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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

SENTIMENTOS QUE CURAM


SENTIMENTOS QUE CURAM
(versão "beta", sem revisão)

No Terceiro Milênio, e no último Natal, 132 crianças californianas ainda estreavam seus presentes quando foram diagnosticadas com sarampo – porque visitaram a Disneyland ou porque estiveram em contato com alguém que fez o passeio... O vírus também passou pela imigração adentrando o Canadá, onde mais de 100 crianças foram diagnosticadas somente em Quebec. Mas o mais trágico  neste preâmbulo, é que o sarampo, capaz de matar uma criança debilitada, pode ser combatido de forma simples e eficaz. Basta uma pitada de Ciência, na forma de uma vacina, disponível há mais de meio século, para manter seguras as nossas crianças contra o sarampo.

Mas porque crianças americanas e canadenses não foram vacinadas contra o sarampo? Não amamos nossos filhos? Por que seus pais seguiram crendices e foram embalados pelo medo ignóbil? Entre outros fantasmas do imaginário popular, o vilão neste caso foi o medo de que “contraíssem” o autismo ao serem vacinadas. No funesto caso, a crendice nasceria de um artigo pseudocientífico  polêmico e inflamado, mas extensamente desmentido, retratado, e reconhecido como uma fraude deliberada pelo ‘British Medical Journal’...

Em 1998, o cirurgião inglês, Dr. Andrew Wakefield, e seus colegas, publicaram um estudo na conceituada revista médica  ‘The Lancet’, relatando 12 casos de crianças com autismo, e relacionando os casos de 8 delas com sintomas iniciados uma ou duas semanas após a aplicação da vacina tríplice viral – contra o sarampo, caxumba e rubéola.  O estudo de Wakefield era falho na medida em que não estudou a incidência de autismo em centenas e milhares de crianças que tinham ou não recebido a vacina tríplice viral – uma comum ignorância do tipo “estatística”, além de uma inegável tendência à crendice, e a argumentos do tipo Post hoc ergo propter hoc (ou falácia da correlação coincidente; a ideia de que dois eventos que ocorram em sequência cronológica estão necessariamente interligados através de uma relação de causa e efeito – depois disso por causa disso...).

Em 2010, o Conselho de Medicina Britânico considerou que Wakefield agiu de maneira antiética e desonesta ao vincular a vacina tríplice ao autismo; ainda de acordo com o Conselho, a sua conduta trouxe má reputação à profissão médica depois que Andrew coletou amostras de sangue de jovens na festa de aniversário de seu filho, pagando-lhes £5 por picada...

“[...] conduta desonesta e irresponsável [...] notório desprezo à vida.”

Assim o sarampo ressurgiria no Reino Unido e em vários países do mundo civilizado... Devido à ignorância, muitos pais deixaram de vacinar seus filhos, e as taxas de vacinação nunca mais voltaram a subir, e os surtos da doença tornaram-se mais frequentes depois da publicação do criminoso artigo – já que Andrew falsificou resultados, interessado apenas em promover o negócio de sua vacina tríplice “alternativa”. Wakefield hoje é ex-cirurgião e ex-médico... no Reino Unido.

A denúncia da fraude viria, finalmente, com uma matéria publicada pelo jornalista Britânico Brian Deer; mas não seria tão simples assim, afinal Deer também seria acusado de interesses escusos, e “envolvimento com os interesses das empresas farmacêuticas multinacionais, na tentativa de desacreditar a pesquisa”... Um pouco de conspiracionismo, ou “piração coletiva”, e a crendice estaria alastrada...

Diversos estudos seriam realizados em todos os continentes, demonstrando cabalmente que a vacina tríplice viral não causa autismo... e nada pode além de salvar vidas... Haveria uma horda retrações públicas, outros pesquisadores retiraram seus nomes do estudo, e a revista ‘The Lancet’ faria a sua retração formal na edição de fevereiro de 2010. Mas o estrago estava feito, e a mentira subsiste, por força da tendência humana de “crer na crença”, até os nossos dias...

