o Buddha - O Iluminado - transmitiu a sua mensagem de forma oral, e sem deixar escritos... Vale notar então, que o Budismo foi então fundado por seus seguidores e após a sua morte, baseados apenas na 'interpretação da tradição oral de Siddhartha Gautama'... Logo após a morte de Buddha, no Concílio de Rajaghra, os discípulos diretos do Budha se reuniram para recitara os ensinamentos 'sagrados' diante de uma assembléia de monges... Estas recordações e testemunhos, conforme entendimento ou desentendimento, sofreriam a ação do tempo para mais 6 séculos - 600 anos -, até começarem a ser escritas no Sri Lanka, onde se constituiu o denominado Cânone Pali... Este Cânone, ou conjunto de textos sagrados e aceitos, é considerado pela tradição 'Theravada' - ou 'Doutrina dos Anciões' - como o que mais se aproxima dos ensinamentos do Buda... 


Duvido muito que as idéias de Buddha possam ter sido preservadas depois de seis séculos de 'telefone sem fio', sem documentos, sem certeza, sem esclarecimentos, dependendo do entendimento de 'não iluminados'... Muito deve ter sido perdido, mal entendido, e severamente alterado pela ação da cultura, da política e dos interesses... Muito embora o Cânone Pali não seja tratado como a  Bíblia ou Alcorão, por seus seguidores, existem regras, penitências, rituais, ordenação, hierarquia, organização, e mistérios... A semelhança de propósitos não pode deixar de ser notada...

Sobre Siddhartha Gautama, sabemos que foi um nobre e príncipe de etnia 'shakya' - sendo considerado como o 'Sábio dos Shakyas'... Siddhartha nasceu em '563 AEC', ou '565 AEC', ou '623 AEC', em Lumbini - atualmente situada no Nepal -, no nordeste da Ásia Meridional; e morreu aos 80 anos, em '483 AEC' ou '543 AEC', na cidade de Kushinagar - atualmente situada na Índia... 


Siddhartha foi educado por sua tia e irmã mais nova de sua mãe, Maha Pajapati, e estava destinado à vida da realeza, possuindo inclusive três palácios particulares... O seu pai era o rajá Shuddhodana Gautama, membro de uma casta guerreira... Shuddhodana, aos 50 anos, havia perdido as esperanças de ter um filho e herdeiro, e Maya, sua esposa, estava então com 45 anos... 


Porém por obra do 'espírito santo', e como reza a lenda, Maya sonhou com um 'belo elefante branco, com seis presas' - e uma tromba enorme, rsrsrs -, e 'sete sábios interpretaram o sonho como o prenúncio do nascimento de um filho prodigioso', e profetizaram que ele seria um 'imperador universal' se vivesse no palácio de seu pai, ou um asceta se renunciasse ao trono... Desta forma, obcecado pela formação de seu filho e sucessor, Shuddhodana tratou de protegê-lo e apartá-lo de todo e qualquer contato com o 'sofrimento humano'... Isso pode ter produzido em Siddharta dos efeitos explosivos... Primeiro, o tema 'sofrimento' passou a ocupar lugar central em sua visão da vida, posto que estava oculto e proibido... E depois, apartado do contato com o 'sofrimento', Siddharta estava incapacitado para conviver 'naturalmente' com as vicissitudes das vida...



O 'Sonho de Maya', nos remete irremediavelmente à outros nascimentos - virginais ou não - por obra do 'espírito santo', ou o 'Ricardão Místico'... Depois de décadas de um matrimônio sem filhos, e antes dos anti-concepcionais, parece lógico que um dos dois poderia ser estéreo...  Sabemos, depois do 'sonho' de Maya, que não era ela... Diz a lenda que, "no momento em que a primavera nascia, um sonho veio a Maya enquanto ela dormia. Ela viu um jovem elefante descendo dos céus. Tinha seis grandes presas; era tão branco quanto a neve sobre o topo da montanha. Maya o viu entrar em seu útero, e milhares de Deuses subitamente apareceram diante dela. Eles louvaram-na com canções imortais, e Maya compreendeu que nunca mais sofreria de inquietação, ódio ou ira."... Observem o poder de um orgasmo!!! 'O Elefante' - simbologia apropriada - era bom de cama... 


