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sexta-feira, 15 de março de 2013

Quero ser feliz racionalmente - e de fato... Explico:




Um amigo mandou mais uma vez por e-mail, esta velha fábula da auto-ajuda:


                                SER FELIZ OU TER RAZÃO ?  

                                Para reflexão... 
                                Oito da noite, numa avenida movimentada. O casal 
                                já está atrasado para jantar na casa de uns 
                                amigos. O endereço é novo e ela consultou no 
                                mapa antes de sair. Ele conduz o carro. Ela 
                                orienta e pede para que vire, na próxima rua, à 
                                esquerda. Ele tem certeza de que é à direita. 
                                Discutem. Percebendo que além de atrasados, 
                                poderiam ficar mal-humorados, ela deixa que ele 
                                decida. Ele vira à direita e percebe, então, que 
                                estava errado. Embora com dificuldade, admite 
                                que insistiu no caminho errado, enquanto faz o 
                                retorno. Ela sorri e diz que não há nenhum 
                                problema se chegarem alguns minutos atrasados. 
                                Mas ele ainda quer saber: - Se tinhas tanta 
                                certeza de que eu estava indo pelo caminho 
                                errado, devias ter insistido um pouco mais... E 
                                ela diz: - Entre ter razão e ser feliz, prefiro 
                                ser feliz. Estávamos à beira de uma discussão, 
                                se eu insistisse mais, teríamos estragado a 
                                noite!

                                MORAL DA HISTÓRIA:

                                Esta pequena história foi contada por uma 
                                empresária, durante uma palestra sobre 
                                simplicidade no mundo do trabalho. Ela usou a 
                                cena para ilustrar quanta energia nós gastamos 
                                apenas para demonstrar que temos razão, 
                                independentemente, de tê-la ou não.
                                 Desde que ouvi esta história, tenho me 
                                perguntado com mais freqüência: 'Quero ser feliz 
                                ou ter razão?' Outro pensamento parecido, diz o 
                                seguinte: 'Nunca se justifique. Os amigos não 
                                precisam e os inimigos não acreditam.
                                Passe este e-mail aos seus amigos, para ver se o 
                                mundo melhora... Eu já decidi.... EU QUERO SER 
                                FELIZ e você?


RESPONDI:

Eu quero ser feliz racionalmente - e de fato... 
Explico:

Boa noite.

Já conhecia a fábula, e trata-se de uma pérola da auto-ajuda, e como normalmente ocorre com este filão piegas e comercial, uma fábula cuja moral da estória mais uma vez não procede... Por que não? Poderíamos começar argumentando sobre as diferenças de temperamento, e sobre a impossibilidade de uniformizá-los, e disponho de um bom corpus de conhecimento Genético, Neurofisiológico e Psicológico, para sustentar esta realidade - se seguirmos por esta rota... Mas pondere sobre a gravidade dos problemas que poderiam advir de tal conduta, se ela fosse generalizada... Quantos problemas poderíamos amargar na vida, e isso envolve risco de vida, por simplesmente não insistir naquilo que é certo, bom e verdadeiro? Isso quando dispomos de boas razões para corroborar tal posição...

Um dos grande problemas da moral da estória na auto-ajuda, é considerar que todos somos iguais, em personalidade, e que todos queremos as mesmas coisas, e que consideramos a felicidade e a realização como sendo a mesmíssima coisa... Mas acontece que não é... Não é mesmo...

Além disso, a verdade não tem adjetivos, mesmo quando podemos estragar uma noite de diversão.. Já imaginou se a atitude da senhora em questão, tivesse culminado com os dois perdidos no meio de uma favela administrada por uma facção do PCC??? Em uma cidade como São Paulo perder-se pode até significar perder a vida... Isso apenas para mostrar o risco da falácia da 'generalização apressada', muito comum no lucrativo negócio da  auto-ajuda, e das estorinhas falsamente moralistas... Insisto muito em relação à isso, e em relação à lucidez...

Minha receita neste caso??? Muito simples, manter o diálogo, e ARGUMENTAR sem discutir... A estorinha enseja uma típica e corriqueira falácia retórica: a falsa dicotomia... Não existem apenas duas opções: anular a verdade ou discutir... Podemos insistir naquilo que é certo, sem discutir... E  considere a possibilidade do senhor estar certo, afinal o ‘Google’ pode indicar um caminho equivocado, ou até mesmo perigoso, ou demorado, e a senhora poderia estar realmente equivocada - apesar de calma... Nesta fábula ela não estava, mas analisar à posteriori é sempre muito mais fácil... Difícil é viver o processo... As pessoas devem insistir em seus argumentos, quando operam endereçando a verdade, sem no entanto deixar de ouvir, reconsiderar, e se necessário anuir...

