Pesquisar este blog

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Vamos a Darcy Ribeiro...



Hakani: a indiazinha que foi enterrada viva mas sobreviveu graças a seu irmão... Na foto, com sua mãe adotiva, a Sra. Márcia Suzuki, porta-voz do movimento pela abolição do infanticídio indígena, o ATINI... Na outra foto, estado em que Hakani se encontrava quando foi salva pela segunda vez (www.atini.org )... Não estou publicando estas imagens para suscitar nenhum tipo de agressão aos índios, ou retomar o debate sobre o 'Relativismo Cultural', mas apenas para reforçar que quando Darcy Ribeiro diz que os 'índios' são mais humanos do que os europeus, estamos cometendo também uma injustiça... Darcy deveria aplicar o mesmo relativismo utilizado para outras questões... Dois pesos, duas medidas... Por que? Os  Índios enterravam - e enterram, em menor escala - os seus gêmeos, crianças com problemas congênitos e filhos de mães solteiras - vivos - por ignorância... Não podemos relativizar a ignorância neste caso, ou seja, eles ignoravam que tais características, gêmeos ou problemas congênitos, nada tem a ver com espíritos malignos... Este e outros desconhecimentos, teriam permitido que milhares de crianças tivessem gozado sua vida, e pode salvar outras tantas nos dias de hoje... De forma que saber como as coisas funcionam será sempre melhor do que não saber, e só assim gozamos efetivamente da liberdade de escolha: SABENDO e ESCOLHENDO... Cultuar o estado primitivo, é uma questão ultrapassada, assim como impedir que as pessoas, índios ou não, vivam em espaço aberto, e da forma como melhor lhes convier... Respeito aos costumes, dentro do possível, e aplicação da lei em todo o território nacional... Não quero fazer disso uma tábua de salvação, mas matar crianças não pode ser um 'relativismo cultural'... Os índios, em geral, são culturalmente  inofensivas, e em sua esmagadora maioria, de forma que podemos perfeitamente criar espaços e reservas onde quem queira permanecer ou curtir a condição indígena, terá assegurado o seu direito... Matar não...












Darcy Ribeiro morreu como um bravo e disso não restam dúvidas... Andou em péssima companhia, Brizola, Allende, entre outros nefastos populistas de tempos idos, e disso também não restam dúvidas... E trabalhou pra eles... Mas não quero julgar suas preferências pessoais e políticas, a não ser porque acabaram por impregnar sua obra 'científica', antropológica, filosófica e sociológica - suas ideias... Sem dúvida, Ribeiro foi um grande 'realizador', mas isso, per si, não confere necessariamente 'mérito' e sim 'ação'... O conteúdo de tais realizações merece ser examinado... E eu examinei... 

Degustando mais uma vez, a poética e célebre frase de Darcy Ribeiro:
Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.
Ouso desafiar os desafetos mais ardorosos quando penso: 'acho que sei porque'... Acho que sei porque, apesar de toda a obstinação, empenho e coerência, Ribeiro sente o peso do fracasso...

O desenlace desta verdadeira pérola, no entanto - "Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu." -, significa que 'ou você seguia o que Darcy pregava, e da forma como ele pregava, ou estava errado, e contra ele'... E tais palavras me remetem ao célebre desfecho da carta de despedida do suicida Getúlio Vargas: "Deixo a vida para entrar na história"... Primeiro pela magnitude do verso, e da verdadeira e crucial emoção que salta do papel... Depois porque foram, ambos, grandes realizadores, e podem ter amargado a mesma consoante agonia de não saber 'onde erraram'... Historicamente...

Para criticar respeitosamente, não a pessoa, mas as ideias do ícone nacional 'Darcy Ribeiro', grande homem, grande 'realizador', escolhi sua obra magna, intitulada com enlevo e ar de propriedade: 'O Povo Brasileiro'... 
Referências:RIBERIO, Darcy. O Povo Brasileiro. A formação e o Sentido do Brasil. São Paulo. Companhia das Letras, 2ª edição, 1995.
Confesso que, quando pus os olhos nesta obra, e orgulhoso de traze-la comigo para casa, um clássico, pensei tratar-se de um trabalho científico... Pensei também que, como Darcy escrevia muito bem, tal leitura poderia se transformar em uma viagem surpreendente e deliciosa pelo 'povo brasileiro'... Mas estava confundindo Darcy Ribeiro com Claude Levi Strauss, e nunca mais voltarei a fazê-lo... 


