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sábado, 3 de março de 2012

Um Antropólogo em Marte...



Um Antropólogo em Marte...

Hoje despertei por 'empatia'... Sim, por empatia... Esta maravilhosa característica - ausente no espectro sintomático do autismo - que compõe com lugar de destaque o mosaico do complexo de AMAR... Acordei mais uma vezes mais cedo neste sábado porque o meu cachorrinho, o bebê da casa, o Bono, queria viver, brincar, e me chamava com latidinhos específicos, e pasmem: pedindo 'por favor'... Sim, 'por favor'... Ensinamos nosso filhote a levantar a patinha para pedir comidinha e era logo recompensado... Um belo dia, ou melhor dizendo num belo fim de tarde, o Bono levantou mais uma vez patinha 'pedindo por favor' e tratei de recompensa-lo com uma comidinha, mas ele recusou... Sentou ao meu lado, no chão, e insistiu, levantando a patinha... Então entendi... O Bono havia abstraído do conceito de levantar a patinha para receber alimentos, um conceito simples, para um conceito mais amplo e complexo, de pedir qualquer coisa... Isso é bem complexo e ficamos surpresos... O Bono queria passear, entendi e passeamos... 

Hoje está claro quando quer passear, quando quer comer, quando quer água, quando quer brincar disso ou daquilo, quando quer que eu acorde... Acordei.... Acordei por ele, embora sentisse que mais duas horas de sono me deixariam novinho em folha, mas a minha capacidade 'inata' para a embatia me venceu, e eu 'obviamente não poderia livre-arbitrar' outro destino... Eu estava inexoravelmente destinado a reagir ao 'pedido' de meu Boninho, com toda a intensidade de minha empatia...

"Lembra que o sono é sagrado e alimenta de horizontes o tempo acordado meu amor" - Milton Nascimento

O complexo neuroquímico que culmina na empatia, na minha perspectiva, começa na genética, e é confirmado pela embriogênese, pelo desenvolvimento fetal na placenta, e será reconfirmado se nos primeiros dias, semanas e meses, se a criança puder efetivamente vivenciá-lo pela experiência... Normalmente após o parto encontraremos rostos e gestos alinhados com nossos genes, nossos pais... E esta reconfirmação pode ser total... Mas pode não ser assim... O processo pode ser bem alinhado a ponto de desenvolver pessoas com o que chamo de super-empatia, e que penso ser o meu caso... De forma geral, independente dos embates da vida, sempre me vejo na pele do outro... E se isso acusa sofrimento, trato de atuar para impedir o sofrimento alheio... Isso atinge certos picos e sobrepassa certos limites, chegando a prejudicar minha vida... 

Ter um cachorrinho, por exemplo, fofo e pequenino, muito apegado a mim, pode ser um problema... Quando saio sofro muito, porque sei que ele ficará sem comer, 'chorando', emitindo sons que são dilacerantes para a minha condição hiper-sensível, rsrsrsrs, uivinhos, grunhidos, e passará o dia tristonho deitado na frente da porta por onde eu tenha saído... Quero voltar para casa, seja por uma viagem de trabalho ou um programa social... Evidentemente não deixo de cumprir mas saio com um aperto no peito e volto ansioso... Vale a pena, a festa sempre é completa... Sempre... Ele salta, emite sons desesperados de epifania, dá giros de 360 graus, chora de alegria... Salta sobre o sofá, sobe até o encosto para estar mais elevado, aproximo o rosto e recebo aquelas lambidinhas de gratidão... Depois da festa, ele repete a rotina, descendo e correndo para comer pela primeira vez desde a minha partida, pode ser por uma ou dez horas, pode ser um um ou dois dias... 

Quando viajo, minhas meninas precisam dar a comidinha na boca dele, e somente obtém sucesso no segundo ou terceiro dia... Ele por sua vez observa os meus movimentos e padrões, e sabe que vou sair, e sabe se a ausência será longa ou breve... Para isso, ele passa a vidinha ao meu lado... Onde estou, ele estará... É uma característica inata de sua raça, reforçada em seu aprendizado pelo convívio comigo, traduzindo-se em um comportamento intensificado... Realmente me perco quando falo deste fofinho, mas não poderia deixar de acrescentar que quando estou me despedindo, antes de sair, ele vira as costas, magoado, e se esconde no cantinho mais isolado e abrigado possível... Quando bato a porta ele corre para cheirar pela fresta, e começa a chorar minha ausência...

