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segunda-feira, 9 de abril de 2012

As Irmãs Fox – Pancadas no Espiritualismo




As Irmãs Fox – Pancadas no Espiritualismo

por Kentaro Mori



“O telégrafo de Deus superou completamente o de Morse”
Reverendo Jervis, citado em Britten, 1870

Em 11 de dezembro de 1847 o pai, membro da Igreja Metodista, a mãe, e duas das filhas mais novas da família Fox, Margareth e Katherine, mudaram-se para uma casa em Hydesville, em Nova Iorque. A casa de madeira já seria tida como mal-assombrada, devido aos estranhos barulhos ouvidos e mesmo algumas aparições. Os inquilinos anteriores, a família Weekman, teriam se retirado da propriedade justamente por causa dos incômodos. 

Pouco tempo depois que os Fox se estabeleceram os barulhos passaram a perturbá-los também até que em 31 de março de 1848 a filha Katherine pediu que o “demônio” causador dos barulhos repetisse as batidas que ela mesma produzira. Com a resposta inaugurava-se oficialmente o espiritualismo moderno, com o estabelecimento do “telégrafo espiritual”, através do qual perguntas verbais e mesmo mentais dos vivos podiam ser respondidas por uma série de pancadas em código por parte dos mortos. 

Logo se descobriria que o “demônio” era na verdade o espírito do mascate “Charles B. Rosna”, que havia sido assassinado e enterrado no porão da casa anos antes. Apesar da revelação, buscas por toda a residência falharam em encontrar o corpo, embora cabelo e dentes tenham sido encontrados. Infelizmente, naquela época não revelavam muito. Mais relevante foi outro testemunho, de uma ex-moradora da casa e empregada doméstica, Lucretia Pulver, que confirmaria a história em grande extensão e detalhe identificando os assassinos como seus antigos patrões, o casal Bell. 

Os fenômenos de comunicação com espíritos atraíram multidões e ficou claro que Margareth e Katherine Fox eram “médiuns”, através das quais era possível se comunicar com o além. Outros médiuns não tardariam em surgir, e até mesmo a irmã mais velha das garotas, Ann Leah, se revelaria uma também, particularmente dotada. 

Uma série de investigações públicas por nada menos que três comitês diferentes tentaram desmascarar as Margareth e Katherine. Apesar de submetê-las a grande angústia, não obtiveram sucesso em suas intenções. As irmãs ultrapassaram tais provações, e então se dedicaram a turnês mediúnicas extensas, fazendo disso seu meio de vida. Margareth chegou a se converter ao catolicismo em 1858 e abandonar tais atividades, mas anos depois, em dificuldades financeiras, voltou à carreira de “médium profissional”. Katherine nunca abandonou a carreira mediúnica, à qual a irmã mais velha, Ann Leah, também aderira. 

A vida das irmãs não foi muito feliz, e seu fim ilustrou tal. Em 1888, quarenta anos após os incidentes em Hydesville, conflitos entre Margareth, Katherine e Leah culminariam em uma série de escândalos públicos. Os filhos de Katherine Fox foram retirados de sua tutela por causa de seu alcoolismo, vício que também já afligia Margareth – ambas acusadas por Leah, a irmã mais velha. 

Pouco depois, Margareth publicaria a confissão que tantos esperavam. Tudo não teria passado de truques simples elaborados por ela e Katherine, e o espiritualismo moderno estaria baseado em um evento fraudulento. O detalhe importante é que a confissão também acusava Leah como cúmplice nas fraudes e exploradora das somas de dinheiro amealhadas pelas irmãs mais novas. 

Já Katherine não apenas não contestou a confissão de Margareth, como divulgou também sua confissão de mesmo teor. As batidas espirituais, não passariam de estalos dos dedos dos pés, entre muitos outros truques simples. 

Contudo, apenas mais um ano depois Margareth voltaria atrás e publicaria uma retratação sobre sua confissão. Na confissão da confissão, explicava que a confissão de fraude teria sido feita apenas em troca de dinheiro, promovida por membros de religiões rivais e devido aos conflitos com Ann Leah. Katherine por sua vez nunca se retratou de sua confissão. De toda forma, o dano já estava feito. Em 1890 Ann Leah faleceria, seguida por Katherine em 1892 e Margareth em 1893. As três morreram como “médiuns”. 