E a narrativa segue: "Então, ela despertou. Estava feliz; era uma felicidade que ela jamais sentira antes. Levantando-se, ela vestiu-se de cores brilhantes e, seguida pelas suas mais belas acompanhantes, passou através dos portões do palácio. Caminhou nos jardins até chegar a um pequeno bosque, onde encontrou um lugar à sombra. Então, ela enviou duas de suas acompanhantes ao Rei Suddhodana [..] Ele caminhou em direção ao bosque, mas, no momento em que estava prestes a entrar, um estranho sentimento lhe acometeu. Seus membros fraquejaram, suas mãos tremiam, e lágrimas brotaram de seus olhos. E ele pensou: “Nunca, nem mesmo no calor da batalha quando enfrentava meus mais bravos inimigos, me senti tão profundamente abalado como neste momento. Por que não posso entrar no bosque onde a rainha me aguarda? Alguém pode explicar essa minha agitação?” Foi quando uma poderosa voz trovejou no céu:
'Sinta-se feliz, Rei Suddhodana, o mais digno dos Shakyas! Aquele que busca a Suprema Sabedoria está prestes a vir ao mundo. Aquele que escolheu pertencer à sua família em razão da sua fama, boa sorte e virtude, e que escolheu para sua mãe a mais nobre de todas as mulheres, sua esposa, a Rainha Maya. Sinta-se feliz, Rei Suddhodana! Aquele que busca a Suprema Sabedoria, de bom grado será seu filho!'"


Ou seja, através de diversas fontes e motivos, um 'predestinado', e que 'busca a suprema sabedoria', havia sido PROFETIZADO... De forma que Buddha sofreu esta pressão e foi doutrinado para ser um 'Iluminado'... Portanto, Buddha ansiava por isso... Assim como temia o sofrimento, de forma frágil e quase doentia... Tal encontro de contas entre a fantasia e sua educação, apartando-o da realidade mundana, terminou por produzir uma trajetória errante, e de final contraditório... Buddha é endeusado somente por entender a obviedade....


Seguindo a narrativa da Fábula da Concepção de Buddha: "O Rei sabia que os Deuses estavam falando, e regozijou-se. Recobrando a sua serenidade, ele entrou no bosque onde Maya o aguardava. Ele a viu, e calmamente, sem arrogância, indagou-lhe: 'Por que mandou procurar-me? O que você deseja?'. A rainha contou-lhe do sonho que teve, e então disse-lhe: 'Meu senhor, há brâmanes que são sábios na interpretação de sonhos. Procure-os. Eles saberão se o palácio foi visitado por deuses ou demônios, e se devemos regozijar ou lamentar.' [ou pelo Ricardo Místico, o Homem Elefante... que estorinha safada]... O rei concordou com a rainha, e brâmanes familiarizados com o mistério dos sonhos foram convocados ao palácio. Quando ouviram a história de Maya, falaram dessa maneira: 'Uma grande alegria deve ser sentida, oh Rei, oh Rainha. Vocês terão um filho, distinto pela graça Divina. Se, um dia, ele renunciar à realeza, deixar o palácio, deixar o amor de lado; se, movido pela compaixão para com os mundanos, ele escolher a vida errante de um monge, ele merecerá os mais elevados louvores, merecerá os mais magníficos oferecimentos. Ele será adorado pelos mundanos, pois ele lhes dará aquilo que eles anseiam. Oh mestre, oh mestra, vosso filho será um Buda!'”


E mais: "Os brâmanes se retiraram. O rei e a rainha entreolharam-se, e suas faces tornaram-se radiantes de felicidade e paz. Suddhodana então ordenou que esmolas fossem distribuídas aos pobres em Kapilavastu; que comida fosse oferecida aos famintos, bebida aos sedentos, e que as mulheres recebessem flores e perfumes. Maya tornou-se objeto de veneração do povo; os doentes lotavam o seu caminho, e quando ela estendia a sua mão direita, eles eram curados. O cego viu, o surdo ouviu, o mudo falou, e quando moribundos tocavam uma folha da grama que ela havia recolhido, recuperavam imediatamente a sua saúde e energia. E sobre a cidade, uma melodia incessante era trazida pelo vento, flores raras choviam do céu, e cânticos de gratidão alçavam o ar ao redor das muralhas do palácio."



