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terça-feira, 18 de março de 2014

Pai



Pai,

Quando Sócrates foi condenado à morte por suas reflexões filosóficas e por blasfemar contra os deuses de sua cidade - e cuja blasfêmia hoje se constituiu como mero fato mitológico -, ele escutou o veredito com resignação, e aceitou sua sentença de morte sem sobressaltos... Ele então disse algo como ‘bem, talvez ainda me seja concedida a fortuna de debater com grandes pensadores, filósofos e céticos, quem sabe após a minha morte, sobre o que seria realmente bom, belo, nobre, puro, ético, ou sobre o que seria ou não verdade'... Por que essa era, segundo Sócrates, e enquanto saia pela porta dos fundos de sua vida, a única conversa ou debate que realmente valeria a pena travar...

Não sei bem se o mundo que me sucederá, quando aquele brilho já não possa ser denotado em meu olhar, entenderá a premência de tais debates e questões; mas sei que Sócrates tinha toda a razão, e deixou uma marca indelével, enquanto, pelas minhas contas, saiu altivo pela porta da frente da História da Humanidade... O que eu sei, e bem sei, é que esta é a conversa e a reflexão mais importante com a qual devo me ocupar - enquanto ainda estou vivo... Nada pode ser mais importante do que tais questões... Nada - de fato - é!!!

A oferta da salvação deitada sobre alguns covardes, eleitos às custas do sofrimento de muitos mais; esta certeza cega de uma imortalidade fantasiosa, o apelo ao dogma da submissão, em um ato de fé deplorável e sinistro, uma fé que não pode ser sequer permeada pela verdade; toda esta liturgia de morte ao pensamento não seduz a minha integridade intelectual... Estas são oferendas e bênçãos que não valem a pena possuir...

Aceito os risco de pensar, insaciável, sedento por um saber que nunca será o bastante, ciente de que nunca terei aprendido o suficiente; faminto, e isso sim ad eternum, pela possibilidade de uma nova colheita de experiências e conhecimento, que ainda assim não poderá aplacar a minha curiosidade... Dirigindo-me a um lugar sempre mais claro, mas irremediavelmente sem fim...

Eu os exorto, homens de bem, a desconfiar daqueles que pretendem negociar vossa pretensa salvação cobrando vossa liberdade... Invocando a pulsão de morte apocalíptica, e mostrando o porrete, enquanto recitam versos caquéticos... A humanidade é tão jovem, somos tão jovens!!! Vocês não estão mortos ainda, a pulsão de vida vos atravessa... Eu os exorto a repudiar a repetição nauseante orientada para que capitulem de joelhos, e aceitando as crenças deles - todos eles...

Por que o desespero de crer se podemos esperar para saber??? Pelo bem comum, pelo bem da humanidade!!!

Desconfiem do apelo excessivo às tradições... É certo que algumas poucas pedras devem permanecer onde estão, mas não por amor às pedras, e sim pelo apreço que sentimos pelos homens... Horror maior não há, do que a sentença de que só poderemos viver se curvados à uma autoridade absoluta... 

Não pensem nisso como uma dádiva, este é genuinamente um cálice de cicuta... Afastem este cálice, tomem os riscos da liberdade de pensamento, afinal, só existe grandeza e humanidade neste ato... Orientem-se pela integridade intelectual... Só assim endereçaremos alguma verdade, e só assim produziremos alguma beleza, justiça, e bem comum...

Por certo enfrentarei desafios até os meus últimos instantes... E espero ainda, e em função das decisões que precisei tomar, que a vida não dure além da conta... Parafraseando Chico Anysio, posso dizer que não temo a morte, embora sinta um enorme pesar pela partida... Fica uma sensação de desperdício... E ainda mais quando os terços são recitados...

É verdade, meus amigos e detratores, este é  único assunto em que consigo pensar, o único que realmente me provoca tratar, o mais importante e urgente!!!

Pai, eu sei que passo a maior parte do meu tempo sozinho, poucos alcançam estas altitudes... Mas eu entendo o processo, e já me acostumei com a vertigem e a paisagem... Esta é minha sina, e ainda assim gosto de pensar que herdei o melhor de vocês em meus genes... Não é irônico?!?


      Carlos Sherman ‘Junior’ (Inspirado por Hitchens, Harris e Russell) 

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