O currículo de Ribeiro impressionava, apesar de não compartilhar dos seus arroubos políticos e populistas, mas ser imortalizado pela Academia Brasileira de Letras - ao lado de Sarney e Paulo Coelho -, não é para qualquer um... Juntei, então, um título ambicioso, um currículo - digamos - inconteste, e lá estava eu a caminho de uma deliciosa leitura... 

Ribeiro auto-definia o livro, assim:
"[...] Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles negros e índios supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos. Como descendentes de escravos e de senhores de escravos seremos sempre servos da maldade destilada e instilada em nós, tanto pelo sentimento da dor intencionalmente produzida para doer mais, quanto pelo exercício da brutalidade sobre homens, sobre mulheres, sobre crianças convertidas em pasto de nossa fúria."

E acirra:
"A mais terrível de nossas heranças é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista." (1995, p.120)

São brados retumbantes... E pensei: 'certamente Darcy Ribeiro estará em condições de defender tais posições'... Ledo engano... Não havia avançado muito, quando já sentia certa indignação pela insistência de Ribeiro em sustentar que o seu trabalho era 'científico'... Depois porque a crítica havia sido francamente favorável a este livro, e finalmente porque tal 'obra', figura entre as dez mais vendidas, no rol 'não ficcional', em nosso país... Como? Confesso que a primeira coisa que me veio à mente foi a Bíblia, como baluarte da sabedoria e da inspiração humana, e a resposta de Ingersoll: 'a inspiração bíblica depende da ignorância de quem lê'... E deste sério aforisma, deduzi, 'ou a crítica não leu, ou é ignorante em antropologia e sociologia, assim como sobre a normativa básica de um bom discurso filosófico e acadêmico'... 


Definitivamente 'O Povo Brasileiro' não merece ser estudado... Não se trata de um trabalho científico... Trata-se, tão e somente, de uma bandeira velha e carcomida, que não deveria inspirar um leitor minimamente iniciado no ceticismo, no livre pensamento, e na análise crítica... Isso para não mencionar as ciências ditas antropológicas e a sociológicas...

Neste ponto, uns dirão: 'mas quem é este cara para criticar o saudoso Darcy Ribeiro?' Em minha defesa direi apenas que sou um homem livre, ético, logo cético, um estudioso contumaz da Antropologia, da Sociologia, da Filosofia, da Neurociência, da Genética, entre outras disciplinas; e inciado na 'pensabilidade', e versado na epistemologia... Mas sobretudo um homem livre e interessado... E finalmente despido de idolatria, todas elas... Mas precisarei de mais do que isso, precisarei de argumentos...

'O Povo Brasileiro', não é só uma falácia, em sua pretensa abordagem científica; é péssimo... Um livro que seguramente foi comprado por pseudo-intelectuais, ou pela elite que Ribeiro critica, para ilustrar suas estantes e à vista de outros pseudo-intelectuais, mas bem distante do alcance de suas mãos... E não seria possível sustentar com altivez tais comentários polêmicos, sem ter vivido a amargor de levar a cabo a leitura de 'O Povo Brasileiro' até o fim... Mas não foi a primeira vez que 'aguentei um livro', e de um tempo pra cá, com a experiência, tais enganos passaram a não mais consumir meu tempo... Iconoclasta que sou, já não me guio pelo culto à personalidade, nem por currículos pomposos, intelectuais ou populares... Sei entrar em uma livraria sem levar lixo para casa... Mas algum lixo foi trazido, e acredito ter feito bom uso da experiência... E aqui estou reciclando uma boa parte do lixo 'sócio-ideológico' produzido em nosso país... 

O livro está formatado como científico, notas, extensa bibliografia, índice, etc - embora, para entoar seus próprios ritos, e sua mera opinião, Ribeiro não necessitasse de tanto, ou nem recorrer a quase nada, senão à sua visão no espelho... Mas deparei-me com uma panfleto fora de época, mesmo para 1995... O meu conceito de ciência, pressupõe de entrada, uma abordagem objetiva da vida, e a obra de Ribeiro não poderia ser mais subjetiva...

O primeiro problema encontrado, além da ausência de uma abordagem objetiva, é a tentativa de substituir as demonstrações e provas pela autoridade do autor... O Argumentum ad verecundiam (ou Argumento da Autoridade) ou Argumentum magister dixit (ou O Mestre Disse), toma o currículo do autor, e sua pretensa posição social ou intelectual, como demonstração suficiente para suas proposições... E em particular este foi o primeiro incômodo...