'Espírito santo', milagres, profecia sobre um 'Imperador do Universo'... Bem bíblico...


Aos 16 anos, Siddartha teve um casamento arranjado com sua prima da mesma idade, Yasodhara, e teve um filho, Rahula... Siddhartha viveu então, até os 29 anos de sua vida, como um príncipe em Kapilavastu... Siddharta então decidiu fazer o que qualquer jovem de hoje faria, saiu para ver o mundo... Completamente alienado e despreparado para tudo o que encontraria, e considerado como um 'predestinado', Siddharta pode ter entrado em profundo estado depressivo, e simplesmente não aguentado a pressão... Sua 'realidade' e 'realeza' não era REAIS...


Apesar dos esforços de seu pai para escondê-lo dos doentes, moribundos, e do 'sofrimento presente no mundo', ou das simples dificuldades e desafios da vida, como envelhecer, lutar, chorar, persistir, Siddhartha - entre um palácio e outro - teria visto um homem velho quando passava pela rua, e indagando o seu cocheiro descobriu - pasmem - que as pessoas envelheciam, adoeciam, e morriam... Siddharta entrou em flagrante crise existencial, abandonando o palácio, e correndo o mundo... Um espécia de 'A Vida de Truman - Jim Carrey'... 


Já com o pé na estrada, Siddhartha tem um encontro com um asceta, um homem despojado e mendicante, muito doente e em estado terminal... A partir deste encontro,  o mimado Siddharta decide superar o sofrimento, as doenças, a velhice e a morte através do ascetismo... Sem apegos e prazeres não haverá sofrimento, pensavam os ascetas, e assim pensou ele... 


Mas penso eu: 'sem prazeres, e por que não dizer sem sofrimentos, não há vida...

Siddhartha seguiu então a sua sina de mochileiro aristocrático despojado, acompanhado por seu cocheiro e seu cavalo, e mergulhou em uma vida ascética, como  mendicante... Toda esta estória é cercada e embalada por muito misticismo, e feitos miraculosos... Ele esteve sob orientação de 'sábios' eremitas, que haviam optado, antes do que ele, por matar sua vida social... Siddharta foi encorajado diversas vezes, ao longo de sua jornada, a assumir a posição de mestre, mas sempre recusou...


Através de práticas iogues, Siddharta buscava a 'iluminação' através da privação de bens materiais, incluindo a alimentação, e praticando a 'automortificação' - mais conhecido como suicídio... Depois de passar fome até o limite da morte, restringindo a sua dieta a 'uma folha' por dia, ele caiu em um rio durante um raro momento de banho, e quase se afogou... Siddhartha começou então a reconsiderar seu caminho... Bom,  afinal, já estava na hora de amadurecer garotão... Foi então que ele se recordou de um momento singelo em sua infância, quando sentava-se para observar o seu pai arar o campo... E neste momento, Siddharta declarou ter atingido um estado concentrado, focado, feliz e abençoado, o Jhana, ou estado meditativo... 


Após ter alcançado este estado meditativo, 'Gautama Jr.', 'percebeu' que deveria estar no caminho certo para a 'Iluminação', e que as suas privações e o seu ascetismo extremo não haviam funcionado... É a isso que ele e os budistas chamam de caminho do meio... Mas percebam aqui que, uma vida ponderada e normal, para Siddharta, é algo extraordinário... O seu exagero nas conclusões, deriva do seu profundo despreparo para a vida real, e da sua dificuldade em entender e diferenciar o sofrimento dos desafios - essências ao desenvolvimento -, e depois em entender os prazeres simples da vida... A realeza fantasiosa foi a sua única referência enquanto sua personalidade era formada... Um filho mimado de um pai super protetor, predestinado a ser o 'imperador universal'... E tal profecia, associada com sua busca, produziu o que a Mitologia chama de 'mito'...