Uma pitada de conhecimento ou scientia e estaremos livres de engodos e delírios, como no caso do autismo causado por vacinação... E, imediatamente, a figura do consagrado padre e santo católico “de culto irrestrito”, que viveu no século II, tendo influenciado os “doctores” Orígenes de Alexandria e Santo Agostinho, me vem à mente:

“Credo quia absurdum/ Creio porque é absurdo...”

Trata-se da paráfrase de uma dentre muitas sentenças da obra deste apologeta, intitulada ‘De Carne Christi’:

“[...] prorsus est credibile, quia ineptum est [...] / [...] se crê precisamente, porque é absurdo [...]" – Tertuliano de Cartago

Propondo exatamente que os dogmas cristãos devem estar apoiados, com ainda maior fervor e convicção, quando mais absurdas as teses nos pareçam... O que não passa de um convite à insanidade... Mas velhas crenças teológicas, quando pareciam debilitadas pela razão, reapareceriam em pleno século XVIII, ou sempre que uma possibilidade “sobrenatural” se acercava. A varíola foi uma destas oportunidades para a ignorância religiosa desfilar o “círio”, e desatando uma tempestade de protestos teológicos contra a ‘razão’.

Um clérigo anglicano publicou um sermão onde afirmava que, assim como “as pústulas de Jó eram devidas à inoculação do diabo, assim havia sucedido com a crescente epidemia de varíola”. Vários “ministros” eclesiásticos escoceses publicaram manifestos contra a Ciência Médica, e em especial contra a recente descoberta da circulação sanguínea, os estudos de anatomia, fisiologia, etc. – assim como o estudo de ‘células-tronco’ em nossos dias; afirmando que estávamos “tratando de desafiar o julgamento de deus” – sobre quem deve ou não deve morrer. Mas a varíola responderia a toda esta carolice com mais e mais mortes. Quanto mais oravam e praguejavam contra a Ciência, mais mortos. Os terrores teológicos foram acalmados pelo terror imposto pela realidade da morte.

A controvérsia parecia declinar, quando foi descoberta a VACINA. Os “clérigos” de todas as facções da cristandade afirmavam em uníssono que:

“[a vacina era um] insolente desafio aos céus, e à VONTADE DE DEUS.”

Em Cambridge e na Sorbonne, universitários cristãos unidos pronunciaram sermões opondo-se à VACINA. O mais grave sucedeu quando, em 1885, e já no século XIX, houve um disparo no número de casos da doença em Montreal, Canadá, e a parte católica da população repudiou a vacinação. Um sacerdote católico declarou que:

“Se estamos afligidos pela varíola é por que comemoramos o carnaval no último inverno, festejando a carne e ofendendo ao Senhor.”
 
As mortes vieram sem trégua sobre os católicos, e “deus”, por alguma misteriosa razão, pouparia apenas àqueles que foram vacinados.

“Os Padres Oblatos, cuja igreja estava situada no coração do distrito infestado, seguiram denunciando a vacina; foi exortado aos fiéis para que se dedicassem a diversos tipos de devoção; com a permissão das autoridades eclesiásticas, foi ordenada uma grande procissão com um solene chamamento à Virgem, e foi cuidadosamente especificado o uso do rosário.” (White; op. cit., v.II, p.60)

Pobres fiéis, todos aniquilados pela varíola! O mesmo sucederia com o advento da descoberta dos afeitos anestésicos do clorofórmio pelo médico escocês Sir James Young Simpson (1811—1870). Simpson, em 1847, recomendou o uso no parto, ao que o clero lhe respondeu com Gênesis [3:16]:

“E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.” - Gênesis 3:16

Simpson, no entanto, logrou aprovar os anestésicos para os homens, salientando que “deus” havia – ele próprio - anestesiado Adão, “adormecendo-o, antes de extrair sua costela”.

