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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O que é POESIA???

Gustavo Adolfo Bécquer

O que é POESIA???

Sem pretender um estudo semiótico do termo - ou o estudo dos signos linguísticos, i.e., do sistema sígnico da linguagem verbal - sugiro que partamos de uma definição formal...

Por definição poesia é:

A poesia, ou gênero lírico, é uma das sete artes tradicionais, pela qual a linguagem humana é utilizada com fins estéticos, ou seja, ela retrata algo, mas onde tudo pode acontecer dependendo da imaginação do autor e do leitor. "Poesia, segundo o modo de falar comum, quer dizer duas coisas. A arte, que a ensina, e a obra feita com a arte; a arte é a poesia, a obra poema, o poeta o artífice." - ALMEIDA (sXVI) apud MUHANA, 2006.

Interessante definição... Poesia é quando 'a arte ensina', ou uma obra - qualquer que seja - executada com arte... Isso nos remeteria a discutir a semiótica de ARTE... Mas prometo parar por aqui, rsrsrsrs... Mas Aristóteles tem outras ideias e em sua Poética (IX-50) aproveita o ensejo para impregnar o conceito de poesia com outras possibilidades, como 'o viajar na maionese metafísico', alegando que "A poesia compreende aspectos metafísicos (no sentido de sua imaterialidade) e da possibilidade de esses elementos transcenderem ao mundo fático. Esse é o terreno que compete verdadeiramente ao poeta."... E infelizmente é este o sentido que persevera... Infelizmente porque o metafísico já se provou irreal... Não existe um fantasminha que vive na máquina corporal, e nem tal dualidade - máquina/alma, corpo/mente... Não somos uma alma que possui um corpo, somo um corpo, somos humanos - demasiadamente humanos... Aristóteles estava errado sobre tudo, sobre alma, e sobre o fato de mulheres não a possuírem - somente os homens -, assim como os escravos e os animais... Aristóteles escreveu asneiras suficientes para uma enciclopédia de equívocos, e baseou-se apenas em sua autoridade...

Mas pela via eclesiástica, o platonismo-aristotélico, foi conduzido às mentes de hoje através das mentes perturbadas de Al-Ghazali, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, e pelas confusões cartesianas e kantianas... Não, não existem fantasmas e deuses, e se a poesia enseja falar sobre o sobrenatural, então a poesia é uma tolice... Mas não é... Aristóteles também errou nesta definição... O dito filosofo taxonomista, que adorava cunhar significado para tudo, a partir da sua mera autoridade, também não entendeu nada sobre poesia, e praticamente associou o termo com o direita à vacuidade...   

Mas a poesia está sempre associada, de forma mais abrangente, com a própria arte, e que bom... O que não deixa de indicar um bom caminho, já que qualquer arte é também uma forma de linguagem (ainda que, não necessariamente, verbal)...


Poesia é a expressão pessoal... Em tese, um pensamento ou percepção expresso em estilo próprio, seja pela escrita, pelo som, ou pela imagem... No poema - escrito ou declamado -, apesar das necessárias asas da liberdade criativa, ainda assim encerram a necessidade de que 'algo precisa ser dito', e que contenha sentido e coerência - ao menos pessoal -, e conteúdo... Ou não teremos nada... Apesar da amplitude e da liberdade, e ainda assim, 'poetar' sugere o alinhamento entre o que se pensa, se diz e se faz... Ou não teremos nada, não teremos 'verdade', nem coerência... E neste caso 'pra quê' abrir a poca ou empunhar a 'pena'? Se não há o que dizer, a melhor poesia seria 'calar'... 

A poesia, apesar dos subterfúgios, e como toda ação, requer um motivo e uma motivação... Ou - novamente - não teremos nada... Seria bom se quem professa ou diz algo, tratasse de entender o que diz, de aprender e refletir, antes de dizer... Mas a poesia pode ser um jorro emocional... Que seja... Mas a construção escrita não será obra da 'psicografia fantasmagórica'... Percebemos a cena, codificamos em nosso cérebro, processamos, produzimos descargas hormonais, físicas, com consequência físicas sobre nossas glândulas lagrimais, frequência e pressão cardíaca, e vaso dilatação... Depois somos realimentados por estas sensações físicas, e decodificamos tudo isso por meio de nosso estilo a- aprendido  e memorizado... Não existe mágica, nem metafísica... E não existe dualidade - de fato - entre sensibilidade e pensamento... Na verdade são irmãos siameses, indissolúveis - vide Drummond, Pessoa, Coralina, Neruda, Garcia Marques, entre tantos outros... 