Estranhamente, e apesar dos 50% de casualidade estatística, quem  cala neste caso é a mulher; seja para considerar a submissão, seja para sair-se melhor no final... De um lado a mulher que cala, do outro o homem truculento e pouco sábio... Depende... Existem mulheres afoitas e homens calmos, e vive-versa... Lembra a máxima cristã de que o homem é a cabeça, mais a mulher é o pescoço... Embora na realidade bíblica, a mulher tem mesmo é que calar, sempre - ou cortarão o seu pescoço, além de outras partes, como por exemplo o nariz e os seios...

O problema desta estória, ou um dentre muitos problemas, é que a moral da estória na verdade não enseja um ensinamento moral... Qual a moral desta estória? Recuse-se a seguir a razão? Recuse-se a confiar em seu conhecimento sobre rotas? Recuse-se a argumentar em favor de sentir-se bem? O único ponto positivo, mas que não pode ser extrapolado - Lato sensu -, e como está sendo tentado, é de que ‘dependendo da situação emocional - Stricto sensu -, pode ser inútil argumentar’... Mas ainda assim teremos um problema, a REALIDADE... Afinal precisamos ir a algum lugar, e normalmente os compromissos tem horários marcados; e afinal, como já pontuei, 'silenciar psicologicamente' pode conduzir a noite para um desenlace trágico... E mais, confrontar com respeito um ente querido, sempre servirá para que ele se desenvolva... 

A fábula opera a sua razão de ser, e o seu cerne moral, abusando de falácias retóricas e desvios de confirmação, muito típico do maniqueísmo da auto-ajuda... A falsa dicotomia profetiza que só existem duas possibilidades: discutir ou abdicar da razão... Ser feliz sem deixar o cérebro desligado está fora de questão... Amadurecer está fora de questão... Conjecturar sobre não discutir por besteiras, está fora de questão... Sendo a única saída possível, e para ser feliz, calar a razão...


Evidentemente não estou negando a possibilidade de ‘deixar pra lá’, em um momento ou outro psicológico, e por exemplo durante uma TPM, rsrsrsrsrs... A TPM é um estado bioquímico e neurofisiológico que transforma a mulher... Costumo aliviar na TPM, e ela já vai logo me avisando, ‘amor, estou na TPM’... E tenho os meus dias, e quem não tem??? Stress, problemas, tensão, e ela percebe que estou diferente, mas estas são questões particulares - Strico sensu -, e não podem ser generalizadas em uma lição moral - Lato sensu...

Mas o desfecho é trágico, piegas, ‘verborrágico’: "Entre ter razão e ser feliz, prefiro ser feliz."... Abdicar da lucidez e da racionalidade não faz ninguém verdadeiramente feliz... A menos que considere um bêbado mais feliz do que um sóbrio... E “Estávamos à beira de uma discussão, se eu insistisse mais, teríamos estragado a noite!” – estar ao lado de uma pessoa teimosa e desnecessariamente agressiva, isso sim estraga a noite... E terminar a noite assaltados ou mortos, isso sim estragaria ainda mais a noite, e a vida - e o exemplo não poderia ser mais pertinente... 


A verdade não tem adjetivos... E a boçalidade e a intransigência não merecem respeito... E a verdade sempre será o melhor caminho... Não consigo imaginar esta classe de relacionamento, onde uma parte, e que supostamente tem razão, deve calar-se diante do outro que teima e teima... E ainda ser feliz... E considerando ainda, e mais uma vez, que quem cala está deixando de ajudar ao outro, que poderia aprender...



A estorinha só funciona no mundo mágico da auto-ajuda... Pensei em calar este comentário, mas o faço com o maior respeito... Não quero estragar a noite, rsrsrsrs, mas só serei feliz fustigando a verdade, e só me sentirei feliz ajudando-os a encontra-la também; mesmo se não for compreendido... E para isso apresento argumentos, sem precisar discutir...
  
Beijos e abraços... Quando virão nos visitar em São Carlos???

Carlos Sherman


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