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terça-feira, 9 de outubro de 2012

Últimas Palavras...




Últimas Palavras...

As últimas provocações de Christopher Hitchens

O que o último livro de Christopher Hitchens tem de breve tem também de intenso. São de fato suas últimas linhas, reunidas em menos de cem páginas, que chegam ao Brasil no mesmo mês de seu lançamento mundial. Últimas Palavras (tradução de Alexandre Martins, Globo Livros, 96 páginas, 24,90 reais) é o relato que o jornalista, crítico literário e sobretudo polemista de talento britânico fez de sua trajetória por aquilo que chamou de “Tumorlândia”. Um espaço (ou não espaço) que ele habitou nos 18 meses entre a descoberta de um câncer no esôfago e a morte que dele resultaria, em dezembro de 2011. Durante esse tempo, Hitchens fez anotações sobre o progresso da doença, a quimioterapia, os aspectos políticos e científicos dos tratamentos pelos quais passava, como aqueles que envolvem embriões humanos combatidos pelos “maníacos religiosos”, como os chamava Hitchens. Últimas Palavras é, portanto, o retrato de um tempo vivido intensamente – porque com a plena consciência da finitude da vida.

Hitchens transformou suas impressões em sete textos, enviados à revista Vanity Fair. São esses textos, acompanhados de um último capítulo de anotações esparsas e interrompidas pela morte do autor, que formam sua obra de despedida. O estilo muito direto de Hitchens – frequentemente sarcástico e ácido – contrasta com o apelo dramático, por vezes trágico, da situação. Ele procura de todas as maneiras fugir ao sentimentalismo e à autocomiseração, falando de seu sofrimento sem transformá-lo em centro da sua argumentação. Vê-se um homem que, mesmo diante da morte, se mantém lúcido, capaz de comentários de incrível sutileza e inteligência e de reflexões maduras sobre o mundo e o papel que desempenha nele. É impossível ler Últimas Palavras e não admirar esse derradeiro gesto de coragem intelectual (“Corajoso? Tá! Guarde isso para uma luta da qual você não pode fugir”, escreve Hitchens quase no fim do livro, como adivinhando o que pensará o leitor).

No segundo capítulo, Hitchens volta a marcar posição num debate central em sua carreira de polemista: o ateísmo. Diante da morte, que parece ser a esfera de atuação por excelência da religião, ele reitera suas opiniões sobre o absurdo e a vacuidade de toda postura religiosa, vista por ele como uma desculpa para a omissão frente aos verdadeiros problemas da vida. Para os familiarizados com livros como Deus Não É Grande (Ediouro, 2007) ou Cartas a um Jovem Contestador (Companhia das Letras, 2006), essas frases não vão surpreender. O que é digno de nota, em Últimas Palavras, é justamente a firmeza de Hitchens, sua capacidade de sintetizar toda a sua trajetória nessas linhas finais: “A religião que trata seu rebanho como um brinquedinho crédulo oferece um dos espetáculos mais cruéis que podem ser imaginados: um ser humano com medo e dúvida que é explicitamente explorado para acreditar no impossível”.

Últimas Palavras, por outro lado, também permite conhecer um Hitchens oposto àquele das opiniões polêmicas e dos juízos combativos. Das páginas deste livro póstumo, emerge o lado terno do intelectual, que não poupa elogios à amizade, ao sentimento de camaradagem e, principalmente, àquilo que nomeia como um forte senso de responsabilidade com relação à família e às pessoas próximas. “O meu maior consolo neste ano vivendo moribundo tem sido a presença de amigos”, escreve. Os depoimentos da esposa de Hitchens, Carol Blue, e de seu editor, Graydon Carter, incluídos como prefácio e posfácio no livro, dão uma preciosa medida do peso que a dimensão afetiva ganha em seus textos finais.

O livro de Hitchens faz parte de uma linhagem de trabalhos sobre a doença, a finitude e a morte. Sua busca pela lucidez até o último momento lembra a resistência de Freud, nos últimos anos da década de 1930, quando também foi acometido de um câncer que lhe tirou a voz. Últimas Palavras também faz companhia aos ensaios de Susan Sontag (A Doença como Metáfora e Aids e Suas Metáforas), às memórias de Joan Didion (O Ano do Pensamento Mágico e Noites Azuis) e ao Diário de Luto de Roland Barthes. O peso da escritura póstuma de Hitchens, no entanto, talvez só possa ser diretamente comparada às anotações feitas por Kafka em seus diários quando sua tuberculose já estava bastante avançada, ou a The Diary of a Dying Man, em que o poeta escocês William Soutar, também ele tuberculoso, narra seus últimos meses de vida.

Evocando nomes como os de Philip Larkin, Ambrose Bierce, Bertrand Russel e Nietzsche – cuja famosa frase “O que não me mata me fortalece” é revisitada e questionada por um Hitchens abalado pela quimioterapia –, Últimas Palavras coloca em primeiro plano não apenas a erudição de seu autor, mas igualmente a noção de que a leitura apaixonada será sempre uma celebração da vida, de suas possibilidades e de sua permanência. Como Sócrates, que aprendia uma ária em sua flauta enquanto o veneno para a sua morte era preparado (e é exatamente essa palavra que Hitchens escolhe para descrever a quimioterapia: saco de veneno), o lúcido intelectual continua lendo, escrevendo, publicando ensaios na imprensa, conversando com amigos e pensando seu tempo presente. Mas a analogia tem um limite, pois não há nada da placidez de Sócrates nas reflexões de Hitchens diante da morte. A sua intenção é realizar uma espécie de combativa reportagem de guerra, não evadindo em nenhum momento de relatar a decadência física que, pouco a pouco, se intensifica.

A consciência do fim, em Últimas Palavras, se confunde com a própria consciência de si. “Eu não tenho um corpo, eu sou um corpo”, escreve Hitchens, resumindo em um poderoso aforismo toda a urgência que a doença, paradoxalmente, confere à materialidade de sua vida. Por conta da especificidade de seu câncer, localizado no esôfago, um dos primeiros sinais de desenvolvimento da doença foi a perda da voz. E isso atinge Hitchens de forma bastante dura. Ele relembra, nos textos de Últimas Palavras, as posições que defendeu, os debates de que participou com sua voz grave, evocando também a “arte da conversação” que cultivou ao longo da vida. A voz, portanto, faz parte tanto da luta quanto do prazer – foi com ela que Hitchens fez seus amigos e seus inimigos, e é essa voz que segue ecoando em suas últimas palavras, que agora temos a chance de compartilhar e celebrar.

Kelvin Falcão Klein

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