Quando regressamos, todos nós, minha família, duas filhas e minha esposa, cada um corre para os seus afazeres ou preferências lúdicas ou intelectuais... A Isa liga a televisão para ver 'The Big Bang Theory', e em poucos minutos estará gargalhando... A Karol corre para o Facebook e coloca o seu fone - i-Touch -, e em minutos estará cantando - sem feedback, rsrsrs... A Erika sempre estará priorizando arrumar alguma coisa, ou se atira no sofá ao lado da Isa... E eu? Quero escrever o meu livro, gostaria de ler, ou estar ao lado de qualquer uma delas... Mas lembro do Boninho... Ele passou o dia sozinho, e já veio correndo com o seu 'ursinho' na boca, e atirou aos meus pés, pedindo 'por favor' com a patinha... Como virar as costas para isso, e como não deixar de praticar a empatia de sentir-me no lugar dele, e portanto, como não atendê-lo?


Seria injusto manter um ser vivo em casa sem respeitar as suas necessidades... Ninguém me pede que pense assim... Eu sou assim... Explico a elas o meu princípio, entendem mas não fazem nada... Em parte porque farei, mas a explicação mais contundente e desafiadora é a de que estou fadado a isso, e elas não... A hiper-empatia... Mesmo quando solicito que façam isso ou aquilo, para o bem do bichinho - e estou considerando que são adolescentes -, ninguém parece se importar... E sempre me importei, mesmo quando era garoto...

As três adoram o Bono, mas nenhuma das três tem este 'desequilíbrio', este sentido tão aguçado que tenho da empatia... Nenhuma das três tem a intensidade emocional que trago comigo, em minha natureza reforçada pela experiência, neste aspceto... Penso muito também sobre a retirada de minhas amígdalas na infância, rsrsrs, e o impacto que possam ter desempenhado na minha condição, mas existe outros elementos mais importantes que descartam esta tese... Minha mãe é assim, em termos de empatia, o meu pai não... Mas os dois trazem sobrada emoção... Emoções diferentes, e até complementares, mas os dois são sobradamente emocionais... Mas me pareço muito mais com a minha mãe, neste particular, e ela sempre foi emocionalmente intensificada deste a infância... Preciso confirmar sobre a remoção de suas amígdalas, rsrsrsrs... 


Vale notar que racionalismo e sensibilidade emocional não são mutuamente exclusivos... São características independentes, e que podem até colidir em nosso cérebro, estampado em nosso comportamento, mas uma pessoa emocional não significa uma pessoa irracional, e vice-versa... O sentimento é outra estória, é a verbalização da sensação emocional pura... E portanto estará impregnado pela linguagem, pela cultura e por nossos estratagemas políticos... Daí a confusão... Existem pessoas sentimentalistas, ou seja, que usam o sentimento - alegando emoção - como linguagem, em detrimento de medidas mais racionais e efetivas... Mas isso é um estratagema... Emoção bioquímica é involuntária, real, física... O racionalismo é uma capacidade genética, neural e bioquímica, que não anula a emoção, mas podem colidir no comportamento...


Estou exemplificando o que sinto em relação ao Bono, mas tudo isso é extensível a elas, filhas mulheres, família, e aos demais... Aliado a este sentido da empatia, também está associado o sentido da generosidade... Intimamente relacionados, ou talvez até, variações sobre o mesmo tema, assim como a vontade de servir... Em minha análise e observação, ainda prefiro mantê-los independentes, embora relacionados, porque reconheço a generosidade em pessoas que não demonstram a empatia na mesma medida... Assim como vejo traços comportamentais da generosidade em muitos, onde não percebo traços claros de uma empatia bem desenvolvida... Mas não deixo de revisar tal conceituação em nenhum átimo de minha vida...

Mas queria fundamentar aqui, o conceito chave de que nossas características comportamentais - seguindo um modelo 'grosseiramente' piramidal, rsrsrs - decorrem de nossa base genética... Esta base de 'possibilidades' genéticas, decorre por sua vez do embaralhamento das características genéticas de nossos pais biológicos.... Sobre esta base de possibilidades, ocorrerá o desenvolvimento fetal, que tratará de confirmar a nossa estrutura genética ou modificá-la por influência do 'meio e do aprendizado'... Estamos ainda no segundo nível, nos domínios da embriogênese e da vida placentária... Mas neste importante domínio estaremos sujeitos à má formação fisiológica e neurológica de nosso corpo e portanto de nosso ser, e de quem vivermos a ser... De quem viremos a ser quando 'atuarmos' diante de terceiros, diante de observadores... 

