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sexta-feira, 20 de abril de 2012

Superignorância




Superignorância

Um amigo me recomendou o livro 'Supersentido', alegando estar relacionado com a neurociência e arriscou: 'você irá gostar muito'... Na verdade já havia comprado e trocado o livro de Bruce Hood, e isso porque considerei o trabalho repleto de graves falhas conceituais... Não me recordava quando ele fez o comentário, mas tinha uma vaga lembrança... Voltei a conferir o livro e voltei a considera-lo muito fraco... Na verdade péssimo... 

De qualquer forma valeu pela sugestão, porque será mais um capítulo do meu livro: 'Superignorância'... Mas devo comentar que este livro não merece ser lido, não acrescenta nada de relevante e ao contrário, negando importantes descobertas neurocientíficas, genéticas, antropológicas, mitológicas, além postular inverdades sobre ‘superstições de cientistas’ - como Dawkins... Lançando uma nuvem de confusão e desconhecimento no ar, e deixando um cheiro azedo de oportunismo... Hood pratica a pseudo-ciência, e pode ser muito nefasto com o que diz... Hood escreveu sobre um assunto sem estudá-lo, praticando flagrante atitude dogmática, por subverter a ordem de perguntar para então responder... Hood tem respostas prontas, e está procurando apenas confirmar suas crenças, e vender livros... 

Hood não tem ideia do que seja Ciência... Baseia-se em um estudo do Instituto Gallup que aponta a presença da crença entre os americanos... Mas Hood não considera o fato, também medido e relatado pelo mesmo instituto, de que os não crentes duplicaram proporcionalmente em menos de 5 décadas, e de que ‘crer’ está diretamente relacionado com o a fome, e inversamente relacionado com o grau de instrução - enfim com a cultura... Crer está diretamente relacionado com a violência, desigualdade, mortalidade infantil, e inversamente relacionado com a expectativa de vida... Hood não considera em sua parca análise - por exemplo - o Julgamento do Macaco, responsável pelo atraso dos Estados Unidos em relação ao mundo desenvolvido, no quesito 'crença na crença'... Isso, entre muitas coisas, além dos 'bugs' ou características em nosso cérebro, que contribuem com a dificuldade de lidar com fenômenos complexos, encontrando eco em culturas primitivas para produzir crença... E a convergência de tais crenças em sincretismos de época, chegando até nós, não por conta do seu sucesso evolutivo, mas por conta das circunstâncias evolutivas... A dificuldade de ver que 'onde acreditávamos existir mistério, na realidade existe complexidade'... 

Hood não sabe de nada disso e muito mais... Desconsidera a importante linha divisória entre o simples ‘constructo’ supersticioso, e o método científico, fundamentado em provas, repetibilidade e fatos... Mas prefere buscar um 'gene da crença', sensacionalista e totalmente falacioso...


Hood , na falta de argumentos científicos, até porque não tem ideia do que seja Ciência, parte para a polarização ideológica, entre: “Você tem de escolher entre ser supersticioso e ser ignorante”... Na verdade você precisa escolher entre fundamentar posições em evidências e provas, ou no medo e na ignorância... Sim, vamos da ‘ciência’ - de tomar ciência - pelas provas, à ‘superstição’, com alegações totalmente infundadas... Neste ‘range’ teremos a distribuição humana... 

Culturas crentes estão se declarando descrentes, porque uma característica evolutiva, de buscar a proteção do bando, e que ainda é majoritária entre nós, hoje pode encontrar conforto e proteção em bandos céticos, e que comprovam viver melhor e de forma mais solidária... Portanto podemos basear nossas ações na realidade, sem medo de estar fora do bando... O bando religioso vem deixando de ser seguro... Entre outras coisas pelo sucesso do reconhecimento humano, através do conhecimento cumulativo, de fenômenos multivariáveis, complexos, caóticos, probabilísticos, randômicos, estocásticos ou, meramente, ‘não causais’... Mostrando que a Era Científica, que mal começou, tem aportado mais acertos e contribuído de forma clara na redução da mortalidade infantil, e no aumento da expectativa de vida, e na diminuição do sofrimento em face da morte... Refiro-me, não ao efeito placebo, mas às terapias que buscam assistir humanos, mortais, em seu leito de morte, garantindo uma despedida mais digna...