Sim, precisamos abolir tudo isso, o Corão, a Torá, o velho e o novo testamento, a RELIGIÃO, para vivermos melhor, com mais saúde, paz, e em verdadeira harmonia. E não seremos capazes de fazê-lo se não pudermos entender e combater o primeiro fundamento contido em tais livros; i.e., o enaltecimento da ignorância pelo repúdio à razão e ao entendimento, ao conhecimento REAL, factual, Científico - e a subsequente glorificação da submissão, da servidão, do conceito de manada.
Não seremos capazes de abolir tais livros se não pudermos entender antes a clara sentença de morte à consciência, e àqueles que a conservam: os “hereges”. E não poderemos dar este passo, se não pudermos constatar também o preconceito, o sectarismo, o racismo, a pulsão de MORTE, e o regozijo pela morte, contido em tais mensagens apologéticas.

Em 1904, na cidade do Rio de Janeiro, diante de uma epidemia de varíola, o médico sanitarista Osvaldo Cruz liderou uma campanha pela vacinação, que viria assim a tornar-se obrigatória. Como relata a História, uma ampla reação na forma de desobediência civil e violência, seria orquestrada por setores conservadores e religiosos, sendo o movimento conhecido por “A Revolta da Vacina”... Não obstante isso, passado pouco tempo, e muitos mortos depois, as pessoas passariam à buscar a vacinação voluntariamente.

Como bem relatado pelo jornalista Simon Singh, os “gurus homeopatas”, a despeito de sua risível terapia, podem oferecer aconselhamento claramente nocivo à saúde. Quando questionados por Singh sobre a imunização de crianças com a vacina tríplice, “de 168 homeopatas consultados, apenas 75 responderam, mas apenas dois indicaram a vacinação” – estando os demais ocupados em seu comércio [nota minha]. “É evidente que a enorme maioria dos homeopatas não encoraja a imunização”, ressaltou o jornalista. Seria cômico se não fosse tétrico...

As farmácias que produzem e vendem produtos homeopáticos não são iniciativas corajosas, assim como Wakefiled, “contra as grandes indústrias farmacêuticas”; e ao contrário, a indústria homeopática está mais do que feliz em lucrar com aquilo que não possui efeito algum, e que reconhecidamente não possui qualquer substância ativa – muitas vezes abaixo da constante de Avogadro... A dita “medicina alternativa” pode ser uma forma “alternativa” de viver, mas certamente não se trata de Medicina... nada além de uma forma “alternativa” de lucrar com a vã esperança produzida pelo desespero.

O que torna a questão ainda mais revoltante, é que tais doentes poderiam encontrar esperanças concretas na Ciência Médica, e não o fazem... Prevalecem interesses comerciais, onde até mesmo os planos médicos apresentam cobertura. Um terrível e criminoso ato de negligência, desde a demonização da vacinação - um dos mais poderosos recursos médicos para controlar e erradicar doenças epidêmicas -, até casos como o de Daniel Hauser - felizmente curado do câncer pela medicina -, ou o de Gloria Sam - infelizmente morta através da homeopatia.

Quando assisto à iniciativa de médicos belgas em promover anualmente o “Dia do Suicídio Homeopático”, onde doses “cavalares” de formulações homeopáticas são ingeridas na tentativa vã de consagrar ao menos “um morto”; reflito que a questão não é nada cômica. Daniel Hauser contava apenas 13 anos, quando um “Linfoma de Hodgkin” foi diagnosticado. O menino foi submetido à quimioterapia, mas, contrariado com os notórios efeitos colaterais, e por decisão de sua mãe, alegou que gostaria de seguir uma “terapia alternativa”.

