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sexta-feira, 6 de junho de 2014

Sobre "psicotapas", 'psicoações'... e falácias retóricas...

É muita incompetência precisar 'bater' em um filho para controlar os seus impulsos e quereres... - Carlos Sherman


Um amigo publicou a 'charge' com a mensagem falaciosa acima, e acompanhada dos seguintes dizeres:

"Posso não agradar a todos, mas um Psicotapa, bem dado na hora certa nunca matou ninguém. Melhor uma palmada dos pais do que ser espancado depois na Fundação Casa (acho que exagerei, mas é isso mesmo)."

OBJETEI:

Existem 'psicoações' bem mais produtivas... Minhas filhas - uma biológica e outra adotada - não foram agredidas nem com a famigerada 'palmada'; e isso não carimbou suas fichas de entrada na Fundação Casa... É uma questão de método e competência, e afinal, na hora de controlar uma criança 'quem não os adultos?'... 

Prezado amigo, não vejo como um "psicotapa" pode ajudar, mas bem sei como pode atrapalhar... Na presença dos genes certos (MAOA), uma boa parcela da população mundial tratará de refletir a violência recebida... E o 'psicotapa', na prática, também é aplicado em bebês... Beliscões, tapas, palmadas, aplicadas em delicados e indefesos bebês, podem trazer consequências, e contribuir com mais violência... Crianças castigadas e sujeitas a agressão - qualquer uma -, normalmente desenvolvem o 'desafio'; e quando respeitadas e 'dribladas', conseguem desenvolver maior empatia e respeito recíproco... 

Generalizar a não-violência contra crianças é uma medida positiva, e que culminará com pais mais dedicados e espertos na hora de 'dar um jeito na situação'... Não podemos deixar à mercê de uns e de outros sobre a 'intensidade' do "psicotapa" - e também podemos estar lidando com 'psicopatas' e afins... O processo civilizatório, pacificador - leiam Nolbert Elias e Pinker -, clama, no Terceiro Milênio, por esta restrição... E por que bater em seu 'bebê', em seu 'filhote', em seu filhinho? Por quê?

Aguente, a manha e os gritos fazem parte dos parcos recursos sociais de uma criança... A pirraça e a dramatização, independentemente do método adotado na educação, continuarão a servir como recurso em uma fase da vida - e vem direto dos genes que você transmitiu ao 'Júnior'... 

Finalmente o argumento relacionando não aplicar o "psicotapa em casa" para ser "espancado na Fundação Casa", constitui flagrante falácia retórica... Trata-se da Negação do Antecedente: esta é outra das falácias que tem origem em má interpretação de princípios lógicos simples. Portanto, é outra das falácias formais. Veja o formato geral: 

Se P então Q 
Não Ocorreu P 
Então Não Ocorreu Q 

ERRADO! Construção lógica falaciosa:
"Se você adubar sua horta, ela ficará viçosa. Você não adubou sua horta, portanto ela não ficará viçosa." 
Posso ter plantado em terra boa, trabalho com melhores técnicas, ou um cavalo pode ter "defecado" em cima de minha horta, etc...

Essa falácia ocorre quando se tenta construir um argumento condicional que não está nem do modus ponens (afirmação do antecedente) nem do modus tollens (negação do consequente)... 

Nega-se o antecedente e depois nega-se o consequente.... Este caso constitui uma sutil variante, do tipo: "Se espancam na Fundação Casa para 'endireitar', logo não espancar em casa provocará o 'defeito'... Que será o passaporte de entrada na Fundação Casa, para que o 'serviço' seja feito..."... Dito de outra forma, "se espancarmos em casa não precisaremos sequer da Fundação Casa"...Se "adubarmos" tudo dará certo, caso contrário "só mesmo a Fundação Casa"... 

Várias falácias em uma só, porque a Fundação Casa não serve de exemplo pra nada, porque não existe nenhuma correlação científica de 'palmadas' ou 'porradas' com a boa educação, e muito menos como medida preventiva para a criminalidade... Zero!!!

Além do que, TODOS aqueles que ingressaram na Fundação Casa levaram muita PORRADA em casa... Sem sucesso!!!! 

Prezado amigo, prezados, reflitam sobre este tema, e consultem os mais recentes estudos sobre o comportamento humano... E sobre a "tradição da palmada", aplicada pelos pais de nossos pais, recordo a todos que a paternidade envolvia certa questão 'estatísticas'... 15, 10, 6 filhos... Hoje podemos particularizar a educação, e obter melhores resultados...

Entendo que algumas 'pedras angulares' da tradição devam ser preservadas - poucas... Mas não por devoção às pedras e sim pelo amor aos homens... 

Carlos Sherman


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