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quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Roberta só tinha 17 anos...


Roberta Baêta... Ela só tinha 17 anos... Apenas uma menina...


Roberta Baêta, 17 anos, apenas uma menina, tira a própria vida, enforcando-se no dia 28 de Dezembro de 2012... Éramos amigos pelo Facebook:

Lamento profundamente a perda... Desejo saúde e força aos amigos e parentes, para enfrentar uma tragédia de tal magnitude.... Tive a oportunidade de conversar privadamente várias vezes com a Roberta Baêta, e acho que fui uma das primeiras pessoas consultadas por ela sobre a questão religiosa e seus problemas familiares... Registrei muitas destas conversas, e foram instigantes, ao mesmo tempo que preocupantes...

Em nosso último papo, desta vez público, no dia 26 de Dezembro, dois dias antes de morrer, discordamos sobre sobre o ódio ser "uma face do amor", e procurei ajudá-la a reavaliar sua posição, mas sem sucesso... Sei que gozava do respeito da Roberta, mas quando ela lançava um brado, era difícil argumentar, por a sentença estava lavrada... Não pude conhecê-la pessoalmente, e também lamento isso, mas conheci muitas de suas posições, quase sempre duras, diametrais e pontiagudas; e não raro, atormentadas... Lamento a morte de uma menina de 17 anos, errante, confusa, e que precisava de toda a ajuda possível, acreditando possuir todas as respostas, e talvez o dom da imortalidade... Lamento a morte de uma menina... 

Sobre a questão 'ateísta', amiúde, relacionada à tragédia, repudio com veemência a tentativa de transformar esta tragédia familiar em um martírio ateísta, ou uma espécie de cavalo de batalha separando crentes e descrentes... A perda de uma menina, que interrompe a própria vida, é algo muito mais complexo e delicado do que o maniqueísmo que demarca bons e maus, crentes e descrentes... Trata-se de uma tragédia humana, familiar, uma tragédia para ateus, para crentes, para homens livres ou não... Besteiras como estas, e uma eterna ode ao martírio, confundiram a cabeça da Roberta... 

Uma menina precisava de abraços, carinho, muito carinho, e orientação... Lamento a morte desta menina, lamento tanta confusão e dor... Roberta me disse em 26 de Dezembro: "O ódio é o lado negro do amor, alguém que não teremos de forma branca e o temos na forma negra. (..) A verdade não odiamos ninguém que não tenha valor para nós, se bem analisarmos poderíamos amar muitos dos quais dizemos odiar. "... Discordei, só pude discrodar: "Por quê? Que ideia absurda... ÓDIO POR QUEM TEM VALOR PRA NÓS??? Uma contradição em si... Por quê? Por favor, desenvolva este conceito? Insisto que tal visão te levará por um 'sendero' de confusão... E desejo uma linda vida, um lindo 2013... Com muita saúde - e sem ódios... (..) E daqui vejo claramente enorme confusão... Amar, verbo intransitivo, é dar... Dar sem esperar receber nada em troca... Amar é empenhar seus esforços para fazer outra pessoa feliz... O bem de amar está na sensação que sentimos... É pessoal e intransferível, e fica retido na fonte por quem DÁ... Fazer o bem a alguém pelo bem de fazer..."... 

Não pude imaginar, jamais, que não haveria 2013 para ela, e que não haveriam mais do que 2 dias... Dediquei um bom tempo à este papo, mas se soubesse, e tal divagação não conduz a nada, mas se soubesse que a vida desta menina contava o seu desfecho em horas, eu teria adormecido ao lado dela no teclado, ou viajado até a sua casa, mas suavizar a sua trajetória, e divertir os seus dias...

Sobre a suposta briga com a mãe, o pomo da discórdia 'religiosa', as ofensas, os palavrões, a referência à prostituição, a expulsão de casa, devemos considerar que o fato detonador - efetivamente -foram as fotos que a Roberta passou a publicar na Internet, além de uma súbita mudança de comportamento - ao menos foi o que a nossa distância permitiu desvendar... Não havia nenhuma relação entre as referências à prostituição e o 'ateísmo'... A família pode efetivamente, em sua suprema ignorância, ter confundido as coisas, devido à mudança geral no comportamento, mas a Roberta também tratou de misturá-las, pois necessitava de apoio... Muito foi debatido sobre 'religião', pouco foi conversado sobre as fotos, ou sobre o comportamento da Roberta... A sexualidade de Roberta estava aflorando, uma menina de 17 anos, vivendo a plena adolescência...