Aqui e agora, encapsulados, ensaiamos os primeiros passos do que será a nossa vida... Incontáveis e célebres estudos tem mostram e confirmado minhas palavras, e a nossa sorte, que começou a ser jogada na genética, poderá ser modificada para sempre, na 'confirmação' gestacional... Emitimos sons na placenta e escutamos o seu feedback... Isto nos ajudará a reconhecer nossas mães... A surdez poderá afetar este reconhecimento... A rubéola pode afetar o nosso desenvolvimento fetal resultando em autismo... A exposição à testosterona pode afetar o nosso comportamento sexual de forma surpreendente, e explicar muito da homoafetividade... Uma dieta pobre nos três últimos meses poderá resultar em um bebê com menos peso, e fadado a problemas cardíacos no futuro...

Somos quem somos sem intencionar sê-lo...

A vida gestacional, subindo a pirâmide do comportamento animal, confirmará a nossa sorte de características genéticas, selando o nosso destino, ou apenas induzindo alterações no desenvolvimento, que por sua vez induziram alterações sobre o comportamento... Mas o fato é que a vida gestacional opera o desenvolvimento do ser, baseada em instruções genéticas precisas, mas sendo afetada - de sobremaneira - pelo primeiro grande impacto que o meio exerce: a placenta... 

Nos primeiros meses da gravidez, o corpo da mãe gestante 'sabe' que a sorte da 'boa formação neurológica' e da fisiologia do bebê está sendo jogada, e trata de criar uma barreira ao risco de intoxicação alimentar e outros males... E assim o organismo da mãe induz um comportamento alheio à sua vontade consciente, e passa a rejeitar vários tipos de alimentos, sem aparente explicação... Em um banco de dados da experiência, o cérebro da mãe comando um processo de 'gerenciamento de risco', para proteger o seu bebê... 

Passado estes primeiros meses, a gestação entra em outra fase, e toda a energia será preciosa, afinal o bebê precisará ganhar peso... Nascer com um bom peso, será importante para as suas funções cardíacas, como vários estudos demonstram... Isso evidentemente não inclui problemas de crescimento pela genética, que merecerão outra atenção e tratativa... Estamos falando sobre o papel da vida placentária, em assegurar o pleno desenvolvimento fetal...
Freud em seu modelo hidráulico oitocentista, profetizou que a mulher pretendia 'vomitar o feto, em função da rejeição que sentia, por parte do marido'... Este tipo de absurdo, assim como a 'profecia' do Complexo de Édipo, e outras besteiras sobre o desenvolvimento humano, foram regressivas e danosas para compreensão da psiquê humana... Como a cura fraudulenta do autismo alardeada por Bettelheim, utilizando a psicanálise; e a sentença das 'mães-geladeiras', promulgada por Kanner, destinando uma geração de mães de autistas a um profundo e inconsolável sentimento de culpa... Todo este devaneio freudiano terminou por enterrar o entendimento da mente humana - e sua consagrada decorrência genética e gestacional - em uma pântano profundo, lamacento e sombrio... Mas a Genética, a Neurociência, a NeuroPsicologia, a Psicologia Cognitiva, estão tratando de resgatar os traumas sofridos, e enfrentar as falácias e fraudes proferidas, para dignificar novamente a Ciência da Mente Humana...
Na mesma medida, o cérebro do bebê está ativo, escutando os sons que chegam em sua 'cápsula', sentindo o movimento, as sacudidas... As vida emocional da mãe, traduzida em sua bioquímica, hormônios - cadeias proteicas - estará em contato com o bebê em seu processo de desenvolvimento... A ingestão de drogas, álcool, nicotina, afetará, sabemos, de forma determinante, o desenvolvimento deste ser... De igual maneira, e pela mesma via, a bioquímica, as emoções da mãe intoxicarão ou aliviarão a condição do bebê...


Chegado o momento do parto, um impacto colossal sobre a percepção deste pequeno ser está por vir... Lá vem a luz, uma miríades de sons, objetos, 'rostos', cheiros... Lá vem o ar, lá vem o mundo, a cultura, as tradições, a ortodoxia, o modos operandi, a funcionalidade, as regras de convívio, os protocolos, a comunicação, o relacionamento interpessoal e psicossocial... E nos primeiro dias, semanas e meses desta etapa - subindo em nossa pirâmide desajeitada - reconfirmaremos 'pela cognição', pela percepção, nossa faculdades genéticas levadas a cabo pelo desenvolvimento embriogênico...

Confirmaremos as nossas características inatas, ou poderemos também nos confundir, ou nos perder completamente, e sentir dificuldade em nosso aprendizado ou assimilação - ironicamente por questões inatas -, mas sempre, e neste momento, tatearemos para reconhecer o nosso aparelhamento inato... O sucesso nesta etapa, consiste em reconhecer o máximo de nossa potencialidade como ser individual... Depois virá uma vida de aprendizados, e o impacto do meio será máximo, seja ele físico, químico, biológico, abstrato e intelectual... 