Em 1904, uma grande reviravolta, quando uma parede da adega da antiga casa de Hydesville ruiu e seria encontrado um esqueleto humano junto de uma caixa de mascate. A notícia, publicada no Boston Journal, passou a ser vista como comprovação das alegações originais das irmãs Fox.

“Rochester, NY, 22 Nov 1904: O esqueleto de um homem que se supõe ter causado pancadas primeiramente ouvidas pelas irmãs Fox em 1848 foi encontrado nas paredes da casa ocupada por elas, e as exime da única sombra de dúvida relativa à sua sinceridade na descoberta da comunicação de espíritos”.

Quando tudo parecia nebuloso e infame, ainda nos ecos do escândalo, a história voltava a seu começo e o velho mascate assassinado voltava à tona. 

Ou pelo menos, é a lenda das irmãs Fox. 

O Contexto 

“Milhares de pessoas que são calorosos defensores da filosofia espiritual reconhecem que sua atenção foi inicialmente atraída ao tema por seu interesse no magnetismo”, escreveu Emma Hardinge Britten, em “Modern American spiritualism” (1870). A autora não se refere ao eletromagnetismo que conhecemos e acende nossas lâmpadas, mas ao chamado “magnetismo animal”. Inventado por Franz Anton Mesmer, o “magnetismo animal” é lembrado hoje apenas em resquícios como o verbo “mesmerizar”, relacionado talvez a seu único efeito real, a hipnose. Muito apropriadamente, pois em 1870 tal “magnetismo animal” já havia sido constatado há quase um século como inexistente. 

É no contexto do “magnetismo animal” que surge o espiritualismo das irmãs Fox. Andrew Jackson Davis já se valia de tal magnetismo inexistente para seus contatos com espíritos anos antes, e os relatos das sessões mantidas pelas irmãs também envolviam inicialmente a “magnetização”. 

As irmãs não foram assim as primeiras a alegar contatos com espíritos, e como se deve notar, não seriam nem mesmo as primeiras a manter supostos contatos com o além em sua casa de madeira em Hydesville. Igualmente, os “Poltergeist”, fantasmas barulhentos, já haviam feito suas batidas décadas antes na Europa. Os feitos e métodos das irmãs se conformavam plenamente aos moldes do mesmerismo a ponto de a rigor não manter qualquer diferença com este. 

Exceto uma diferença, claro, que faria toda a diferença. Britten escreveria que “as características concretas e científicas do movimento espiritualista na América têm sua origem na primeira tentativa de telegrafia [espiritual]”, referindo-se ao caso. Isto é, a inauguração do espiritualismo moderno com o caso das irmãs Fox se centra na novidade da “telegrafia espiritual”. 

A novidade, todavia, é apenas o adjetivo “espiritual”. “A primeira linha [elétrica de telégrafo] construída nos Estados Unidos foi colocada em operação em 1844, entre Washington e Baltimore. Em 1848 linhas foram construídas em toda direção”, escreveu Holton sobre a história do telégrafo. Lembre-se que a “telegrafia espiritual” das irmãs foi inventada em 1848. Se o ponto aqui não está claro, pode-se sublinhar um detalhe: a gigante agência de notícias “Associated Press” foi fundada no mesmo ano, 1848, graças ao telégrafo! O telégrafo de Morse, claro, o que funciona de fato. 

Enquanto hoje a Associated Press conta com milhares de veículos de notícias, a própria “telegrafia espiritual” sairia de moda, mesmo sob o nome mais respeitável de “tiptologia”, e o movimento espiritualista que anunciava uma “nova era” falhou em sua própria profecia. 

“’Babilônia caiu’ – ‘o mistério, mãe de todas as abominações’, foi massacrado, e o anjo da verdade e juízo soou a trombeta da vitória na grande expansão do Espiritualismo moderno”, anunciou Britten no fim do século XIX, quando o movimento ganhava força. Hoje, mais de um século depois, não ouvimos as trombetas.

Codinome Rosna 

Ler as fontes de mais de um século sobre o espiritualismo requer diversos grãos de sal. Devemos acreditar na alegação de que a senhora Fox ficou com os cabelos brancos em apenas uma semana devido aos acontecimentos em Hydesville? Tal é sugerido por Nandor Fodor em 1934 (“An Encyclopaedia of Psychic Science”). Por outro lado, fontes céticas costumam ser demasiadamente sucintas, centrando-se nas confissões de 1888, proferidas entre grandes escândalos e desentendimentos. 
Deixando os escândalos (e as confissões) de lado, o elemento central na gênese do caso das irmãs Fox seria sua alegação e posterior confirmação de que existia o corpo de um mascate enterrado em sua casa. Se a “telegrafia espiritual” inaugurou o espiritualismo moderno, foi essa a história transmitida em tal estranho meio de comunicação. 

