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terça-feira, 12 de agosto de 2014

Ebola - uma discussão ética e trágica sobre o direito à ignorância...



Ébola - uma discussão ética e trágica sobre o direito à ignorância...

Entidades religiosas discutem junto à OMS [Organização Mundial de Saúde] sobre a utilização de medicamentos experimentais para conter o avanço na epidemia do ébola na África - o continente mais crente do planeta... Não estamos discutindo, por outro lado, a prescrição da fé - devidamente remunerada - como medida curativa; onde deuses ou um deus em especial estariam intercedendo especificamente em favor de seus fiéis seguidores, abraçando ritos religiosos, seja desta ou daquela facção religiosa, e pagando respectivamente pelo serviço prestado na forma de dízimo - seja ele pseudo-voluntário ou não...

Esforços em saúde públicas, gratuitos, como medidas desesperadas, procuram, em meio à dor, salvar a vida daqueles que foram esquecidos por deus, ou não pagaram por seus serviços - seja por meio da submissão tácita e política, seja por meio do aporte de seus parcos recursos financeiros -, apesar de toda a idolatria... Tais esforços da ciência médica são tratados em seu escrutínio ético, enquanto práticas xamãnicas, não importando se os seus curandeiros portam ou não crucifixos, passeiam em liberdade "pelos campos do senhor" - pelos campos da morte...

A OMS resiste, alegando que a decisão é 'sim' ética, quando contrastada com o tamanho da tragédia, e em relação à força de seu avanço... Mais de mil pessoas morreram, esquecidas por deus, apenas no último e recente capítulo da epidemia... Medicamentos experimentais estão sendo testados na Libéria - onde segundo o censo de 2008, promovido pela CIA World Factbook, 85,6 % da população se declara cristã, 12,2% diz ser muçulmana, 0,6% seguem religiões tradicionais, 0,2% praticam outras religiões, e apenas 1,4% declaram não possuir religião -, um dos países mais afetados pelo surto... Tal medida desesperada é deflagrada em meio à protestos por parte das hostes religiosas; a vida e a morte deste povo parece resumir um negócio, o negócio da fé...

A droga que está sendo testada, é a mesma que foi utilizada para o tratamento bem sucedido de dois cidadãos americanos integrantes de missões humanitárias e que contraíram o vírus... Ironicamente - e darwinisticamente -, o medicamento que está salvando as vidas que deus condenou só havia sido testado em macacos... O medicamento foi utilizado também para tratar um padre católico espanhol, que infelizmente faleceu no dia de hoje (12/08/2014), não resistindo ao ataque do vírus, e em função de haver hesitado por tempo demais até decidir-se por recorrer à Ciência Médica - que a televisão espanhola (TVE) chamou de "soro milagroso"...

Não posso perder a oportunidade de lembrar que o ébola tem no morcego o seu reservatório natural, lembrando ainda - e darwinisticamente - que o morcego, apesar de dispor de um completo sistema ótico, faz pouco ou nenhum uso do mesmo, estando adaptado a viver na mais completa escuridão... Paradoxalmente deus desenhou olhos para não serem usados - por ocasião da evolução; e ainda mais paradoxalmente está o fato de ambos, morcegos e crentes, viverem imersos em uma escuridão, cujo mote seria, segundo a crendice vigente, o desejo deste mesmo deus...

Insistindo um pouco mais sobre a força mortal da tradição quando entorpece a razão, o ebola é transmitido comumente por meio de ritos funerários e práticas gastronômicas, descompassadas com a ciência sanitária e de higiene... Deus, se existe, tem mesmo muito o que explicar, e seus planos parecem asseveradamente esdrúxulos; com destaque para o inescapável fato de que 'ele' teima em fingir não existir...

Carlos Sherman 


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