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sexta-feira, 23 de maio de 2014

Pinóquio e o Relojoeiro Cego



Pinóquio e o Relojoeiro Cego
Dedicado a Clara Lafeta

Sucede que...

... em uma longínqua aldeia italiana, vivia um senhor, Gepeto, o melhor relojoeiro do mundo. Um dia, o velhinho construiu um boneco 'quase perfeito': - Serás o filho que não tive, e vou chamá-lo de Pinóquio.

Nessa noite uma Fada Madrinha visitou a oficina de Gepeto, e tocando Pinóquio com a varinha mágica disse: - Vou te dar vida, boneco. Mas deves ser sempre bom e verdadeiro!!!

No dia seguinte Gepeto descobriu que os seus desejos haviam se tornado realidade. Gepeto matriculou Pinóquio na escola, onde era acompanhado por ‘Pepe’ - um grilo-falante... Mas no caminho das aulas, encontraram a Dona Raposa e a Dona Gata, e Pinóquio foi aliciado por suas promessas, desvirtuando-se; e entre poucas e boas, amargou alguma punições, teve o seu  nariz aumentado, em razão das mentiras que contou, e recebeu orelhas e um rabo de ‘burro’ pelas besteiras que fez – e que ameaçavam caracterizá-lo em definitivo... Mas Pinóquio, ajudado pelo grilo-falante e ‘pensante’, vira a mesa e volta para o velho e bondoso ‘relojoeiro’... 

Ao chegarem em casa, descobriram que Gepeto havia se lançado ao mar em um bote, na esperança de recuperar Pinóquio. O grilo-falante-pensante - e agora engenheiro naval -, ajudou Pinóquio a construir uma jangada, e partiram atrás de Gepeto. Depois de dias em alto mar, foram engolidos por uma baleia e - adivinhem? - descobriram que Gepeto estava vivendo dentro da mesma baleia. O encontro foi emocionante, e Pinóquio pôde pedir perdão a Gepeto. Era hora de acender uma fogueira, no interior ‘úmido’, escuro, frio e supostamente fétido, do mamífero, quando a baleira, intoxicada pela fumaças ‘vomita-os’ para fora... 

- Perdoa-me papai – suplicou Pinóquio muito arrependido... E a partir de então, mostrou-se tão dedicado e bondoso que a Fada Madrinha, no dia do seu primeiro aniversário, o transformou num menino de carne e osso, num menino de verdade: - Agora tenho um filho verdadeiro!!! – exclamou contentíssimo Gepeto. E foram felizes para sempre... 

Presumo que um ‘menino de verdade’ inclua um ‘cérebro’... 

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Já não me recordo exatamente de quando ou onde, e por obra de quem, tomei impulso para a seguinte reflexão, que - há pelo menos duas décadas - faz parte dos meus aforismos prediletos: 
O transplante de Cérebro é o único onde o doador é o beneficiado...
Essa é a versão simplificada de Pinóquio que contei centenas de vezes para uma de minhas filhas – pois a segunda só chegou aos meus braços mais tarde, e foi adotada já com 10 anos... ‘As Aventuras de Pinóquio’ – ou ‘Pinocchio’, como no original italiano, em dialeto toscano - foi publicado em 1883, e foi escrito por Carlo Collodi. A ingênua fábula, no entanto, remonta ao moralismo e à figuração bíblica, entre outros debates ‘teológico-filosóficos’...

O ‘sopro de vida’ ou alma, da qual o boneco de madeira é dotado, remete ao conceito que o filósofo britânico Gilbert Ryle (1900-1976) cunharia mais tarde como ‘O Fantasma da Máquina’. Também notamos em Pinóquio, o debate do argumento teleológico de Paley - sendo ‘Gepeto’ o ‘Melhor Relojoeiro do Mundo’... 
"O mundo me intriga. Não posso imaginar que este relógio exista e não haja relojoeiro." - William Paley (1743-1805)
Tal sentença defendia a ideia simplista e falaciosa de que "se um relógio demanda um relojoeiro, uma mesa demanda um carpinteiro, e uma casa demanda um pedreiro, então, logo – e mais do que depressa - o homem também demandaria um criador"... Trata-se do argumento ‘teleológico’; simplista, como dissemos, engenhoso – embora ingênuo -, mas claramente falacioso! Uma contradição em si. 

Trata-se de uma falsa analogia de natureza meramente estética arbitrária; afinal, existem milhões de exemplos, que precisam vir do mundo biológico, animado, e não de relógios, mesas e casas, que podem demonstrar o caráter evolutivo - e ‘não-construtivo’ ou demarcatório - dos fenômenos que originam os seres vivos e a vida. Isso, além da contra-argumentação de que 'um criador não-criado' é uma ideia pelo menos tão arbitrária quanto a ideia de 'um universo sem criador’. 