Por “alternativo”, a crendice popular vigente considera tudo aquilo que não esteja baseado na “medicina convencional” – onde convencional claramente corresponde a “atrasada”... Junte-se a isso um mantra de terminologias difusas e sedutoras como “holístico”, “nativo”, “natural”, “equilíbrio”, “harmonia”, “intuição”, “energia”, “forças ocultas”, “forças misteriosas”, “forças invisíveis”, “esotéricas”, “espirituais” etc., e blá blá blá blá blá... e assim está conformada a lambança. O caso de Daniel, a “alternativa” vinha da devoção cega de sua mãe pelo “tratamento médico holístico com base em práticas de cura do nativo americano chamado Nemenhah – A Voz da Razão e do Espírito dos Índios Americanos”... Sedutor, e cobrando USD 250 ao mês, mais extras de USD 100... por “proteção espiritual”...

Mas o que diz e pensa o “povo de Nemenhah”?

"Nós acreditamos na sabedoria do Criador. Esta sabedoria, juntamente com os dons da nossa cultura, nossos costumes, nossas tradições e nossas crenças, como eles são expressos nas declarações sagradas e performances do Caminho de Cura Sagrada Sahaptan, e estão presentes e foram dados a nós pelo Criador, através de Wyaykihn, e eles não podem nem ser dados nem levados por outras pessoas, povos, nações ou governos [...]" (‘Constituição Nemenhah’; Artigo Terceiro; 2014)

Mas este devaneio absurdo cresce a cada parágrafo...

“Nós acreditamos em milagres; tais como curas, profecias, visões, Wyaykihn (revelações pessoais e visitas espirituais), o falar em línguas, a interpretação de línguas, a tradução de línguas antigas, e assim por diante; e que é o direito de todas as pessoas em curar e serem curadas, sem restrições de qualquer governo terreno para a Medicina Natural, e modalidades naturais de cura, dons do Criador [...].” (‘Constituição Nemenhah; Artigo Décimo; 2014)

Trata-se basicamente de um delírio sincrético entre a sedução do “bom selvagem” com o “bom cristão” – duas flagrantes besteiras, já que a Bíblia nada versa sobre o “bom comportamento”, e quanto mais selvagem ou primitivo mais violento um povo será, contrariando os devaneios rousseaulianos fundados sobre uma leitura equivocada de Locke, e pelo confronto filosófico com Hobbes ...  Tal sincretismo conflui e desagua em relatos como este:

“Nós nos sentamos na escuridão quente, húmida [...] para saber por que o seu câncer de mama continuava a se espalhar, apesar de ‘fazer tudo certo’. [...] Ela praticava yoga, membros de sua igreja oraram por ela regularmente, ela tinha o mais famoso oncologista em sua região, e as mais recentes terapias. Ela fez acupuntura regularmente, recebeu vitaminas intravenosas, teve massagens de cura, e comeu uma dieta ‘vegan’. No entanto, o câncer continuou a se espalhar. Tínhamos viajado para Dakota do Sul para visitar um curandeiro nativo americano. Eu estava fazendo minha peregrinação regular, e Barb tinha pedido para se juntar a mim. Ela pensou: ‘um curandeiro tradicional pode ser capaz de mudar as coisas para mim’. [...] a porta se abriu e o vapor foi derramado. Nos esfriou enquanto a água fez sua passagem lenta, ao redor do círculo montado. Sonny falou em voz baixa o suficiente para que todos ouvissem: ‘Nariz Grande diz para perguntar-lhe o que não mudou?’, disse ele. ‘Ele não se importa com o que você tem feito. Ele quer que eu lhe pergunte: o que não foi alterado?’ Barb começou a soluçar, [...] ‘Eu ainda sou um fracasso’, disse ela. ‘Não somente um fracasso como uma esposa, mas também como mãe e advogada’, disse ela, ‘mas agora eu sou um fracasso para a cura também.’ Nariz Grande foi o principal ajudante espiritual de Sonny. Em vida, Nariz Grande havia sido o avô de Sonny. Agora Sonny havia invocado o espírito dele para obter instruções sobre como curar. [...] Durante treze anos, Sonny fez a viagem ao topo da Colina do Urso para sentar-se por quatro dias e noites, clamando por uma visão. Até que finalmente Nariz Grande veio.”