Entre a realeza e a miséria, Siddharta descobriu o óbvio, e descobriu o que os Budistas chamam de 'Caminho do Meio'... O caminho para a moderação, afastando os 'extremismos', a 'autoindulgência', e a 'automortificação'... Mas estes 'males' só eram concebíveis na cabeça de Siddhartha, imerso em muito misticismo e desconhecimento... Afinal, quem pensa em suicidar-se quando tem a maravilhosa oportunidade de viver? Alguém com sérios problemas, como Siddhartha...


Os fiéis seguidores de Buda, enaltecem a sua dita Iluminação, quando na verdade deveriam perguntar-se: 


'COMO ALGUÉM PODE SER TÃO DESPREPARADO, A PONTO DE RICOCHETAR ENTRE EXTREMOS, CONSIDERANDO COMO CAMINHO DE VIDA TIRAR A PRÓPRIA VIDA?' Para finalmente concluir que era mais sábio 'segurar o tchan', mais conhecido como 'caminho do meio'... 


Todas as alegorias, o exotismo, o esoterismo, e a ritualística budista, escondem contradições mais do que óbvias... Trata-se de uma Falácia Anedótica, discorrendo sobre uma linda e interessante estória, sobre o suposto equilíbrio de Buddha, mas que na verdade demonstra o oposto... Toda esta fábula, demonstra na verdade, um profundo desequilíbrio, e que no final sucumbe ao óbvio...


Mas como uma fábula como essa chega até os nossos tempos? Esta questão vale para todas as crenças, e a Mitologia, apoiada pala Genética, Neurociência e pela 'Memética', oferecem pistas seguras... Ainda hoje, podemos assistir ao frenesi Indiano da 'crença na crença', mas não tão longe dali, outro frenesi está em curso, em Jerusalém, judeus, cristão e islâmicos se espremem e se estapeiam entre as vielas da cidade sagrada para 'ter em que acreditar'... Pensar não é uma opção... São adeptos fervorosos, ou escravos do 'simplismo causa e efeito'... Entender o ciclo da água já é uma tarefa dura... Melhor acreditar que 'deus mandou chover, porque eu rezei'....


Um famoso incidente 'fantasmagórico', envolvendo Siddharta, ajuda a compreender sua 'transcendência' ao nível de 'divindade espiritual'... Depois ter ficado extremamente fraco, devido à sua 'greve de fome', protestando e atentando contra a própria vida, ele aceitou 'leite e pudim de arroz de uma garota chamada Sujata'... Tal era a aparência pálida - e azul - de Siddhartha, que Sujata teria acreditado, erroneamente, que ele seria um espírito que lhe realizaria um desejo... Gautama então, entrou na dança, e sentou-se sob uma árvore - que era uma Ficus religiosa -, conhecida agora como a 'Árvore de Bodhi' - em Bodh Gaya -, e jurou nunca mais se levantar enquanto não tivesse encontrado a verdade... Teimoso este menino... Sempre extremado... Bipolaridade, depressão, fuga da realidade, talvez esquizofrenia... Mas seguramente mimado e confuso... 


Conclui a lenda que após 49 dias de meditação e já com a idade de 35 anos, Gautama finalmente alcançou a tão sonhada e profetizada 'iluminação espiritual'.... Desde momento em diante, ficou conhecido por seus seguidores como 'O Buddha' ou 'O Iluminado'...


O ascetismo de Siddhartha, e sua insistência em matar-se para atingir a plenitude da vida, não deixa de ter um forte traço bíblico e Cristão... Vencer a morte pela morte... Cristo se sacrifica, sabendo que será morto, planeja e cumpre a sua Via Crucis, em flagrante ato de suicídio... E para que? Para redimir o homem, e para vencer a morte... Vencer a morte pela morte? Como, por que, baseado em que princípios? E mais, mesmo depois de renunciar ao ascetismo, Siddharta teima e matar o prazer, e consequentemente, privar-se de viver... Sentado em sono profundo, sonhando, ao invés de simplesmente viver...


