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domingo, 8 de abril de 2012

Genere ignorantia



Li um monte de besteiras, que demonstram profundo e completo desconhecimento da maioria sobre ciência e crenças, relativo ao post acima... Minhas considerações: 

1) Não crer em deuses e fantasminhas não é uma crença, assim como não colecionar selos não é uma coleção; 

2) Sim, existem pessoas lúcidas, livres e pensantes que pelo abnegado estudo sabem que deuses são decorrentes do medo e da ignorância. Sabemos também que existem dois importantes bugs no cérebro que intensificam as chances de você padecer deste delírio ilusório; 

3) Sim, existem pessoas que se dizem 'ateias' ou 'descrentes', mas que adotam uma postura corporativa e que se assemelha a um grêmio crente, mas estas pessoas chegaram à conclusão de que deuses são estórias da carochinha pela rebeldia ou por serem do contra. Céticos e pessoas com verdadeira formação científica não entram nessa; 

4) A velha falácia da inversão do ônus da prova, ou seja, nunca comparem ciência com religião, brandando com a famosa asneira de que 'ambos não tem todas as respostas'. Primeiro porque as crenças não tem na verdade nenhuma resposta. Segundo porque a Ciência tem muitas respostas mas não tem todas. Não ter todas, e a existência de lacunas, não pode ser preenchida com outra falácia: o deus das lacunas; 

5) Um pouco de Lógica e de retórica filosófica: uma proposição - deus por exemplo - só pode ser acolhida com provas. Sem provas não há proposição. Simples assim. Se você quer viajar na maionese perdendo o seu tempo com deuses sem comprovação, considere também o Grande Jujú da Montanha - o Senhor do mundos -, Odin, Mitra,  o Mágico Unicórnio Cor de Rosa, Gnomos e Fadas. Todos estão rigorosamente no mesmo ponto, ou seja proposições sem provas; 

6) Mais um pouco de filosofia, lógica e retórica: não se pode provar a inexistência do que não existe. Então quando pensar em dizer 'prove que deus não existe', lembre-se disso, e lembre-se também que o ônus da prova cabe a quem fez a proposição e não o contrário;

7) A Ciência é falível, certo? O dogma e o credo não... Mas é exatamente no reconhecimento - honesto - desta falibilidade que reside a maior força da Ciência: a auto-correção... O vigoroso e genial físico Richard Feynman - ganhador do Nobel - explica: "um princípio de pensamento científico corresponde a uma espécie de honestidade incondicional"... É esta honestidade incondicional ou ética, que reside no ceticismo científico, que confronta a vacuidade de crer... Isso porque as crenças se baseiam apenas na caprichosa, débil ou vã vontade de acreditar... Não se pode de forma alguma comparar as atitudes de 'tomar ciência ou tornar-se ciente' - da verdade -, com reconfirmar velhas ou novas convicções... Não se pode usar como desculpa a falibilidade assumida da ciência... Uma verdade científica tem um prazo de validade e um universo de aplicação demarcado, assumidamente, e será sempre revisada, sendo esta a sua maior fortaleza - e não o contrário...

8) E tem mais, sobre o exemplo do tribunal, apesar da tentativa sofismática - 'se o gato não foi encontrado não significa que não esteja lá, podem não ter procurado direito' -, devo lembrá-lo de que tribunais não julgam crenças... Neste caso 'a crença de que existe um gato'... Tribunais julgam proposições acompanhadas de provas e testemunhos... De forma que até que provem o contrário, objetivamente não encontramos nenhum gato... Caberá a quem afirma existir um gato entrar com uma petição para melhorar os critérios de busca do referido gato... Até que existam provas não existe julgado...

Finalmente, e para completar o post, eu diria que uma pessoa Ética, logo Cética - aquele que vê de perto, que olha os detalhes - deveria pronunciar-se somente diante de provas. Ou seja, estando no escuro, e se encontrasse um bicho peludo, que mia, poderia supor mesmo sem ver, que teria uma boa chance de ser um gato. Pela Ética Científica diria 'tenho em mãos um ser vivo, ele é peludo, mia como um gato, e provavelmente pelo tamanho e pela constituição física, seja um gato; quando dispuser de outros elementos, ou diante de contato visual, poderei verificar a minha observação, e talvez possa certificar-me de que sim é um gato'. Enquanto uma pessoa Ética, logo Cética, não encontra um gato, ela não deve obviamente falar em gatos... Por que o faria? Não ter todas as respostas não serve para comparar em absoluto meras crendices com severo escrutínio científico e epistemológico... Trata-se de Argumentum ad ignorantiam (ou Apelo à ignorância), trata-se de  generalização apressada, definição muito ampla e obscura, falsa indução, Dicto simpliciter (ou Regra Geral, Generalização), distorção dos fatos, Egocentrismo Ideológico, Falacia non causae ut causae (falácia da falsa proclamação de vitória ou tratar como prova o que não é prova), Falsa dicotomia (bifurcação), Cum hoc ergo propter hoc (ou Falsa causa), Ignoratio elenchi (conclusão sofismática) ou falácia da conclusão irrelevante, Reductio ad absurdum, etc. - filosoficamente falando... 

Bom final de feriado a todos... 

VIVER É APRENDER...

Carlos Sherman

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