Uma salada perigosa de crendices diversas – vegan, yoga, acupuntura -, relacionada com nada menos do que o CÂNCER, para terminar em uma estorinha em quadrinho de “forte apache”, com direito ao “chefe Nariz Grande”, na “Colina do Urso”, com direito à delírios causados por 4 dias e noites em isolamento... um clássico no estudo neurocientífico. Tudo muito sedutor, anedótico, irresponsável e criminoso... Mas, se considera que sua vida está salvaguardada de devaneios deste calibre, então me responda por que faz o sinal da cruz diante de uma igreja, ou por que pede a benção à sua avó? Os ‘Testemunhas de Jeová’ são apenas uma variante do seu cristianismo, uma variante mais “coerente” com os dizeres bíblicos, quando dizem não à transfusão de sangue – um importante recurso para salvar vidas:

“Mas escrever-lhes que se abstenham das contaminações dos ídolos, da fornicação, do que é sufocado e do sangue.” – Atos [15:20]

Devaneios à parte, e retornando ao destino de Daniel, sabemos que um juiz cumpriria o seu dever, ordenando aos pais do menino que seguissem com a quimioterapia de indução e a radio – da qual o menino tanto necessitava. Foi quando a mãe de Daniel raptou o menino e partiu em fuga - e sua vida realmente correu perigo, até que o cerco a forçou a se entregar... Quando a Ciência Médica concluiu o seu trabalho, contrariando os desígnios do ‘Pinóquio Cherokee’, veio a declaração pública:

“Daniel Hauser, o adolescente Sleepy Eye, que ganhou atenção nacional por resistir judicialmente ao tratamento de câncer, terminou sua quimioterapia e agora tem planos para celebrar o feito com uma festa da pizza em sua casa, junto à família e amigo.”

Sua mãe, Colleen Hauser, e cuja crendice quase lhe custou à vida do próprio filho, diria:

"É muito bom o que ele conseguiu [...] Ele está vomitando, além de outras reações normais, mas vamos mantê-lo ocupado e distraído, e isso ajuda muito."

A náusea é um pequeno preço a pagar para sobreviver a um câncer potencialmente fatal... Zwakman, um “amigo” da família, teve a cara de pau de dizer que “as terapias naturais praticadas pela família ajudaram a enfraquecer o tumor antes da quimioterapia retomada”... Em uma palavra, e evitando xingamentos, devo dizer sonoramente que NÃO! Durante o par de meses em que as “terapias naturais” cuidaram do menino, o tumor quase dobrou de tamanho.

Os charlatões sempre querem levar a melhor, e este é o truque de “jogar tênis sem rede”... Se der certo “foi deus”, mas se der errado “fodeu” – com o perdão da palavra... Este é o truque dos picaretas, e se não funcionar a culpa terá sido de sua pouca fé no “tratamento espiritual”... A ‘Associated Press’ em Sydney, em sua primeira página, em 28 de Setembro de 2009, daria conta de “mais uma bola na rede espiritual”: “Casal homeopata preso pela morte da filha”...

Thomas Sam, de 42 anos, “professor de homeopatia”, e sua esposa Manju, 37 anos, ambos de Sydney, Austrália, foram condenados pelo homicídio culposo de sua filhinha de nove meses, Gloria... A ingloriosa crença na homeopatia havia vitimado mais uma criança, onde se lia na causa mortis do atestado de óbito: “septicemia e desnutrição” – século XXI... 25 anos de prisão por ignorância, e tendo causado o intenso sofrimento de seu bebê; decididos a não recorrer à “medicina convencional” diante de uma doença dermatológica gravíssima.

Mas o que existe de “convencional” em revolucionar o entendimento da vida e da morte, em revolucionar todo o entendimento da biologia, alçando a expectativa de vida humana aos 80, 90 anos – tendo esta adormecido, durante quase 150 mil anos, no mesmo patamar, entre 25 e 35 anos? O que existe de “convencional” na diminuição de mais de 40 vezes em nossas taxas médias de mortalidade infantil, cuja triste e funesta dissidência repousa apenas nos dados daqueles países optantes pela dita “alternativa”? Convencional é o a ridícula dicotomia do raciocínio do pai da homeopatia: “quanto menos mal, mais bem”, ou quanto mais ineficiente melhor...  