Insisto, a confusão era reinante na cabeça da Roberta, assim como no entorno de sua vida... Um ambiente ignorante 'sim' pode ter suprimido o necessário apoio da família, ou mesmo contribuído para limitar o apoio médico... Mas não sublimar a questão religiosa, e esquecer os severos problemas neurológicos enfrentados pela Roberta, em favor de uma luta entre ateus e crentes... Roberta não foi propriamente uma guerreira, como proclama... A 'forca' é a maior prova de que os problemas neurológicos venceram...

Todos os dias pessoas sofrem amputação, tortura extrema, estupro, estupro continuado, incesto, ou amargam tratamentos em condição terminal, sem abrir mão de um fio de esperança, e sem recorrer à interrupção da própria vida... Para cometer suicídio precisamos dispor de um 'detonador' ou ausência de determinados 'freios da auto-preservação'... Novamente, não podemos invocar a luta entre crentes e descrentes para justificar este suicídio, ou qualquer um... Giordano Bruno lutou por sua vida quando, esta sim, foi efetivamente interrompida pela sandice crente, e não houve qualquer vetor em sua conduta que não estivesse dirigido a viver pela verdade que defendia... Eis um mártir, que jamais intencionou sê-lo...

A Roberta era e estava muito confusa... Se dizia ateia mas recorria à superstições... Estava confusa em todos os sentidos... Ela era só uma menina... Não foram poucos os debates em que participamos juntos, e a bipolaridade da Roberta estava estampada também na 'bipolaridade' e radicalismo de suas posições: 'você está comigo ou está contra mim'... 

Roberta citou o Yin Yang em nosso último debate, citou o 'sobrenatural', mas alegava não acreditar em deuses: "O que é o amor? Sentimento por aqueles que conhecemos e significam algo de alguma forma para nós. Só que o ódio é o sentimento negro, o amor o branco.... no fundo o mesmo sentimento dividido em yin yang"... Nem Yin, nem Yang, nem bipolaridade ideológica, nem maniqueísmo religioso, e você - pequena - não entendeu o amor... não houve tempo, nem condições... Na verdade você só precisava de atenção, e muito carinho...

Roberta era só uma menina, e fechou a nossa conversa em 26/12/2012, poucos dias antes de morrer, submersa em despeito, dizendo: "Não tenho perspectiva de que as pessoas me amem.... pelo contrário kkkk GOSTAR DE MIM É 1 FAVOR QUE ME FAZEM, NÃO GOSTAR SÃO 2"... Roberta viveu pouco, e viveu de forma errante... Suas causas não eram suas realmente, ela não estava plenamente consciente do que defendia - nunca estão!!! -, eram pretextos para a expressão de sua confusão e conflitos... Roberta só tinha 17 anos... E bem sei que ela realmente não pensava assim, sei que ela não desprezava o 'apreço', porque sempre esteve claro e aparente para mim, e de forma quase gritante, que a Roberta calava um pedido de socorro, um pedido de AMOR... 

Roberta reclamava atenção, o Facebook era o canal... Ela mudava o estilo, o óculos, as fotos sensuais, mas o mesmo amargor... Ela agonizava e fantasiava... A Roberta precisava de ajuda... Ajuda neurológica... 

Não culpemos parentes, nem crentes.... Uma tragédia aconteceu... Uma jovem tirou a própria vida, imersa em todo tipo de confusão... Não pudemos fazer nada para evitar, crentes e descrentes - como eu... Lamento a perda, sentirei saudades de seus desafios... Sinto profunda impotência quando recupero a memória de nossos momentos... Reviso minha própria condição, acho tudo patético, e escuro... 

Sempre me preocupei com o destino da Roberta, uma bala perdida em meio à multidão... De alguma forma tentei evitar o pior, mesmo sem ter uma ideia clara sobre 'com quem' ou com o que lidávamos, ela e eu... Tratei de moderar seus rompantes, e a aliviar a sua angústia, repartir a carga, mas não era assim que funcionava em seu sistema neural; não funcionou...

Agora me preocupo com o que restou, o destino de sua imagem... Me preocupo com as distorções sobre o seu exemplo, e isso porque me preocupo com os outros, que assim como ela, ainda podem puxar o próprio gatilho ou apertar o laço...

Roberta só tinha 17 anos...


Carlos Sherman

Ser livre é, com frequência, estar sozinho... - W. H. Auden

Já me acostumei... - Carlos Sherman

2 comentários:

  1. Que tristeza, que dor, Sherman... Sinto pela sua amiga e por esta angústia que paira diante de um ato como esse, incompreensível a quem sabe que viver é conseguir atingir tênue equilíbrio diante das inconstâncias humanas.

    Abraço fraterno,

    Hosamis.

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