Lucretia Pulver, que serviu ao casal Bell, teria confirmado a história do mascate assassinado. Pulver se lembrou do mascate e de acontecimentos estranhos incriminando seu ex-patrão, com uma abismante série de detalhes. O detalhe mais relevante todavia é o de que se lembrou de tal apenas após a divulgação do caso das irmãs, anos após os supostos acontecimentos. O mesmo ocorre com relatos de que a família Weekman também teria feito contato com o mascate. Infelizmente, tais não podem ser consideradas como corroborações independentes. 

O problema com tais relatos também reside no fato de que, confiando em uma duvidosa riqueza de detalhes em grande parte irrelevantes, espiritualistas acreditam saber mesmo o que o mascate vestia, quando e de que forma foi assassinado, mas não conhecem seu nome. E isto apesar do espírito ter fornecido um nome através do telégrafo espiritual. “Charles B. Rosna” (ou Rosma), entretanto, não seria nome verdadeiro do mascate. Por algum motivo o espírito teria escolhido não revelar seu nome, revelando ao invés um nome fictício. E sem avisar sobre tal. 

Esta é uma “explicação” ad hoc que pode soar plausível aos crentes, que citariam uma série de outros casos onde supostos espíritos forneceriam nomes fictícios. Aos não-crentes, o argumento soa apenas como uma indicação da circularidade de tal sistema de crenças – o espírito original era real porque outros espíritos posteriores também falharam em fornecer um nome verdadeiro. 

Ainda abordando de forma crítica o ponto, talvez a mais prosaica e óbvia informação específica verificável que o espírito poderia fornecer sobre sua história seria um nome real, através do qual poderia ser identificado. Como não o foi, os espiritualistas presumem, ad hoc, não que o espírito e a história são fantasias, mas que o nome é deliberadamente falso. 

Os acusados do suposto assassinato, o casal Bell – cujo nome foi lançado na história por Lucretia Pulver, antiga servente dos mesmos – também não ficaram contentes com a história, mas tampouco foram incomodados pela polícia. O espírito do mascate contou que teria uma esposa e vários filhos, mas apesar da ampla divulgação de sua história, tal família também não veio à tona. A história permaneceu convenientemente inverificável, apesar de envolver o brutal assassinato de um mascate e a nada engenhosa ocultação de seu corpo na casa onde os assassinos moravam. 

O encontro de um esqueleto em 1904 confirmando a história é nebulosa, e infelizmente, também inverificável. Não houve documentação apropriada do encontro de tão relevante evidência, dada ao acaso, como devemos acreditar, e contrariando a informação alegada do próprio espírito sobre onde estaria seu corpo – outro dado contornado ad hoc pelos crentes imaginando que o corpo foi enterrado no porão e depois movido. 

Para completar toda a duvidosa história e suas supostas evidências, os alegados restos do mascate foram logo transportados e preservados como relíquia religiosa, mas não por muito, já que nos anos 50 um incêndio provocado por vândalos teria consumido a evidência. 

Não há assim qualquer evidência satisfatória de que a história contada pelo espírito seja real, o que lança sérias dúvidas sobre se havia mesmo algum espírito. Por diversos meios se poderia ter chegado a confirmar com segurança a história do assassinato do mascate, mas de diversas formas, toda a evidência convenientemente se esvaiu. Outra vez, aos crentes isso não é problema, já que o papel do espírito seria chamar atenção ao fenômeno, e ater-se à literalidade ou não de sua história seria irrelevante. Aceite-se isto ad hoc. 

Corinthian Hall 

Se ficamos perdidos com relação à origem em si do espiritualismo, o que dizer da
s irmãs Fox? Médiuns por praticamente o resto de suas vidas, deveriam ter fornecido evidência extensa a respeito da autenticidade de suas comunicações com espíritos. Não é bem o caso. 
Como nota Vitor Moura, em seu texto “As Irmãs Fox – O Que os Céticos Não Contam”, a melhor evidência da mediunidade das garotas parece ter sido resultado de três comitês de investigação sucessivos, que efetuaram diversas experiências com o fim declarado de desmascará-las. Todos envolveram apresentações ao público no Corinthian Hall em Rochester. Todos falharam em seus objetivos. 