Thomas Sam, o “professor de homeopatia” continuou “acreditando” em sua magia, mesmo depois que sua filha foi diagnosticada com uma severa infecção aos quatro meses de idade, e sua “fé” persistiu quando sua saúde foi deteriorada a ponto de seu cabelinho negro se tornar completamente branco. Isso é horripilante! Gloria estava desnutrida pela “terapia” do pai, e seu sistema imunológico incapaz de lutar contra as infecções que invadiam seu corpinho, e controlavam o seu complexo sanguíneo através da pele erodida. Um sofrimento intenso, indizível, mesmo para os padrões do apocalipse cristão contra os hereges... Quando alguma lucidez superou a ignorância do “professor”, já era muito tarde... A menina foi acolhida em um hospital em estado de choque, os médicos ministraram doses cavalares de morfina para aliviar o intenso sofrimento do bebê – que tinha a pele queimando como em “mármore derretido”, e onde se podia escutar “o ranger dos dentes” de sua lacerante dor... Imediatamente, doses elevadas de modernos antibióticos, indicadas apenas a situações limítrofes da vida, tentaram combater - sem sucesso – uma terrível infecção ocular colateral que causava o “derretimento de suas córneas”. Três dias de suplicio, e esta inocente criança havia perdido a luta para a ignorância... E isso me remete outra vez a Tertuliano – Ipsis litteris:

“Crucifixus est Dei Filius, non pudet, quia pudendum est; et mortuus est Dei Filius, prorsus credibile est, quia ineptum est; et sepultus resurrexit, certum est, quia impossibile.” (De Carne Christi V, 4)

Ou “O filho de deus foi crucificado, não existe vergonha, porque é vergonhoso; e o filho de deus morreu, é por isso que cremos, porque é absurdo; e sepultado e ressuscitado, é certo porque é impossível”... Tautologias e devaneios verborrágicos, que escondem uma verdade atordoante, a prevalência de problemas mentais em oradores que arrastaram multidões... Alguns desejam reclamar a razão pedindo que nos desfaçamos dela, sendo Tertuliano um clássico no gênero. Agostinho, outro “santo”, tem uma fórmula similar, mas o truque se esconde de forma muito mais sutil:

“Credo ut intelligam/ Creio para entender.”

E retornamos Terceiro Milênio, onde pais crentes negligenciam a vacinação de seus bebês... E por quê? Além do “meme” crente disparado por Wakefield, um gráfico indicando que a prevalência do autismo vai crescendo ao longo do tempo – com destaque exponencial para o Século XX -, termina por provocar mais uma onda de choque e histeria - já que a doença sempre foi considerada “indiscutivelmente” rara. Psicólogos e pediatras ouviram falar do autismo por meio da literatura, e atravessaram toda uma carreira sem presenciar um único caso. Por décadas, as estimativas de prevalência permaneceram estáveis, entre três ou quatro crianças a cada dez mil. Mas nos anos 1990, os números começaram a disparar. Organizações como a “Autism Speaks”, sempre se referiram ao autismo como uma espécie de “epidemia”, como se fosse possível “contrai-lo de outra criança na Disneylândia”.

Mas então o que estava acontecendo? Se não são as vacinas, o que seria então? O que está causando o “aumento do autismo”? Por que era tão difícil de encontrar casos de autismo antes dos anos 1990? E foi então que o impagável autor americano, dedicado a temas neurocientíficos, Steve Silberman, decidiu responder a estas questões.

