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sexta-feira, 22 de março de 2013

As Nuvens




Estrepsíades

Queres dizer que Zeus é uma invenção? 

Sócrates 

Zeus? Que Zeus? Não há Zeus. Que Zeus? 

Estrepsíades 

Que Zeus? 
Quem então faz a chuva? Me responde. 

Sócrates 

Quem faz a chuva? As nuvens, certamente. 
A prova, neste caso, é conclusiva: 
Tu já viste jamais chover com céu sem nuvens? 
Se fosse Zeus, fazer chover podia 
Com um céu todo claro. Ou não podia? 

Estrepsíades 

Podia, é claro. Tens razão, portanto. 
Tens razão, tens razão, mas eu pensava 
Que Zeus, com um regador, fazia a chuva. 
Mas ainda há uma coisa: e a trovoada? 
Sócrates 
São as nuvens também. Simples processo 
De convecção. Isto é coisa provada. 

Estrepsíades 

Eu muito te admiro, mas confesso: 
Não é fácil seguir teu raciocínio. 


Sócrates 


Escuta, pois. As nuvens o que são? 
Uma densa de água solução. 
A tumescência move-se e provoca 
Em conseqüência a precipitação. 
E conseqüentemente com algum 
Esforço então as massas se distendem, 
E as massas distendidas fazem: Pum! 

Estrepsíades 

Mas quem as faz mover para colidirem? 
Não achas que é Zeus? 

Sócrates 

Não, idiota. 
Tudo isso é explicado no princípio 
Da convecção. 

Estrepsíades 

Convecção? Princípio? 
Espera um pouco. Tu não me disseste 
Afinal quem faz a trovoada. 

Sócrates 

Ora, não te expliquei? Não me entendeste; 
As Nuvens são de água carregada 
E explodem, quando entram em colisão. 

Estrepsíades 

E a prova disso, podes me mostrar? 

Sócrates 

Muito fácil. Em ti mesmo tens a prova. 
Os cozidos de carne não conheces 
Que são vendidos em Panatenaia? 
Como provocam dores de barriga 
E fazem ribombar o baixo ventre? 

Estrepsíades 

Por Apolo, eu me lembro. Coisa Horrível! 
Logo a gente se sente muito mal, 
Com a barriga crescida e após, então 
Dor de barriga e, após, sob pressão, 
Vai comprimindo o vento intestinal 
E para fora sai como um trovão. 
É um ronco a princípio: puuum 
Depois mais alto: puuuuum 
E afinal um trovão: PUUUUUUUUUUUUM! 


Sócrates 


Precisamente. O diminuto pum 
De tua entranha, é mister, compara 
Com o estrondoso pum que vem do céu, 
Isto é, o trovão. Mas o princípio 
É o mesmo, quer num caso, quer no outro. 

Estrepsíades 

Mas, então, de onde é que o raio vem? 
E, quando o raio cai, por que é que mata 
Alguns homens e outros são poupados? 
É Zeus quem manda os raios. Evidente! 
Com o raio castiga os mentirosos. 

Sócrates 

Ouve, idiota, e me responde agora: 
Se é Zeus que castiga os mentirosos, 
Como é que Simon ainda está vivo, 
Vivos também Cleôminos e Téoros? 
No entanto, em lugar de fazer isso 
Ele destrói seus próprios santuários 
Corta ao meio carvalhos centenários. 
Tem razão para isso? Por acaso 
Pode o carvalho cometer perjúrio? 

Estreopsíades 

Mas como explicas, afinal, o raio? 

Sócrates 

Espera. 

(Ilustra as suas palavras com um precário Modelo do Universo.) 

Vê agora. Suponhamos 
A corrente de ar, bem aquecida 
Subindo o rumo ao céu. Logo em seguida 
Atinge as nuvens e estas se dilatam 
E se distendem, qual uma bexiga 
De boi, bem limpa, que um menino sopra 
E se enche de ar. Eis que a pressão 
Tremendamente forte se tornando 
Provoca a ruptura do balão, 
Com um estrondo terrível, o trovão. 
E liberando os ventos que disparam 
Em tal velocidade que o atrito 
Acaba provocando a combustão, 
E assim ocorre o raio. 
Tenho dito.


Excerto de "As Nuvens", de Aristofanes, encenada em 423 AEC - A cena acima, ilustra o diálogo entre o 'personagem Sócrates', que 'personifica' o sábio, e o personagem Estreopsíades que personifica o aprendiz, um caipira, tolo, e rústico candidato a aprendiz... É interessante notar como o personagem do sábio - 'Sócrates' ridiculariza Zeus - deus -, enquanto o outro personagem, o estúpido trata de concordar com as lições... Vale lembrar ainda que Sócrates, o Sócrates histórico, estava vivo, e seria plausível pensar que esta encenação posso de alguma forma tê-lo implicado ainda mais, nos episódios que conduzem à sua prisão, julgamento e condenação à morte; exatamente por desafiar à autoridade dos deus do Olimpo... "As Nuvens" também podem ter influenciado Lucrécio,  o precursor do ateísmo, que teria servido de influência para Espinosa, e que por sua vez influenciou a Jean Meslier, que daria o golpe de misericórdia, para que Nietzsche levasse a fama...

MAS A PEÇA TERMINA COM 'ESTREOPSÍADES' REUNINDO UMA MULTIDÃO PARA QUEIMAR A ESCOLA DE SÓCRATES, E CUIDANDO PARA QUE ELE ESTIVESSE DENTRO... 
E ASSIM FOI...

Carlos Sherman

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