O primeiro comitê era composto de cinco pessoas, Nathaniel Clark, A. J. Combs, Edwin Jones, Adoniram Judson, e Daniel Marsh, todos “cidadãos altamente respeitáveis e responsáveis” da cidade. Todos admitiram que “os sons foram ouvidos, mas falharam completamente em descobrir os meios pelos quais poderiam ter sido gerados”. 

O segundo comitê, liderado pelo conselheiro Frederick Whittlesey, composto por D. C. McCallum, William Fisher, o Dr. H. H. Langworthy e o juiz da cidade de Le Roy, A. P. Hascall, foi ainda mais rigoroso, efetuando experimentos no escritório de Whittlesey. Seu relato: “Os sons foram ouvidos e sua investigação exaustiva mostrou conclusivamente que não foram produzidos por maquinaria ou ventriloquismo, embora qual fosse o agente fomos incapazes de determinar”. 

O terceiro comitê foi composto por céticos indignados com os insucessos dos dois primeiros comitês, segundo informa Britten. Um deles, Lewis Burtis, também é citado por Britten como dizendo que “as garotas não me terão no comitê nem por cem dólares”, uma quantia considerável na época. Outros integrantes do terceiro comitê incluíram L. Kenyon, William Fitzhugh e os Drs. Justin Gates e H.H. Langworthy (do segundo comitê). 

Esse último comitê ainda contou com uma espécie de sub-comitê, composto de mulheres, que lidaram com as garotas despidas, para enorme desconforto das mesmas. Seu resultado: “Quando [as irmãs Fox] estavam sobre travesseiros, com um lenço amarrado em torno do fim de seus vestidos, firme em seus tornozelos, todas nós ouvimos as pancadas na parede e chão distintamente. Assinado: Sra. Stone, Sra J. Gates, Sra. M. P. Lawrence”. 

Resultado não muito diferente do terceiro comitê, que também não atingiu seu objetivo de desmascarar as garotas. Apresentados assim, são fatos surpreendentes. 

O que deve realmente surpreender o leitor contemporâneo é um pequeno detalhe: a investigação do primeiro comitê ocorreu no dia 15 de novembro; a do segundo comitê, no dia 16 de novembro; e a do terceiro comitê, no dia 17 de novembro. Todos do mesmo ano de 1849. Isto é, são três investigações conduzidas cada uma por um “comitê” diferente de cidadãos de fato respeitáveis, mas leigos, em apenas três dias sucessivos. 

Some-se a isso o fato de que todas as investigações tiveram lugar em ambientes como uma outra casa de apresentações, casas ou escritórios dos cidadãos envolvidos ou associados – a última, por exemplo, teve lugar na casa de Justin Gates, e uma das integrantes do comitê de mulheres foi, claro, a esposa de Gates. Não só havia diversas outras pessoas presentes além dos integrantes dos comitês durante tais averiguações, como essas outras pessoas incluíam mesmo promotores e defensores dos supostos fenômenos das irmãs. 

Britten menciona o dramático episódio onde Amy Post irrompeu no recinto onde as irmãs estavam sendo examinadas seminuas, ao ponto em que as irmãs teriam corrido aos prantos aos braços da senhora Post. Ao mesmo tempo em que pancadas foram ouvidas. Parece dramático e mesmo este autor pode se sensibilizar com a situação, o evento contudo é um exemplo do (des)controle que se tinha em tais exames. Amy Post era esposa de Isaac Post, o casal quaker que foi um dos principais, se não o principal responsável por promover e apoiar inicialmente as garotas. 

Outros “detalhes” sobre as investigações: Isaac Post era um dos que cuidaram dos negócios nas apresentações. O Corinthian Hall seria o maior local de eventos em Rochester. Os três comitês consecutivos tiveram seus integrantes escolhidos entre os espectadores das apresentações. Lewis Burtis, mencionado como um cético integrante do terceiro comitê por Britten, se tornou figura relativamente destacada no movimento espiritualista de Rochester, abrigando uma (outra) médium em sua casa e testemunhando sobre a realidade do espiritualismo (como citado em… Britten!). 

Embora não se possa descartar por completo as informações sobre tais investigações, é evidente que mais do que qualquer outra coisa, foram um show. Assim se entende por que houve três “investigações” de apenas um dia de duração por diferentes pessoas realizadas – e apresentadas – em três noites consecutivas. Foi um só show, e não três shows diferentes. 