Hood não sabe absolutamente nada sobre a evolução da saúde ao longo da história, e desconhece que o homem de Cro-magnon pouca diferença apresentava em relação ao homem no fim da Idade Média... E isso significa que este salto em sobrevida, e possibilidade para a vida, com intenso aumento populacional, teve como causa direta a formatação do conceito científico pela prova, coisa que Hood infelizmente desconhece... Hood chega ao descalabro de dizer que “muitos cientistas tendem a ser ignorantes com grande frequência”, e pergunto e daí? Se um homem verdadeiramente iniciado no ceticismo, e que exige provas, pode falhar, imaginem homens baseados em ‘nada’ além de seu medo, costumes e tradições - igualmente fundadas no medo como instrumento de dominação...

Hood encerra a sua falácia ideologia, dizendo que “o que é magia hoje pode se tornar ciência amanhã”... Não Hood, não será assim. O que é válido hoje pode ser corrigido amanhã, afinal a ciência especifica o erro contido em cada observação, o erro propagado, o universo de validade, etc... A Ciência é falível, certo? O dogma e o credo não... Mas é exatamente no reconhecimento - honesto - desta falibilidade que reside a maior força da Ciência: a auto-correção...

O vigoroso e genial físico Richard Feynman - ganhador do Nobel - explica: "um princípio de pensamento científico corresponde a uma espécie de honestidade incondicional"... É esta honestidade incondicional ou ética, que reside no ceticismo científico, que confronta a vacuidade de crer... Isso porque as crenças se baseiam apenas na caprichosa, débil ou vã vontade de acreditar... Não se pode de forma alguma comparar as atitudes de 'tomar ciência ou tornar-se ciente' - da verdade -, com reconfirmar velhas ou novas convicções... Não se pode usar como desculpa a falibilidade assumida da ciência... Uma verdade científica tem um prazo de validade e um universo de aplicação demarcado, assumidamente, e será sempre revisada, sendo esta a sua maior fortaleza - e não o contrário...

Ou seja, se é magia hoje, nunca receberá o status de ciência amanhã... Hood confunde o fato de que no passado, pela falta ou ausência de afinidade com o método científico, alguns ‘creditaram’ que o eletromagnetismo era magia - por exemplo... Mas com o advento do Método Científico, e sobretudo com a corroboração de leis científicas através de provas, repetibilidade e fatos, isso não voltará a acontecer... Na Grécia antiga tínhamos Aristóteles postulando besteiras, e Aristarco, pela observação, colocando a Terra ao redor do Sol, como de fato está... Tínhamos a maioria postulando que a epilepsia era possessão demoníaca, e falando sobre 'almas', enquanto Hipócrates pela observação apontava 'as possíveis causas no cerébro humano'... Este risco já não existe, não confundiremos mais 'magia' com ciência... A alquimia não se transformou na Química... Fundamos um ramo da ciência - de fato - inteiramente novo... Os alquimistas nunca aceitaram a Química, e lutaram contra a sua popularização... 

Fenômenos sobrenaturais, objeto da superstição, estão nesta categoria porque não podem ser medidos, e seguirão nesta categoria enquanto não existirem provas... Diante de provas, fenômenos sobrenaturais passarão à alçada das ciências naturais... Antes disso, não existem razões - além do medo, da fantasia, ou de outros interesses ainda mais obscuros - para ascender tais 'fenômenos' à categoria de 'realidade'... Existem evidências que ainda não permitem a formulação de teorias ou hipóteses, e cujos fenômenos não podem ser devidamente investigados porque ainda não existem instrumentos... Isso ocorre muito na área de Astronomia, Astrobiologia e na Física Quântica... Mas isso nada tem a ver com a superstição, que evoca o sobrenatural para todo e qualquer fenômeno sem distinção... Esta cautela com fenômenos observáveis e complexos, é nada mais do que ética e senso de responsabilidade, muito diferente do estilo pouco sério de Hood, que pretende jogar para a galera e aparecer nas capas de revistas esotéricas ou pseudo-científicas... Isso não tem nada a ver com magia e a comparação é ignorante, senão desonesta... Suspeito das duas coisas...

Mais do que nunca, recomendo a leitura de Marcelo Gleiser, para que leigos nos fundamentos científicos, e na história do pensamento humano, possam adquirir conceitos básicos... Existem melhores do que Gleiser, sem dúvida, mas a sua abordagem didática em a ‘Dança do Universo’ ajudará você a entender a linha divisória existente entre o pensamento velho, preconceituoso e supersticioso, e o pensamento moderno, baseado em provas... O sentido de 'tomar ciência', ficará  evidente, assim como o fiasco de Hood...