Como um ilustre desconhecido, sinto o peso de não dispor de projeção acadêmica, para ver também as minhas ideias respeitadas e debatidas... Mas por outro lado, não basta um currículo para que as suas ideias sejam reverenciadas... Um proposição deveria ser julgada anonimamente, para enfim mostrar sua cara... Isso seria justo em se tratando de proposições objetivas, para evitar as idolatrias eternas...

E aqui arrisco desenvolver a provocação supra-assinalada, de que 'acho que sei porque' Darcy Ribeiro sentiu o peso de seu fracasso... 
Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias.
Ribeiro foi doutrinado na Era da Utopias... Alfabetizar crianças não é uma tarefa fácil, muito menos pela via do 'utópico', estapafúrdio e eleitoreiro CIEPs, do populista Brizola... Devemos trabalhar pelo melhoramento contínuo, e todo dia, e não apenas com decretos oportunistas... Mas a base da 'pensabilidade' de Ribeiro é rançosa, velha, utópica e falha... Proteger os índios é uma tarefa necessária, porquanto são cidadãos brasileiros; propor que sua cultura é melhor, é uma falácia romântica... Acolho o 'Relativismo Cultural', mas com reservas... Deixaremos, por exemplo, que algumas tribos continuem enterrando pares de gêmeos vivos? Estamos em território brasileiro, e existe uma constituição que rege direitos de deveres de todo cidadão brasileiro... Independente de raça, credo, e 'cultura'... 


Esta - perdoem - falácia, da vitimologia indígena, e do malefício ocidental, já não é respeitada em nossos dias, em já não era respeitada em 1995, porque parte de pré-conceitos arraigados, e de conceitos extraordinariamente refutados pela própria antropologia e pelas ciências sociais... Mas não pelo feudo filosófico e teimoso de Ribeiro...

Estudei na UnB de Ribeiro, e que pese, apesar do idealismo inflexível de Ribeiro não ter vingado, ipsis literis, a UnB é uma grande Universidade... Pode não ser a melhor, nem ser o exemplo utópico que Darcy ambicionou, mas é uma boa universidade... Em seu livro de 1978, "UnB - Invenção e Descaminho", publicado pela editora Avenir, Ribeiro descreve o fim de seu sonho e creditado à 'ditadura militar', o 'descaminho' da UnB, enquanto endeusava seres esdrúxulos do marxismo soviético.... Assassinos que deixariam qualquer general sulamericano 'en pañales'; mas que na utopia do 'sonho darcyniano' posavam para a foto ao seu lado, logo, bons meninos... Ribeiro, aquele mesmo que queria expulsar a Argentina e o Uruguai da América Latina, por serem "brancos demais"...

Um homem que se levanta para reafirmar os valores da liberdade, ideais de educação, e cita regimes marxistas e seus débeis protagonistas, não merece mais do que risadas, ou uma camisa de força...

O que venceu Ribeiro, foi a teimosia obtusa, embora obstinada... Sua obstinação ficou visível até em sua morte, mas a sua teimosia cega, nunca foi entendida por ele mesmo, e o que dirá por seus adeptos de carteirinha... Se Ribeiro tivesse sacudido a poeira de seu tempo, e aprendido mais com seus fracassos, não precisaria - apesar do apelo poético -, depois de derrotado, seguir considerando que somente os seus conceitos estavam corretos... Na verdade Ribeiro foi um vencedor, sem ter percebido, não pela ironia ácida, mas pela COERÊNCIA; mesmo com um discurso entremeado por violentos surtos de auto-engano... Mas 'sua devoção à causa', o impediu de brilhar para todos, e não apenas para os seus fiéis devotos...

Mesmo em 1995, seguir atribuindo valor analítico à categoria de "raça", e sustentando que tal distinção - a "raça" - "explica" as supostas "características nacionais" brasileiras ("música", "misticismo", adesão a "cultos africanos", etc), estava fora de questão... E declarando de forma indireta que - pasmem - "os negros", "mulatos" e os "brancos pobres" brasileiros, são "ignorantes", "preguiçosos" e "criminosos inatos e inelutáveis"; muito embora objete que não diretamente por sua "raça",  mas pela herança comportamental deixada por seus pais, ex-escravos... E por culpa do capitalismo... Putz!!!


Antropólogo de prestígio, Ribeiro deveria saber o que quer dizer 'inato': 'não provêm da experiência, mas estão em nosso ser desde que nascemos, natural, congênito'... A mediocridade do texto chega a este ponto... Ribeiro ataca, com argumentos pouco acadêmicos, pouco didáticos, e pouco respeitáveis, e depois 'assopra'... Mas ninguém lê, e ninguém vê, e ninguém se levanta... Por quê?