Aprenderemos o mundo, aprenderemos técnicas, e aprendermos sobre a comunicação, sobre as regras de convívio, sobre a tradição e a cultura... Seremos bombardeados por tudo isso, sempre, e cada vez de forma mais intensa. e incrementando a confusão reinante entre nossa 'natureza' e faculdades, e o que esperam de nós... E na medida e na velocidade em que tudo é requerido, sem chances de ajuste com a medida e a velocidade em que podemos responder - em função de nossa natureza... 

Neste pandemônio que chamamos de vida civilizada, poderemos nos sentir em casa, adaptados, e estes serão os 'vencedores', ou poderemos nos sentir, como descreve Temple Grandin - autista, doutora em zoologia, e engenheira - "como um antropólogo em Marte"... Poderemos como Grandin, precisar de apoio especial, para desenvolver as nossas diferenças... Grandin é uma dádiva para a Neurociência, pois desenvolveu a rara habilidade de comunicar o que vê, o que pense e o que sente, mesmo sendo autista... Com Grandin, pudemos adentrar um pouco mais, nesta 'ilha de capacidades', e bem entender o autismo... 

O autista, em função da genética ou do desenvolvimento fetal, carrega uma alteração na biologia cerebral, que afeta o seu comportamento de forma sintomática... O primeiro destes aspectos é a sua tendência ao isolamento, que pode ser também uma resposta às dificuldade de comunicação... O segundo aspecto diz respeito exatamente à comunicação, não apenas verbal, linguística, mas envolvendo toda gama de possibilidades semióticas... E completando a tríade, o autista, em geral padece de certo desinteresse por atividades meramente lúdicas, ou que envolvam a criativa... A repetibilidade de certos movimentos, não constitui caminho lúdico, referindo-se mais ao sistematismo do que à diversão... O autista é puro, direto, objetivo e por vezes inflexível... Irremediavelmente 'honesto', não como valor moral, mas porque não 'vê motivos para não dizer o que pensa e o que sabe'...

De forma que Grandin, nos permite visitar esta fantástica ilha e trazer de volta um conhecimento das faculdades humanas a partir do 'negativo' de certas caraterísticas... Neste sentido, posso então ensaiar o desfecho pretendido neste post, que tentei impedi-lo de desvendar até o fim: o autismo, em certa forma, é a ausência da capacidade de embatia... Temos mais ou menos empatia, o autismo tem menos ainda... De forma simplista... E apenas para ilustrar um dos sintomas... Os sintomas decorrentes, podem efetivamente derivar desta falta de empatia, e do seu complexo subjacente... 

Mas o que descrevo como empatia percorre um caminho neural, sistêmico em nosso cérebro, e uma caminho bioquímico... A ausência de emoções 'pode' denotar a deficiência na síntese de determinadas proteínas, e que por sua vez selaram o nosso destino em 'sentir empatia', porque não conheceremos a 'emoção'... Não haverá feedback emocional... Não possuir 'feedback de emoção' impede a possibilidade da 'emoção comparada', pela ausência de emoção bioquímica física - não confundir com o sentimento, ou a tentativa de comunicar emoção... Isso explicaria também o desinteresse lúdico, e a volição criativa... 

Sem emoções não haverão chances para a empatia... Emoções não garantem a empatia... Mas a empatia não subsiste sem emoções que a sustentem...

O estudo do Autismo considera de um lado a capacidade de 'empatização' - ou de empatia com os demais - e de outro a sistematização... Tal classificação se aplica a todos os seres humanos, e a você e eu... Estudos com recém nascidos demonstraram certa familiaridade do sexo feminino com a empatia, enquanto os bebês do sexo masculino tendiam à sistematização... Chegou-se a relacionar o autismo como o extremo desta condição masculina... A minha proposta, e até o momento parece não ter sido considerada nenhuma linha de estudo, é de que a empatia decorra da problemas na síntese de proteínas - hormônios - relacionados com a emoção, ou a recepção de tais hormônios... Ou seja, deficiência na capacidade de empatização seria decorrente de problemas na produção ou detecção dos bioquímicos da emoção... 


Continuo estudando o tema, e aprendendo diariamente com alguns dos maiores especialistas na área neurocientifica - Oliver Sacks, Ramachandran, Nicolelis, Kandel, Asperger, Ridley, entre tantos outros -, e tenho escrito diretamente a eles... Tomei o atrevimento de refletir sobre o tema, e agora me atrevi a escrever a vós... Espero contribuir, sempre... Humano, Demasiado Humano...

Dedicado ao meu amigo Diego Mendes, ao Bono, e à minha família...

Carlos Sherman

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