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terça-feira, 20 de novembro de 2012

Por que o Geocentrismo está errado?


Por que o geocentrismo está errado?

Autor: Pedro Almeida
É um ataque à razão e à Ciência nos EUA, por todos os lados. Agora, o mesmo tipo de gente que defende o criacionismo da Terra jovem como teoria científica e embasada por evidências (sob a forma de design inteligente, algumas vezes, noutras no literal mesmo) está defendendo que a Terra é o centro do universo, numa conferência chamada “Galileo was wrong: the Church was right”.
Não é necessário ser nenhum gênio para perceber o grau de irracionalidade em que estas pessoas estão se mergulhando para negar que certas convicções pessoais (como a inerrância das escrituras) são incompatíveis com a realidade do universo. Uma conferência pseudocientífica alegadamente católica para defender um ideal medieval. Medieval mesmo, por que em pleno século XXI, vemos pessoas dispostas a “provar com evidências científicas” o que a mesma Ciência já provou errado diversos séculos atrás.
Em resumo, uma conferência católica para defender um princípio fundamentalista católico, com um nome arrogante que remete à inerrância do dogma escritural e da instituição católica, com “autoridades” e “cientistas” católicos convocados para palestrar. Sem contar a quantidade de apelos às supostas autoridades destes supostos cientistas por todo site da conferência. Dá pra ter uma imagem do critério e credibilidade das ditas “evidências” alegadas para o geocentrismo. Mas por que temos estas pessoas, incluindo um doutor em Relatividade Geral, insistindo numa mentira que é claramente incompatível com a realidade? Baseado em que eles acham que podem fazer um caso para o geocentrismo? O que a ciência de verdade pode dizer sobre isto?
“Todo movimento uniforme é relativo”
Vejamos. O primeiro postulado da Relatividade Especial nos diz que não há experimento nenhum que possa nos mostrar se estamos de fato parados ou em movimento uniforme – é por isso que não sentimos a Terra girar. Ou seja, o máximo que podemos dizer é que corpos estão se movendo em velocidade constante relativos uns aos outros. Todo movimento uniforme é relativo, portanto. O máximo que podemos detectar é aceleração, ou seja, mudança de velocidade. Rá! Ponto pro geocentrismo, não dá pra saber se realmente é a Terra em torno do Sol ou vice-versa? Errado. Por dois motivos.
Primeiro, porque ainda cabe o ônus da prova, de qualquer um dos dois lados. Segundo, que o modelo científico atual possui evidência de órbitas fechadas de corpos celestes (inclusive a Terra) em torno do Sol, no caso específico do nosso sistema solar. Neste caso, o modelo científico tem as provas de que a Terra não é um referencial inercial privilegiado.
Ora, para algo estar centrado em relação ao movimento dos corpos celestes, há de se introduzir o conceito de órbita destes últimos. Como é definida a órbita planetária? Órbitas são caminhos fechados de corpos em movimento uniforme, eventualmente em torno de outro corpo [1]. De qualquer forma, as órbitas captivas (planetárias) são linhas fechadas com início coincidindo com o final (elipses ou circunferências). Qualquer outra forma, cônicas (como hipérboles ou parábolas) ou não, são trajetórias (órbitas de escape, mais precisamente), e não órbitas planetárias (captivas).
Para demonstrar o raciocínio, podemos traçar as órbitas relativas a cada origem [2]. Se tomarmos o Sol como nosso referencial inercial (i.e., como o “parado” em relação aos “orbitantes” – planetas, etc. – do nosso sistema solar), temos o movimento dos planetas (Mercúrio, Vênus, Terra e Marte) relativos à nossa estrela traçando elipses (quase circunferências) em torno dela (figura abaixo, esquerda). No entanto, se traçarmos a trajetória destes planetas, porém tomando a Terra como centro, i.e., a referência inercial, obtemos traçados que não se parecem nada com órbitas (figura abaixo, direita).
Fiz um pequeno programa [3] que calcula as órbitas dos planetas relativos a uma referência qualquer (escolhida como ou o Sol ou a Terra) e desenha a trajetória dos planetas em torno desta. O programa usa dados reais de excentricidade, eixo semi-maior, velocidade orbital e período orbital dos 4 planetas mais próximos do Sol. Num mesmo período de dois anos terrestres para ambas as figuras, é possível ver como se comportam a trajetória heliocêntrica e a suposta trajetória geocêntrica para os planetas:
Clique para ampliar – (escala em km x 108)
Indo ainda além, extrapolando o número de anos do período a ser analisado, é possível ver que as trajetórias geocêntricas nunca coincidem, o que fica visível pelo aumento gradual da densidade espacial de linhas de trajetória desenhadas para 8, 40 e 150 anos, respectivamente:
Clique para ampliar
Isso quer dizer que as trajetórias geocêntricas nunca formarão um caminho fechado, enquanto as trajetórias heliocêntricas fecham logo no primeiro período de cada planeta.
Cabe lembrar que estas figuras são traçadas seguindo as equações da mecânica clássica newtoniana, que descrevem o movimento de todos os corpos macroscópicos massivos, desde a queda de uma bola até o arrastar de uma cadeira. Todos estes dados condizem com a evidência observacional do movimento dos corpos celestes do nosso sistema solar.
Qualquer um mais bobo poderá dizer qual destas figuras representa uma órbita, i.e., um caminho fechado em torno do referencial inercial tomado para cada caso. O fato é que a Terra possui uma órbita em torno do Sol, assim como todos os outros planetas do nosso sistema solar, e esse movimento, mesmo sendo relativo (o Sol também se movimenta na galáxia junto ao nosso sistema, que por sua vez se movimenta pelo universo), é um movimento orbital.
Resultado: é impossível e arrogante conceber uma Terra-referencial-incerial-privilegiado no centro do universo, com toda a evidência observacional e com todos os modelos que temos para descrever movimento, modelos estes que comprovadamente funcionam.
Quod erat demonstrandum
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[1] – A Relatividade Geral nos diz que as órbitas seguem as geodésicas do espaço-tempo, ou seja, linhas que se fecham e percorrem os menores caminhos na “superfície” tridimensional do espaço-tempo (que é, a rigor, um espaço vetorial quadridimensional). No entanto, a mecânica clássica é capaz de descrever com precisão suficiente o movimento dos corpos no sistema solar, sendo a Relatividade Geral um preciosismo que generaliza os conceitos newtonianos, estando este último em total acordo com as aproximações não relativísticas que podem partir da Relatividade Geral.
[2] – Há outras figuras programadas e disponibilizadas pelo Ludwig Krippahl no site Diário Ateísta (http://www.ateismo.net/2010/09/05/treta-da-semana-mexe-nah/).
[3] – O código para o programa que fiz, escrito para MATLAB, está disponibilizado aqui, com comentários.

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