De acordo com o Budismo, durante a sua Iluminação (ou Nirvana), Siddhartha teria compreendido a causa de todo o sofrimento e os caminhos necessários para eliminá-lo: o desejo e a sua respectiva eliminação... O Buddha descreve o nirvana como um estado de perfeita paz mental e livre de toda ignorância, inveja, orgulho, ódio e outros estados aflitivos; pela eliminação do prazer... O 'Nirvana' também é conhecido como o fim do 'Ciclo Samsárico', ou mundano, em que nenhuma 'identidade pessoal' permanece... Posso até entender, embora com ressalvas, que matar o prazer termine por controlar a a inveja, o orgulho e ódio... Mas não posso pensar em uma conclusão mais 'ignorante'... Matar o prazer não elimina a ignorância... Trata-se um ato de suprema ignorância, por ignorar e negar a óbvia, e comprovada, NATUREZA HUMANA...


Com a morte do eu, suprime-se a VIDA... Superar a morte com a morte 
é um Reductio ad Absurdum... 
Um argumento falacioso, e bem primitivo...

Embora o Budismo alegue não ser uma tradição prosaica, não encorajando pregações e conversões, após a sua 'Iluminação', Siddhartha viajou por  45 anos pregado e difundindo as suas crenças, até a sua morte em Kushinagar, no atual estado de Uttar Pradesh, na Índia... Ou seja, Siddhartha passou todo o resto de sua vida em pregações... 


O seu corpo foi cremado por seus amigos, sob a orientação de Ananda, seu discípulo favorito... As cinzas foram repartidas entre vários governantes, para serem veneradas como relíquias sagradas... Com que propósito? Senão o de reconhecê-lo como uma espécie de divindade? Assim como a veneração e busca dos cristãos pelos restos mortais do seu 'Buddha', ou Cristo...


Os Sufis dizem que o ensinamento morre com seu mestre... Os seguidores de Buddha - e isso se ele realmente atingiu um estado de percepção extraordinária, o que particularmente duvido -, não vivenciaram o que ele vivenciou... Quero dizer com isso que o Budismo é um pálido reflexo do que Buddha possa efetivamente ter realizado... Epistemologicamente falando, suponhamos que Buddha 'sabia como' produzir um determinado efeito sobre si mesmo, ou sobre as pessoas, e como atingir determinados fins... Mas certamente ele não 'sabia' sobre 'que' mecanismos físicos, bioquímicos, psíquicos, fisiológico, neurológicos, suas ações estavam atuando, e como o fenômeno poderia ser entendido e explicado... 


Novamente, Buddha não deixou nenhum escrito direto, posto que a sua 'experiência de' ou o seu 'saber como' foi transmitida de forma oral... E a menos que a sua experiência tenha sido vivenciada por outros, o seu conhecimento morreu com ele...

Buddha, foi 'endeusado' no Budismo, que ele não criou... Um Budismo estruturado, com regras para observância et cetera... A mensagem e sobretudo a atitude de Buddha, foram extremamente deturpadas pelo Budismo, que ainda assim, conservou muito de sua beleza e relevância, como a atitude filosófica ou caminho de vida... Mas, por exemplo, o nascimento de Buddha foi convertido em milagre, e toda uma vasta mitologia foi construída em torno de um homem que, ao que tudo indica, nunca pretendeu ser deus... 

Buddha silenciou muitas vezes quando perguntado sobre questões metafísicas, a finitude da vida, a existência da alma, REENCARNAÇÃO... Demonstrando respeito pelo seu 'desconhecimento' epistemológico, pois Buda 'sabia', pela 'experiência', 'como' uma determinada ação resultava em um determinada consequência, mas não 'sabia descrever' este fenômeno... Aqueles que vieram depois dele, sem a mesma 'familiaridade' e a experiência pessoal - e intransferível - de Buddha, podem ter visto apenas a sua sombra, e olhando desde abaixo... E construíram mistérios, e misticismo, onde Buddha 'entendeu' apenas complexidade... E silenciou... Honesta e eticamente... Não quis pois, perturbar o silêncio, se nada havia a ser dito...