E foi o início da carreira mediúnica profissional das irmãs, que viveriam disto até suas trágicas mortes, em um negócio que logo envolveria sua irmã mais velha, Ann Leah, não apenas como empresária das irmãs, mas como médium também. 

Mesmerizados 

Não há prova de que as irmãs fraudaram todos os seus fenômenos. De fato, há apenas indícios circunstanciais de fraude. Ao mesmo tempo, nenhuma das três conseguiu produzir qualquer evidência satisfatória de que se comunicavam com espíritos. Em retrospecto, é desolador notar que crentes e céticos que lidaram com os “fenômenos” estavam tão presos ao contexto de seu tempo que não produziram nenhuma avaliação objetiva satisfatória. Em uma sociedade sexualmente opressiva, em profundas mudanças tecnológicas e científicas impulsionando revoluções sociais, jovens garotas se comunicando com os mortos parece ter sido um tema delicado demais. 

Nesta situação, talvez a única utilidade póstuma do caso seja exatamente a de recapitular os eventos em seu contexto para uma olhada sobre a época. Desde a gênese das peripécias das irmãs envolvendo a história nunca confirmada de um mascate assassinado, e o elemento principal que as lançaria à história – a “telegrafia espiritual” – podendo ser interpretado sociologicamente como uma contraparte mística, relacionada ainda com o charlatanesco “magnetismo animal” de Mesmer, dos avanços reais e concretos da ciência e tecnologia ao fim do século XIX. 

Enquanto a telegrafia elétrica real logo daria lugar a avanços sucessivos culminando hoje com a própria internet através da qual você, leitor, acompanha este longo texto, a “telegrafia espiritual” cairia em relativo desuso, e a comunicação com espíritos logo retornaria aos meios em que já era praticada milênios antes das irmãs Fox, com supostas “psicografias”, “canalizações” e “incorporações”. Raramente os espiritualistas de hoje passam horas ouvindo batidas e decodificando seus códigos letra por letra – Chico Xavier teria muita dificuldade em escrever centenas de livros dessa forma. 

Atualmente, a chamada “Transcomunicação Instrumental” (TCI) parece uma legítima sucessora da “telegrafia espiritual”, em sua interpretação mística da tecnologia e ciência, mas mesmo a TCI não é central a qualquer grande religião. A proclamação do reverendo Jervis que introduz este texto, na linha de todo o entusiasmo ingênuo em torno do espiritualismo em fins do século XIX, estava simplesmente incorreta. 

Todo o episódio das irmãs Fox resguarda ainda uma ironia suprema no cerne do que pode ser a interpretação mais sensata de tais eventos. O notável cientista Benjamin Franklin, em seu papel na descoberta e divulgação dos fenômenos reais da eletricidade, também teve parte, junto de Lavoisier, do médico Joseph-Ignace Guillotin e do astrônomo Jean Sylvain Bailly, no comitê francês que investigou e declarou a inexistência do “magnetismo animal” de Mesmer em 1784. 

Isso não deve surpreender, a adorável ironia está no fato de que as irmãs Fox, em sua “telegrafia espiritual” através do mesmo “magnetismo animal” inexistente, quase cem anos depois, tenham revelado inúmeras mensagens do que seria o espírito de Benjamin Franklin, o próprio. Todas comunicações favoráveis à “telegrafia espiritual”, da “eletricidade espiritual” e ao movimento religioso então promissor, claro. 

É incrível como a morte muda a vida das pessoas. 

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Referências
- Britten, E.H., “Modern American spiritualism: a twenty years’ record of the communion between earth and the world of spirits”, 1870, < http://www.hti.umich.edu/cgi/t/text/text-idx?c=moa;idno=ACM3377.0001.001>;
- Fodor, N., “An Encyclopaedia of Psychic Science”, 1934, < http://www.survivalafterdeath.org/mediums/foxsisters.htm>;
- Moura, V., “As Irmãs Fox”, 2004;
- Calvert, J. B., “The Electromagnetic Telegraph”, 2000, <http://www.du.edu/~jcalvert/tel/morse/morse.htm>.
Nota: O texto original foi revisado como resultado de discussão privada com Vitor Moura, a quem sou grato pelo que, espero, sejam melhorias neste trabalho, fornecido com a intenção tanto de informar aqueles interessados, como de motivar maior e melhor discussão sobre o assunto.

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