E tem mais:
"Outro processo dramático vivido por nossas populações urbanas é sua deculturação. [..] A luta dentro dessa massa urbana é ferocíssima. Se associam, eventualmente, nos festivais, como o Carnaval e cerimônias de Candomblé, como paixões esportivas co-participadas e como os cultos de desesperados. [..] O normal na marginália é uma agressividade em que cada um procura arrancar o seu, seja de quem for. Não há família, mas meros acasalamentos eventuais. A vida se assenta numa unidade matricêntrica de mulheres que parem filhos de vários homens."

Talvez este quadro, reflita a realidade uma parte da população brasileira, mas certamente não descreve 'a população brasileira', e mais, ainda que descrevesse, espero muito mais de um acadêmico da suposta envergadura de Darcy Ribeiro... Espero mais do que ataques e achaques quase pessoais de Ribeiro; utilizando expressões degenerativas, que beiram o rancor... Declarações como esta, sexistas, machistas, racistas, nacionalistas, infestam o livro...

Mas Darcy alega, como boa nova, que "os negros são capazes de se auto-superarem" com um pouco de educação... E diz ainda que "a cultura do índio é mais humana" do que as culturas ocidentais, e consequente é por isso que os índios não tem vez na "desumana sociedade brasileira"... Darcy Ribeiro parece muito pouco familiarizado com a própria Antropologia, mas com certeza nunca ouviu falar da Neurociência Cognitiva e da Genética; e enquanto sociólogos teimarem em fazer profecias e entoar ritos sem base científica, mais pseudo-intelectuais emergirão - como Darcy - para afrontar o intelecto livre...

Não me surpreendo que Ribeiro - auto-definido como "o verdadeiro amigo dos discriminados e explorados" - tenha bebido nas fontes pouco pródigas do marxismo, afinal as asneiras descem o barranco, gritando e bradando a mensagem 'capital' populista: 'Vejam, sou o seu sentinela, o salvador, o redentor... Vós - "negros", "mulheres", "índios", "brancos pobres", "discriminados", "marginais" - não sois incompetentes, "preguiçosos", "fedorentos", "bêbados", "criminosos", supersticiosos, indolentes, incultos, por sua própria culpa, mas por culpa do capitalismo!!!' Ribeiro promove a degradação, e encontra um culpado... Bem bíblico, bem nazista... Embora eu não esteja comparando os feitos de Hitler, com os feitos de Ribeiro... Mas a mensagem nazista era essa: 'somos arianos, nativos germânicos, loiros, de olhos azuis e pernas longas, e estamos na merda por culpa dos judeus'... Não julgo aqui, evidentemente, o homem, mas a natureza da mensagem... E sem dúvida Darcy Ribeiro não fez mal a ninguém... Mas a sua mensagem confundiu e confunde muitos, até hoje, o pode indiretamente ter causado algum ou muito mal...

Tudo isso me leva a reconsiderar a devota admiração de intelectuais, nem tanto a Darcy, o homem, e menos à sua obra - que não leram -, mas ao mito Darcy Ribeiro, o utópico... O culto à personalidade é muito forte ainda em nossos tempos, e não sei se a humanidade, majoritariamente poderá um dia apartar-se disso... Mas posso lamentar... Certamente não foi o doutor e professor Darcy Ribeiro quem escreveu este livro, senão o populista e ideólogo... Senti-me frustrado e decepcionado, mas entendi o padrão que teima em se repetir...

Mas este 'povo brasileiro' de Ribeiro realmente existe, não em razão da parcela da população que ele descreve - de forma irrespeitosa -  em sua versão da "verdade" -, mas este povo brasileiro que não se cansa do populismo, das bandeiras ideológicas, da fé em seus ídolos, mais ou menos santos... 

Segundo a ótica ou a 'semiótica' de Ribeiro, não somos resultado da convergência cultural e antropológica - normal, contínua -, somos um povo especial, predestinado porém maldito, resultante da "deculturação" de formas mais puras, "o índio", "o negro" e o "ocidental" - até o fim do século XX? -, e expulsos do Éden ou Inferno Colonial, para um destino de dominância dos 'menos humanos', os capitalistas, sobre os 'mais humanos', os resistentes "indígenas", "negros", e "brancos pobres"... Mas a força e a autoridade de Ribeiro tornaram esta mensagem a auto imagem oficial do brasileiro...

Darcy prevê o apocalipse:

"[..] no Brasil do futuro, a maioria da gente nascerá e viverá nas ruas, em fome canina e ignorância figadal, enquanto a minoria rica, com medo dos pobres, se recolherá em confortáveis campos de concentração, cercados de arame farpado e eletrificado. Entretanto, é tão fácil nos livrarmos dessas teias, e tão necessário, que dói em nós... A nossa conivência culposa."