Constitui-se, ainda, e é claro, de uma contradição em si - um ‘reductio ad absurdum’ [uma redução ao absurdo]... Isso porque, decompondo o ‘truque’ do enunciado, temos que a primeira premissa pode ser resumida em ‘tudo requer um criador’... E sendo assim, ‘deus’, se existe, também estaria sujeito à esta premissa; requerendo, evidentemente, um criador para ser criado. 

A isso a crendice galopante respondeu com mais ‘truques’ e o argumento ‘ontológico’, i,e.: "deus, por ser o único ser perfeito, não precisaria ser criado"... Mais uma vez o mero exercício estético, verborrágico, e arbitrário. 

Richard Dawkins respondeu à questão ‘teleológica’ em seu livro ‘O Relojoeiro Cego’ (1986), e em sua homenagem, este tema será tratado no capítulo ‘Stupid Design - O Relojoeiro Cego’... 

Paley baseou-se em Platão e Aristóteles, baluartes de grandes equívocos, e cujos ‘erros’ foram batizados e crismados pela teologia cristã de Agostinho a Aquino... Tudo isso também será abordado e esclarecido neste livro... O 'Argumento Ontológico' assim como o dito 'Argumento Cosmológico Kalam' também serão devidamente refutados...

Mas Pinóquio também invoca o proselitismo bíblico: temos ‘a queda’ do boneco de pau, a ‘volta do filho pródigo’ e arrependido, temos o ‘maniqueísmo’, a contenda entre o bem e o mal, e temos finalmente um ‘criador’ bondoso que é traído em sua ingênua confiança. Temos o ‘espírito santo’ na figura da Fada, e um anjo da guarda super inteligente - meio McGyver: o ‘grilo-falante’. Temos até um ‘burro falante’ e uma variante do episódio de ‘Jonas e a baleia’...

Se tudo requer um criador, temos uma regressão ao infinito, pois o criador de tudo também precisará de um criador... Se, arbitrariamente recusarmos a regressão, então comprometemos a primeira premissa de que "tudo requer um criador", e recaímos em um absurdo... Melhor mesmo seria evitar o constrangimento de demonstrar tanto despreparo na frente das crianças. Por que não nos atemos à estorinha de Pinóquio, que, bem ou mal, ainda é menos fantasiosa do que o deus judaico-cristão-islâmico... 

Basta que não invoquemos seres perfeitos, posto que não existem, nem fantasiemos sobre felicidades constantes, uniformes, e que jamais se estinguem... Não importa se foram 'felizes para sempre', importa ainda mais que tenham vivido uma vida digna, útil, e constituído algum legado, a ser aproveitado por outros humanos imperfeitos que virão depois que nos formos - aí sim - 'para sempre'...

Não existem almas boas ou más, e sim sistemas neurais complexos e maravilhosamente imperfeito... Não existe criador nem criatura, e fazemos parte da vida, humildemente... A vastidão do cosmos não foi um presente para nós, para a capacidade de entendê-lo certamente é motivo de muito orgulho - para muitos...

Acredite também em sua capacidade de entender o Universo, a Vida, e o Comportamento Humano... Em 2.000.000 de anos a seleção natural cega e amoral, trouxe o cérebro do Homo Habilis, pesando cerca de 650 gramas, ao cérebro do Homo Sapiens, com 1,5 quilos - o nosso cérebro... Nessa jornada, onde quase triplicamos a relação entre cérebro e massa corporal, o que se viu foi um incremento da estrutura conhecida por Lobo Frontal... Um simulador da realidade...

Com os nossos Lobos Frontais ainda inacabados - e sempre estaremos nesta condição -, somos capazes de simular a felicidade, a infelicidade, de compor música e poesia, de produzir arte, de catapultar a engenhosidade, mas também de abstrair sobre a continuidade da vida, sobre deuses, demônios, conjurando ilusões, delírios, alucinações, em meio à exatidão e o conhecimento consistente...

Assim somos nós, humanos, troppo umanos... Melhores, muito melhores, do que os deuses que algum dia, imersos em escuridão e dúvida, fomos obrigado a imaginar... 

Carlos Sherman

Um comentário:

  1. Se a bíblia contasse a estória da criação humana a partir da madeira, como no caso do Pinóquio, teria mais lógica, visto que, a madeira é matéria orgânica. Já, o barro...

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