E mais, todo o desperdício de tempo, dinheiro e papel, por parte de Hood, pode também ser facilmente explicado... Refere-se, tão e somente, à dificuldade que ele demonstra, pela falta de conhecimento específico, em entender o processo histórico da evolução do pensamento humano - culturalmente falando... A superstição decorre sim da uma possibilidade genética - complexa, múltiplos genes - em reconhecer padrões, imaginar e também de errar... A Ciência versa sobre o reconhecimento de padrões, submetendo a pensabilidade ao escrutínio da razão, pelo Método, e cobrando provas... Aprender, e reconhecer padrões é cultural, mas advém de nossa capacidade genética, traduzida em nossa neurofisiologia... E não estamos propagando nossos 'genes científicos', nem religiosos, isto não existe mais com a pílula e o planejamento familiar... O nosso cérebro  acomoda bem acertos e erros... E encontramos uma forma 'técnica', de evitar levar gato por lebre...

A superstição é o equívoco de ver padrões onde não existe nada, exatamente por desconhecimento deste conjuntos de técnicas, o Método Científico... Mas seguimos em frente errando em nossas decisões sobre realidade e ilusão, devido à patologias, 'bugs', e características do cérebro, e finalmente pela não iniciação ao Método, e pelo equivocado desprezo pela atitude cética...

A Era Científica ainda nem foi parida para muitos, para a maioria, e para iniciados e profissionais já está na 'adolescência', a caminho da fase adulta... Hood não sabe disso... O mundo será majoritariamente - mais que 50% - não crente em poucas décadas, e o conhecimento comprovado terá papel significativo em nossa tomada de decisões sobre políticas públicas, saúde, educação, leis, como já vem acontecendo; e penetrará nosso cotidiano, com francas vantagens sobre a superstição... Esta evolução é exponencial, e está sendo medida... 

Aqueles que hoje ignoram quase tudo à sua volta - e por isso viajam na maionese - sentir-se-ão bem mais confortáveis e ‘incluídos’, como já vem ocorrendo nos países mais desenvolvidos... Onde veem mistério existe apenas complexidade; e tais explicações ‘complexas’ que hoje desconhecem, serão assimiladas pela educação... Todos podem aprender, é certo, mas ainda não sabemos como ensinar a todos... Julgamos equivocadamente o ensino como política de massa, e com os velhos jargões ideológicos que infectam a edução, pedagogia, e a dita sociologia... Precisaremos romper os paradigmas do ensino ‘causal’, para então entendê-lo da forma como 'é', complexo... Sujeito à diversidade e variância na capacidade humana em assimilar saberes... 

Hood finalmente me parece ‘pouco honesto’, e portanto focado em ganhar grana sem escrúpulos, quando escolhe o título com o superlativo ‘supersentido’ - ao invés de colocar as superstições em seu devido lugar: superignorância... Ilusão e equívoco, decorrente do mesmo grau de liberdade que permite ao nosso cérebro aplicar aqui a Epistemologia... Não temos um gene para o equívoco - ou superstição - e outro para o aprendizado racional... Aprendemos o mundo pela mesma via, e com chances de equívoco... O Método é a 'prova dos nove', que traduzido de forma prática, remete à necessidade de sermos 'vigilantes', de manter a 'análise crítica' à postos, sobretudo quando uma questão foge inteiramente ao padrão...

Afirmar algo sem provas, sempre foi e segue sendo prejudicial, independente do contexto... Afirmar sem provas é danoso, e sempre valerá a questão: 'quais os interesses por trás desta conclusão apressada?'... Afirmar sem provas contribui e contribuiu, de sobremaneira, para toda sorte injustiças, desperdício de tempo, recursos e energia, ao longo da história da saga humana... Só porque atiramos virgens de penhascos para aplacar a ira dos deuses da chuva, desconhecendo uma matéria de ciências – o ciclo da chuva – do currículo do ensino básico aprovado pelo MEC; não devemos jamais supor que isso nos trouxe ou nos trará vantagens evolutivas, sendo pois algo ‘super’ especial... É exatamente o contrário... Hood demonstra não entender o que é evolução biológica... E está contribuindo - dizendo-se ‘psicólogo evolutivo’ - para toda sorte de preconceitos sobre a ‘Psicologia Evolutiva’... 

Hood não sabe que somente 20% das pessoas estão imunes à hipnose... Não sabe que 20% estão fadados à hipnose, enquanto 60% dependerão de um bom xamã, médium ou pregador, e das condições certas, para entregar o ouro... O seu cérebro por uma falácia, a realidade pelo conforto ilusório... O efeito anestésico, só que impedindo de sentir a vida em plenitude... Humano, demasiado humano...

O livro de Hood é um fiasco... Vergonhoso...

Carlos Sherman


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