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sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

O funeral de Niemeyer




Uma amiga publicou:

Eu sempre penso no que os familiares fazem em relação a seus mortos. Me expliquem o porque de uma missa se Niemeyer foi ateu convicto? Nao seria esta decisão da família muita hipocrisia social, supervalorização da morte e até mesmo abuso desta condição? Ele nunca rezou, nunca foi a uma missa, ...fala sério né!!
ENTERREM SEUS MORTOS E OS DEIXEM EM PAZ.
Ateu e com medo de avião, Niemeyer voou e teve missa: quando não tinha jeito, arquiteto encarava voo com boas doses de uísque. Também achava o mundo injusto demais para aceitar a existência na Deus. Ontem, por vontade da viúva e dos netos, uma missa em sua homenagem foi celebrada na capela do hospital. Corpo foi colocado duas vezes em um avião. Veja mais em http://migre.me/cghHr

E solicitou o meu comentário, o que já é uma grande honra, e sinal de enorme consideração... Anui:

Sim, um absurdo, toda essa liturgia da morte dedicada a um homem marcadamente descrente... E preciso deixar instruções expressas para o fim do 'hiato de minha inexistência'... Instruções expressas para uma bela festa, pois foi assim que vivi, e sendo assim, é assim que espero ser lembrado... Já escolhi as músicas, as bebidas e o cardápio, e preciso formalizar em meu testamento, caso contrário é bem provável que alguns parentes - queridos, mas que pouco consideração tem com a minha vontade - queiram me 'velar', 'rezar' e 'enterrar', cultuando minha morte pelo avesso de minha vida... Aliás, pretendo fazer um ensaio da festa em homenagem à minha vida - em razão de minha inevitável morte -, rsrsrsrs... E quero participar, já que seguramente não estarei presente na festa oficial, rsrsrsrs... E sempre digo 'entenda a morte e entenderá a vida', mas neste caso, considerem a vida de Niemeyer, e entenderam os devaneios relacionados à sua morte... Pessoalmente não tenho Niemeyer em tão alta conta... Considero um homem de muitas contradições, e teimo em questionar sua genialidade como arquiteto... Mas Niemeyer pode ser entendido como um grande 'transformador', mas sempre lembrando que nem toda transformação é positiva, mas este aqui não é o espaço nem a hora para tal reflexão... Finalmente, tenho muto respeito pela existência inegavelmente brilhante de Oscar Niemeyer... Pronto, acabou, uma vida foi bem vivida, até o fim, até que não restasse mais vida... E deixou um enorme legado para muitos... Bravo!!!

Carlos Sherman


P.S.:

Fernando, tudo bem, sem problemas, ele está morto, mas entre 'aqueles que ficam' contamos também aqueles que 'ficam com a imagem de Niemeyer como ele realmente foi' - como a Angela Vieira... Ela fica, e quer homenagear uma personalidade como Niemeyer de forma coerente, e coerente com a sua vida... Acho que familiares tem prioridade em relação aos 'que ficam', mas aqui estamos assistindo a um descalabro... Pense bem, um homem 'fervorosamente' ateu, sendo lembrado com 'rezas'... Por não podemos manter o respeito mas também mantendo a coerência... Como se 'rezas' fossem o único caminho para celebrar a memória de um humano... O único caminho em um país laico??? O desejo da família é soberano, neste caso, desde que não haja, como farei notar no meu caso, um desejo expresso pela coerência, entre a minha vida e a minha memória... Não quero a minha imagem relacionada com os símbolos que desprezei, e com os ritos que denunciei... Onde está o respeito pelo meu legado, pelo legado dele???

A minha esposa e filhas, conhecem a minha vontade.., De perto... Os meus pais preferem a vontade deles à minha, e lamento, mas não pretendo permitir que a minha memória seja misturada à tudo o que condenei.... Não tem o menor cabimento... Celebrem minha memória de forma carinhosa, bonita, expressiva, mas em consonância com a minha vida...


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