Não Darcy Ribeiro, e em respeito à sua memória, digo que estamos melhorando, e não apenas porque subjetivos indicadores econômicos nos colocaram na sexta posição, e na frente da Inglaterra, no ranking dos países mais ricos... Não por isso, mas por que as classes D e E, estão experimentando, GRADATIVAMENTE E SEM UTOPIAS, NEM MILAGRES, a ascensão em maior proporção... ISSO NÃO RESOLVE TUDO... NADA RESOLVE TUDO... AS REVOLUÇÕES FALHARAM, MENTIRAM, E ATRASARAM A HUMANIDADE... Não é tão simples nos safar das "teias" do desenvolvimento... Não é "fácil" como você preconizou, e vender esta imagem, causou e causa muito dano... 

Trabalho e boa administração, justiça e educação, melhoramento contínuo...

Os Estados Unidos e a Europa já amargaram nossa condição... O Brasil de hoje continua repleto de problemas, mas não destoamos da HUMANIDADE, a não ser por uma identidade própria no enfrentamento de nossas questões locais, dentro de uma realidade irremediavelmente global... 

Temos o sincretismo cultural nas entranhas, está bem, mas sem culpados nem inocentes, nem culturas que sejam mais 'humanas' do que outras... Basicamente somos uma nação com as portas abertas, recebendo diversas correntes migratórias, e chegando até aqui, com  uma cara brasileira, que também é asiática, eslava, e tudo o mais... E não precisamos de uma nação brejeira, bairrista e autóctone, para que nos orgulhemos de ser brasileiros...

Este discurso, de um dos pais do sentimento nativista brasileiro, ao lado de Freire, Freyre, entre outros, é a 'verdade histórica' para muitos brasileiros... E isso realmente me preocupa... Ribeiro declarou ter trabalhado 30 anos em 'O Povo Brasileiro', para proclamar 'um pouco mais do mesmo' em 500 páginas, achincalhando uns, e culpando outros... Mas no prefácio do livro, existe uma importante pista, quando Darcy escreve:

"Escrever este livro foi o desafio maior que me propus. Ainda é. Há mais de trinta anos eu o escrevo e reescrevo, incansável. [..] Esse era o nervo que pulsava debaixo do texto, a busca de uma resposta histórica, científica [..] Uma vez completado o livro, a primeira leitura crítica que consegui fazer dele todo me assustou: não dizia nada, ou pouco dizia que não tivesse sido dito antes. O pior é que não respondia às questões que propunha, resumíveis na frase que, desde então, passei a repetir: por que o Brasil ainda não deu certo?


Ribeiro segue citando Marx e Engels... Em 1995... Para Darcy, era inconcebível que em um espaço demarcado pela geografia e pela biodiversidade do território brasileiro, o país "mais rico do mundo", um "povo-nação" diferente, predestinado, "permanecesse" à míngua...  Mas não existe tal desígnio messiânico, somos mais um povo, em um processo histórico contínuo, sem culpados nem inocentes, ziguezagueando pela impulsão e diversidade Genética, Memética, Social, Cultural, e vivendo o nosso destino, nossos ciclos, fases, altos e baixos, sem a necessidade da arrogância nacionalista... Não estamos à míngua, estamos avançando, não na velocidade que gostaríamos, mas com aquilo que somos...


Não existe uma receita mágica... Como o Plano Collor, Regime Militar, Comunismo, Facismo... Não existe uma saída simples e fácil, que parta da cabeça de um homem, e que mude o panorama... Não acredito senão em melhoramento contínuo e sustentado...

Somos brasileiros, lutamos, jogamos o jogo, e vamos fazendo parte da história... Não somos a História... Não somos predestinados... Somos humanos, demasiados humanos, e partilhamos as mesmas regras, e certa identidade, em meio à população global...

O frustração de Darcy Ribeiro não deve ser amplificada ao nosso país... Ribeiro se equivocou muito, e muitas vezes, pela devoção ao mesmo rito monolítico, somente travestido em pequenas variantes de sua obra... Estamos melhorando, Ribeiro também deve ter melhorado ao longo de sua vida... E pelo menos será sempre respeitado e reconhecido, pela obstinação e coerência, exemplificadas em sua vida e morte... Descanse em paz, a sua luta merece respeito, embora a causa não tenha merecido a sua vida...

Carlos Sherman

Um comentário: