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quarta-feira, 1 de maio de 2013

Sobre Ciência e Colesterol



Um 'crente', visivelmente desconhecedor do conceito e do método científico, insistiu na vã tentativa de vilipendiar a atitude científica, como se 'Ciência' foi um grupo privado, um grêmio, disposto à conservação de dogmas à qualquer preço... O nosso amigo publicou a seguinte besteira:

"[...] vejam o caso do ovo, um,a hora a ciência diz que pode comer outra hora que não, se não entendem de ovo vão entender o MUNDO [grifo meu]"

Primeiramente, fazer Ciência é antes de tudo adotar uma atitude diante da vida, a nobre atitude de 'tornar-se ciente', de 'tomar ciência', e fazê-lo - fustigando a verdade e a justiça - pela prova, pela comprovação, por meio de evidência e fatos... O vigoroso e genial físico Richard Feynman - ganhador do Nobel - explica: "um princípio de pensamento científico corresponde a uma espécie de honestidade incondicional"... É esta honestidade incondicional ou ética, que reside no ceticismo científico, que confronta a vacuidade de crer... Isso porque as crenças se baseiam apenas na caprichosa, débil ou vã vontade de acreditar... Não se pode, de forma alguma, comparar as atitudes de 'tomar ciência ou tornar-se ciente' - endereçando a verdade -, com reconfirmar velhas ou novas convicções - crentes... Não se pode usar como desculpa a falibilidade assumida da ciência, para validar crenças... Uma verdade científica tem um prazo de validade e um universo de aplicação demarcado, assumidamente, e será sempre revisada, sendo esta a sua maior fortaleza - e não o contrário...

Não estamos desesperados para crer, podemos esperar para saber...

Praticar a atitude e os princípios científicos é análogo a explorar um território inexplorado - e não 'inexplorável', objeto da vacuidade metafísica agnóstica -; vamos avançando sobre as fronteiras, e estabelecendo novas fronteiras para o pensamento, superando paradigmas, e naturalmente encontrando novos obstáculos... No caso dos 'ovos', e stricto sensu, descobrimos primeiro o entupimento coronariano, e descobrimos a molécula causadora...

"O colesterol é um álcool policíclico de cadeia longa, usualmente considerado um esteroide, encontrado nas membranas celulares e transportado no plasma sanguíneo de todos os animais... É um componente essencial e indispensável para as membranas celulares dos mamíferos... O colesterol é o principal esterol sintetizado pelos animais, mas pequenas quantidades são também sintetizadas por outros eucariotas, como plantas e fungos... Não existe colesterol em nenhum produto de origem vegetal... Plantas apresentam um produto similar chamado de estigmaesterol, que não é absorvido pelo corpo humano..."

Sendo assim, o colesterol é importante para a nossa vida, e é sintetizado pelo nosso corpo através de nosso metabolismo... Mas esta mesma molécula estava diretamente relacionada com a obstrução de veias e artérias, e esta era a fronteira do conhecimento... Naturalmente colocamos - cientificamente - sub judice todos os alimentos de origem animal que contivessem elevados níveis de colesterol, e é aí que chegamos ao 'ovo'... E esta era a fronteira... O ovo passou a ser, entre outros alimentos, um dos suspeitos para ao entupimento de veias e artérias... E isso é tudo até esta fronteira...

A equipe brasileira de boxe, em meados do século passado, comia 18 ovos por dia - per capita - e não existe uma correlação entre tal feito e morte de boxeadores brasileiros com problemas cardíacos... Mas a atitude científica determina as fronteiras e a validez de seus feitos, o ovo entrou e saiu de cena em muitos congressos internacionais de cardiologia até a sua parcial absolvição... Isso porque a maior parte do colesterol presente no corpo é sintetizada pelo próprio corpo, e apenas 30% pode ser adquirido pela dieta...  Portanto, o colesterol realmente tem importância vital e mortal, mas o nível de colesterol no sangue não aumenta em relação direta com a quantidades de colesterol - pronto - absorvido em nossa dieta...

O fator 'genético', uma nova fronteira, também foi incorporado às pesquisas, demonstrando que a genética metabólica tem muita importância nesta conta entre colesterol absorvido, sintetizado pelo próprio corpo, e problemas coronarianos... Ainda assim, a hipercolesterolemia - ou elevado níveis de colesterol no sangue - continua associada às doenças cardiovasculares... Embora esta fronteira esteja continuamente sendo forçada adiante, e fustigada por aqueles que insistem em 'tornarem-se ciente', reformulando hipóteses, e buscam as necessárias provas, para avançar em direção à diminuição do sofrimento humano...

"O colesterol é insolúvel em água e, consequentemente, insolúvel no sangue... Para ser transportado através da corrente sanguínea ele liga-se a diversos tipos de lipoproteínas, partículas esféricas que tem sua superfície exterior composta principalmente por proteínas hidrossolúveis... Existem vários tipos de lipoproteínas, e elas são classificadas de acordo com a sua densidade... As duas principais lipoproteínas usadas para diagnóstico dos níveis de colesterol são:
lipoproteínas de baixa densidade (Low Density Lipoproteins ou LDL) e as lipoproteínas de alta densidade (High Density Lipoproteins ou HDL)..." Até o presente momento, e diante das fronteiras do conhecimento, dentro do vasto território da fisiologia humana, e mais especificamente do sistema circulatório humano, consideramos o LDL como uma classe de lipoproteína prejudicial ao homem, e em favor desta hipótese está a constatação de que o LDL contribui no transporte do colesterol do fígado até as células de vários outros tecidos... De acordo com a hipótese mais aceita, desenvolvida de Rudolf Virchow, consideramos que LDL pode contribuir para a formação de placas ateroscleróticas nos vasos sanguíneos... Por outro lado o HDL está relacionado à absorção de  cristais de colesterol, que começam a ser depositados nas paredes arteriais/veias, retardando o processo arterosclerótico - ou entupimento das artérias... 

Nada impede que novas fronteiras sejam transpostas, e seguramente serão, e esta, repito, não é uma debilidade da ciência e sim a sua maior fortaleza... Imaginem vocês se ainda considerássemos os dogmas bíblicos estabelecendo como causa para todo tipo de enfermidade, de uma virose à lepra, da epilepsia à dor de dente, como resultado de "possessão demoníaca"... E notem que o dogma, a atitude dogmática, não nos deixas saída, nem espaço para questionamentos e nem possível evolução... 'É assim, e assim é, e pronto', e se não estiver de acordo... bem, o inferno será o seu destino meu caro...

Finalmente, esperando que a questão 'científica' em relação ao 'ovo' e ao colesterol, esteja plenamente elucidada, passo à última palavra do enunciado que trato de refutar: MUNDO... A atitude científica, a nobre arte de tomar ciência, parafraseando Popper, pelo 'Método Dedutivo baseado em Prova', serve à todos os propósitos, e pode ser aplicada ao conhecimento do MUNDO, desde que esclareçamos primeiro de que se trata...

Para os povos iletrados do deserto, o MUNDO representava até onde os pés podiam alcançar... Os astrônomos e astrólogos da antiguidade referiam-se à mundo, considerando até onde a vista poderia alcançar... Mais tarde, quando entendemos que a fronteira era outra, e que residíamos em um planeta, passamos a considerá-lo o nosso mundo... Os astrólogos seguiram na mesma ladainha obscura e pouco honesta, mas os astrônomos compreenderam que o UNIVERSO não poderia estar comparado ao nosso 'mundinho', e a astronomia moderna não está debruçada sobre o entendimento 'do mundo' e sim do Universo, e se preferir, 'dos mundos'... Também nos referimos à Terra, ao Planeta Terra, como Terra mesmo, de forma que a palavra mundo parece um medíocre sinônimo, um legado nostálgico de nossos antepassados... 

Não obstante, já que o frescor e vigor da atitude científica está novamente salvaguardado, devo dizer que 'sim' meu caro, estamos fustigando as fronteiras do Universo, e já não consideramos tais fronteiras como limitada ao alcance dos olhos e muito menos dos pés... Não podemos pisar em Marte mas já 'pisamos' nossos artefatos por lá duas vezes, e fizemos o mesmo em Titã, uma lua de Saturno... Não estamos limitados aos nossos olhos, e vagamos pelo espaço com 'muitos olhos', que olham por nós, e com um alcance bem superior aos nossos frágeis, embora maravilhosos 'olhos'... Estamos em toda parte, com a Voyager, com o Hubble, com olhos que não deixam o Sol em paz por um só 'nanosegundo', com olhos que veem o que não vemos, em raio X, em raios gama, em infra-vermelho... 

Com vê meu caro, "quem nada sabe, em tudo crê" (Jan Neruda)...

Carlos Sherman

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