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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Cee Lo Green e o revisionismo...




Fonte: Psychology Today
Autor: Dave Niose
Tradução: André Rabelo

Apresentando-se na Times Square na véspera do ano novo, o rapper Cee Lo Green causou polêmica quando trocou as letras da clássica canção de John Lennon “Imagine.” Ao invés de desejar um mundo onde não haja “nothing to kill or die for, and no religion, too“ (“nada para matar ou morrer por causa, e nenhuma religião também”), como Lennon havia escrito, Green substituiu a afirmação: “…and all religion’s true.” (… e toda religião é verdadeira”).

Se Green pensou que seu revisionismo seria apreciado por todos espectadores, ele estava errado. A crítica direta de Lennon à religião organizada em “Imagine,” uma canção lançada três anos antes de Green ter nascido, é um mantra importante para milhões de fãs não-religiosos, e a ideia de que isto poderia ser casualmente mudado para um significado oposto é, bem, um certo sacrilégio. “Certamente isso foi desrespeitoso com a intenção de John Lennon e em sua memória por ter feito isso,” escreveu um ativista secular e fã de Lennon.

Green respondeu às objeções via Twitter com uma afirmação visando controlar o dano. “Yo eu não pretendi desrespeito ao mudar as letras pessoal!”, ele twitou. “Eu estava tentando dizer um mundo onde você possa acreditar no que você quiser só isso.”

E “yo”, baseado nisso nós podemos supor que Green provavelmente tinha boas intenções, mas são exatamente estas boas intenções que pavimentam a proverbial estrada para o inferno. As impressionantes ironias no revisionismo de Green são numerosas.

Primeiramente, existe a ironia de um streetwise rapper transformando uma música subversiva, contra o sistema, em uma música suave e conformista. Green pega a mensagem radical de Lennon (Imagine um mundo sem religião) e transforma ela em uma teologia pop que iria declarar cada pregador fundamentalista e cada artista televangelista como sendo tão “certo” quanto qualquer humanitário verdadeiro. “Apenas acredite em algo!” Green diz ao mundo. Nós não deveríamos de maneira alguma ficar surpresos de saber, como descobrimos se visitarmos o site de Green, que este rapper valentão está agora trabalhando para a Disney.

Em seguida, existe a ironia da impossibilidade, do fato da mensagem de Green não poder ser verdadeira. Embora o exercício de indiscrição artística de Green possa ser visto, como ele sugere, como um apelo pela tolerância, Green é ingênuo de pensar que a melhor maneira de transmitir a mensagem de tolerância seria sugerir que todas as visões religiosas estão corretas.

Porque elas não estão. Ou Jesus foi o filho de Deus que renasceu dos mortos, como os Cristãos afirmam, ou ele não foi. Ou a salvação é alcançada unicamente pela fé, como certos cristãos protestantes afirmam, ou ela não é. Ou a Igreja Católica é a única fé verdadeira, como ela tem frequentemente afirmado ser ao longo dos anos, ou ela é puramente uma instituição feita por homens. Ou Muhammad foi um profeta que recebeu comunicações diretas de Deus, como muçulmanos afirmam, ou ele não foi. A mesma questão sobre o status de profeta seria aplicável a Joseph Smith e o mormonismo. Todas as religiões do mundo são baseadas em afirmações específicas de fatos objetivos que são verdadeiros ou não, e vale a pena apontar que muitas destas reivindicações de verdade entram em conflito umas com as outras, ao ponto de que elas têm sido a base para muita guerra e violência. É simplesmente impossível que todas elas pudessem ser verdadeiras.

É legal que Green lute pela harmonia, mas a verdade lamentável é que a harmonia real é altamente improvável entre as religiões organizadas, um fato que sem dúvida Lennon tinha em mente quando escreveu “Imagine.” Quando as religiões mantiveram o poder, elas forçaram brutalmente a sua versão da verdade, frequentemente exterminando até mesmo aqueles com diferenças teológicas menores. Considere as hostilidades históricas generalizadas entre católicos e protestantes, por exemplo, ou entre sunitas e xiitas. Considere a intolerância cruel dos puritanos de Massachusetts do século dezessete, que executaram os companheiros cristãos por  conta de pequenas diferenças religiosas. O sonho de Disney, de leões dançando com antílopes, iria parecer mais realista do que a visão de harmonia de Green entre as religiões do mundo.

Mas existe ainda mais ironia relacionada com o revisionismo lírico “feel-good” de Green, e é o fato de que ele marginaliza implicitamente um grupo chave que as letras originais de Lennon fortaleceu. Ao fingir que não existem discordâncias entre as religiões do mundo, Green encoraja a suposição falsa de que toda crença é inofensiva, que tudo vai ficar bem contanto que todos nós acreditemos em algo. Tais suposições perigosas sobre religião exaltam incorretamente a própria noção de crença, ao invés de noções mais importantes de pensamento crítico, comportamento ético e poder de questionamento. Lennon disse a uma geração para pensar, agir e desafiar a autoridade, enquanto Green sugere que todos crentes podem simplesmente apertar as mãos e cantar “Kumbaya.” Talvez Green nunca tenha considerado isto, mas sua exaltação da crença – qualquer crença  - permite que apenas um grupo permaneça fora do âmbito da aceitabilidade: os descrentes.

Isto não pode ser o que Lennon quis dizer com “Imagine there’s no heaven…” (Imagine que não há um paraíso).

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Imagine que não existam imbecis como Cee- Lo!!!

Carlos Sherman

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