A poesia invoca um conteúdo, um tema, e o conteúdo ou desenvolvimento deste tema pede e clama por conhecimento... A dualidade é uma invenção platônica, e não confere com a realidade - com a vida - e com o comportamento humano... De fato sentimento e racionalizamos com o mesmo cérebro, a única identidade com  o que nós somos - socialmente... Mesmo o jorro emocional é uma função de nosso racionalismo... Mesmo que todo este processo ocorra - e ocorre - de forma INVOLUNTÁRIA... E aqui estou dizendo que a falácia do livre-arbítrio também precisa ser entendida...

Portanto, em um único aforismo, diria que:

'O poesia, ou a atitude poética, decorre do grau de pureza estilística na expressão de nossas emoções e pensamentos - sejam eles conexos ou desconexos'...

Caberá aos receptores julgar se existe conexão entre a mensagem e suas vidas, mas basta que haja pureza estilística para que consideremos ou respeitemos à expressão de outrem como poética... Quando alguém embala uma mensagem para presente, sem que haja 'pureza' no gesto de expressar tal mensagem, considero que a poesia possa estar comprometida... Quando a mensagem vai do nada ao lugar algum, considero o conteúdo desconexo, ou mesmo que não existe pureza na expressão das emoções... E estaremos representando um papel...

Quando Bécquer diz "Poesía... eres tú...", e possível perceber a pureza na expressão, a verdade, a honestidade... E existe conexão com a minha própria percepção... Percebo portanto que existe conteúdo, verdade, e não apenas vaidade e comércio... Existe portanto poesia... Pura, simples, líquida... Bécquer está jorrando através de suas palavras...

Em síntese: poesia não é verborragia...

A DESPEITO DO VALOR ESTILÍSTICO, UMA POESIA , OU UMA OBRA DE ARTE, VALE PELA ESTÓRIA QUE ENSEJA POR TRÁS DE SUA GRAFIA OU REPRESENTAÇÃO... VALE PELA SUPOSTA EXPERIÊNCIA DO ARTISTA, QUE BUSCA A CONEXÃO COM OUTROS HUMANOS... SOMOS ESSENCIALMENTE SOCIÁVEIS, SIMBÓLICOS E 'ESSENCIALISTAS'... E DESEJAMOS ARDENTEMENTE - UNS MAIS DO QUE OUTROS - COMPARTILHAR EXPERIÊNCIA... ASSIM COMO BUSCAMOS - E BUSCAMOS - TESTEMUNHAS PARA A NOSSA PRÓPRIA EXISTÊNCIA - OU PARA O HIATO DE NOSSA INEXISTÊNCIA, COMO GOSTO DE DIZER... RECONHECEMOS PARCEIROS E PARCEIRAS, AMIGOS E AMIGAS, OU O NOSSO PÚBLICO, QUANDO RECONHECEMOS TAIS TESTEMUNHAS... ASSIM SOMOS NÓS, HUMANOS - TROPPO UMANOS -, E POR ISSO PRODUZIMOS ARTE... QUALQUER SUBVERSÃO DESTES PRINCÍPIOS, MERECE UMA BELA 'SEGUNDA OLHADA', PODEMOS ESTAR DIANTE DE UMA IMPOSTURA... A SABER, PODEMOS ESTAR DIANTE DE UMA 'ESTÉTICA DESPROVIDA DE ESTÓRIA'... PODEMOS ESTAR DIANTE DE UMA REPRESENTAÇÃO QUE NÃO FOI EFETIVAMENTE EXPERIMENTADA... A LINHA QUE SEPARA A VERBORRAGIA - SEM ESTÓRIA - DA POESIA - VIVIDA E VÍVIDA - É TÊNUE... E TEIMO EM DENUNCIAR... AFINAL, 

'ÉTICO, LOGO CÉTICO'...


Carlos Sherman

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