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quinta-feira, 15 de maio de 2014

Sobre ignorância, varíola e clorofórmio...



Excerto do meu livro 'EVA - AS ORIGENS DA MISOGINIA':

[...]

O slogan da ‘intolerância religiosa’ está entranhado na questão acima, sendo outra falaciosa contenciosa, e que trabalha contra o Direito à Vida, preservando ‘o direito à opressão’, ‘o direito à ignorância’ e finalmente o ‘direito ao estelionato’ [sic]; servindo como muralhas que impedem e represam a mudança. Parâmetros objetivos como a ‘expectativa de vida’, ‘mortalidade infantil’, ‘violência’, ‘fome’, não podem ser ‘soterrados’ pela subjetividade do solipsismo crente, sob pena de involução.

As velhas crenças teológicas, quando pareciam debilitadas pela ‘razão’, em pleno século XVIII, reapareciam sempre que uma possibilidade ‘sobrenatural’ se acercava. A varíola foi uma destas oportunidades para a ignorância religiosa desfilar o ‘círio’, e desatando uma tempestade de protestos teológicos contra a ‘razão’. Um clérigo anglicano publicou um sermão onde afirmava que, assim como “as pústulas de Jó eram devidas à inoculação do diabo, assim havia sucedido com a crescente epidemia de varíola”. 

Vários ‘ministros’ eclesiásticos escoceses publicaram manifestos contra a Ciência Médica, e em especial contra a recente descoberta da circulação sanguínea, os estudos de anatomia, fisiologia etc. – assim como o estudo de ‘células-tronco’ em nossos dias; afirmando que estávamos “tratando de desafiar o julgamento de deus” – sobre quem está listado ou não para morrer HOJE. Mas a varíola responderia a toda esta carolice com mais e mais mortes. Quanto mais oravam e praguejavam contra a Ciência, mais mortos. Os terrores teológicos foram acalmados pelo terror imposto pela ‘realidade da morte’.

A controvérsia parecia declinar, quando foi descoberta a VACINA. Os ‘clérigos’ de todas as facções da cristandade afirmavam em uníssono que: 

“[a vacina era um] insolente desafio aos céus, e à VONTADE DE DEUS.”

Em Cambridge e na Sorbonne, universitários cristãos unidos, pronunciaram sermões, opondo-se à VACINA. O mais grave sucedeu quando, em 1885, e já no século XIX, houve um disparo no número de casos da doença em Montreal, Canadá, e a parte católica da população repudiou a vacinação. Um sacerdote católico declarou que:

“Se estamos afligidos pela varíola é por que comemoramos o carnaval no último inverno, festejando a carne e ofendendo ao Senhor.”

As mortes vieram sem trégua sobre os católicos; e ‘deus’, por alguma misteriosa razão, pouparia apenas àqueles que foram ‘vacinados’.

“Os Padres Oblatos, cuja igreja estava situada no coração do distrito infestado, seguiram denunciando a vacina; foi exortado aos fiéis para que se dedicassem a diversos tipos de devoção; com a permissão das autoridades eclesiásticas, foi ordenada uma grande procissão com um solene chamamento à Virgem, e foi cuidadosamente especificado o uso do rosário.” (White; op. cit., v.II, p.60)

Pobres fiéis, todos aniquilados pela varíola! O mesmo sucederia com o advento da descoberta dos efeitos anestésicos do clorofórmio pelo médico escocês Sir James Young Simpson (1811—1870). Simpson, em 1847, recomendou o uso no parto, ao que o clero lhe respondeu com Gênesis [3:16]:

“E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.” - Gênesis 3:16

Simpson, no entanto, logrou aprovar os anestésicos para os homens, salientando que ‘deus’ anestesiou Adão, “adormecendo-o, antes de extrair sua costela”.
Sim, precisamos abolir tudo isso, o corão, a torá, o velho e o novo testamento, a RELIGIÃO, para vivermos melhor, com mais saúde, paz, e em ‘verdadeira harmonia’. E não seremos capazes da fazê-lo se não pudermos entender e combater o primeiro fundamento contido em tais livros, i.e., o ‘enaltecimento da ignorância’ pelo repúdio à razão e ao entendimento, ao conhecimento REAL, factual, Científico. E a subsequente ‘glorificação da submissão’, da servidão, do conceito de ‘manada’.

Não seremos capazes de abolir tais livros se não pudermos entender ‘antes’ a clara sentença de morte à consciência e àqueles que a conservam: os ‘hereges’. E não poderemos dar este passo, se não pudermos constatar também o preconceito, o sectarismo, o racismo, a pulsão de MORTE, e o regozijo pela morte, contido em tais mensagens apologéticas.

Precisaremos confrontar os dogmas de tais sociedades extremamente preconceituosas, estratificadas, eliminando o aspecto 'pecaminoso' de escolher não se casar, e de viver como pretendemos; eliminando a figura absurda do dote, e enaltecendo a figura do afeto entre parceiros, entre casais. Esta não é a supremacia de uma cultura sobre a outra, senão a supremacia da liberdade à vida sobre a opressão. Precisamos enaltecer o valor PENSAMENTO repudiando o culto à SUBMISSÃO.

[...]

Carlos Sherman

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