Por isso, e paradoxalmente, a mensagem de Buddha é tão atual, enquanto o Budismo não... Mas qual foi a mensagem de Buddha? No caso clássico da reencarnação, sempre esteve claro para mim que Buddha se referia a várias vidas, mas não sobrenaturais... Buddha estava, na minha concepção, referindo-se às mudanças que se processam em nossa vida, como na narrativa de Hesse... No final, 'Siddharta' fita o rosto de 'Govinda', e contempla a multiplicidade da vida, recordando todos os seus caminhos, e 'percebendo', cognitivamente, pela experiência, a beleza da vida... Buddha, pode  não ter se referido a morrer, e depois reencarnar, fisicamente... Não no meu entendimento... O medo da morte, a perda do mestre, e a falta da experiência, e 600 anos de 'telefone sem fio' foram catalisadores de tantas besteiras cometidas ou propostas, e ESCRITAS, em nome de Buddha... 


A Mitologia erigida em nome de Buda, mas sem o seu aval, a exemplo do que ocorre em outras religiões, trouxe detrás de si uma forte e exótica ritualística, envolta em mistério, com direito a ordenações, vida monástica, milagres, e a presença constante do 'sobrenatural' - decorrente da incompreensão generalizada... Buddha não foi entendido, e mais, foi distorcido de forma ingênua mas caricata.... O força de sua busca, no entanto, vence os entraves da incompreensão, para seguir inspirando a muitos - meio bilhão em todo o mundo -, e a sua brisa suave ainda permeia os Templos Budistas...

Em seu ensaio epistemológico 'Os Problemas da Filosofia', o genial Bertrand Russell distingue o “conhecimento por descrição” - uma das formas de 'saber que' -, do “conhecimento por familiaridade” - ou 'saber como'... Gilbert Ryle também dedica atenção especial à distinção entre “saber que” e “saber como” em seu 'O Conceito de Mente'... Em 'Conhecimento Pessoal', Michael Polanyi argumenta em favor da importância e relevância da Epistemologia do 'saber-como' e do 'saber-que'... Usando o exemplo do equilíbrio envolvido em andar de bicicleta, sugerindo que o conhecimento 'teórico da física na manutenção do estado de equilíbrio' não pode substituir o conhecimento prático sobre 'como andar de bicicleta'... Para Polanyi, as duas coisas são importantes, a experiência do 'saber como', a o entendimento do 'saber que'... Ryle - autor da frase "the ghost in the machine" ou "o fantasma na máquina", como crítica à falaciosa dualidade cartesiana do corpo e mente, e da existência da 'alma' - ,argumenta que, se não considerarmos as diferenças entre 'saber-que' e 'saber-como', seremos inevitavelmente conduzidos a um regresso ao infinito, ou mesmo à argumentação falaciosa... A experiência é pessoal, intransferível, pode e costuma falhar, e desde Kant, precisamos de isenção para descrever um fenômeno... E desde os pré-socráticos, e formalizado pelo Método com Galileu, precisamos de evidências tangíveis, fora da mente de quem 'crê', para construir a busca pela verdade...

E lembrem-se, antes de emitir opinião ou crítica, que não discuto a honestidade e atitude ética de quem pratica o Budismo... Discuto idéias, fatos, a partir de uma argumentação lógica, bem fundamentada, e igualmente honesta e ética... O meu interesse é a verdade, acima de tradições, experiências pessoais, grupos e corporações... Considero a mensagem budista pacífica, gentil, e pura...



"Não acredite em algo simplesmente porque ouviu. Não acredite em algo simplesmente porque todos falam a respeito. Não acredite em algo simplesmente porque esta escrito em seus livros religiosos. Não acredite em algo só porque seus professores e mestres dizem que é verdade. Não acredite em tradições só porque foram passadas de geração em geração. Mas depois de muita análise e observação, se você vê que algo concorda com a razão, e que conduz ao bem e beneficio de todos, aceite-o e viva-o."
Atribuído a Siddhartha Gautama - 'O Buda'




Escrevi este texto por AMOR, HUMANIDADE e PRAZER... Muito prazer... Um prazer humano, demasiado humano...

FIAT LUX

Carlos Sherman


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