Silberman descobriu o problema residia “no poder sedutor da narração de histórias”, na eloquência humana, nos fascínio por ídolos, e na “crença na crença”... Durante o Século XX, uma estória equivocada propagaria um erro sobre o autismo. Uma estória mal nascida foi recontada e tendo assimilado mais equívocos, até encontrar novos protagonistas, em uma Ciência cada vez menos personalista – e aqui estamos diante de uma acachapante descoberta: havia uma segunda estória, muito mais precisa, e amplamente endossada por evidências e provas, e despida de arrogância e crendices - perdida e esquecida nos recantos obscuros da literatura clínica.

A história do erro, sobre o autismo, começa com o psiquiatra infantil do Hospital John Hopkins, Leo Kanner. Em 1943, Kanner publicou um artigo descrevendo 11 casos de jovens que pareciam “habitar mundos particulares”, ignorando as pessoas à sua volta, e até mesmo os próprios pais; podiam se divertir por horas batendo as mãos em frente ao próprio rosto, mas entravam em pânico por pequenas coisas, como quando o seu brinquedo preferido era trocado de lugar sem o seu conhecimento ou consentimento. Com base em seus pacientes, Kanner presumiu então que o autismo era “muito raro”.
Nos anos 50, consagrado como autoridade mundial e isolada sobre o tema, Kanner declararia que não havia visto mais de 150 casos de "sua síndrome", ao longo de sua carreira; isso, enquanto empreendia a busca de novos casos “em lugares remotos como a África do Sul”. Na verdade esta “raridade” não era de surpreender, considerando os critérios de Kanner para diagnosticar o autismo. Por exemplo, ele desprezou crianças que apresentavam surtos epiléticos, quando hoje sabemos que a epilepsia é muito comum no autismo. Certa vez, Kanner se gabou de ter dispensado nove entre dez crianças trazidas à sua clínica por outros especialistas, e diagnosticadas como autistas.

Kanner foi um cara esperto, mas seria bem melhor descrito como arrogante; suas teorias, em grande parte, estavam inteiramente furadas, e já caíram por terra... Ele classificou o autismo como uma forma de “psicose infantil” causada por pais frios e indiferentes.

“Estas crianças foram mantidas num refrigerador que não descongela.”

As “mães-geladeiras” escutariam ainda que seus filhos estavam condenados, por sua culpa, a...

“[...] um isolamento extremo desde o início da vida e um desejo obsessivo pela preservação da mesmice.”

O sofrimento dos pais destas crianças, por pelo menos duas gerações, é incalculável... As crendices behavioristas de Kanner, no entanto, desprezaram o fato de que muitos de seus jovens pacientes exibiam habilidades especiais concentradas e certas áreas e especialidades, como a música, matemática e memória. Um garoto em sua clínica conseguia distinguir entre 18 sinfonias diferentes antes de completar dois anos; quando a mãe tocava seus discos preferidos, ele dizia com exatidão: “Beethoven!”... Mas Kanner não viu nada disso, tratando estas inescapáveis habilidades com desdém, alegando que as crianças estavam apenas “regurgitando coisas que ouviram seus pais esnobes, desesperadas para ganhar a sua aprovação” – males do behaviorismo...

Uma mente congelada, responsável por estigmatizar o autismo, trancando pelo menos duas gerações de crianças em frias instituições – “para o seu próprio bem” -, e tornando-as invisíveis ao mundo até 1970 - ironicamente quando alguns pesquisadores começaram a testar a teoria de Kanner sobre o “autismo era raro”. Uma afetuosa mãe-geladeira, a londrina Lorna Wing, psicóloga cognitiva, considerava a teoria de Kanner sobre o “refrigerador parental” uma "total estupidez" – como diria pessoalmente a Silberman. Ela e o marido, John, extremamente afetuosos, eram os felizes pais de Susie – diagnosticada como autista.

Lorna e John conheciam de perto as dificuldades inerentes à educação de uma criança como Susie; não contando com serviços de apoio, educação especial, e outros recursos indisponíveis – além do estigma. Para convencer o Serviço Nacional de Saúde Britânico sobre a necessidade de destinar mais recursos para crianças autistas e suas famílias, Lorna e a sua colega Judith Gould, decidiram lutar contra um estigma de 30: realizando um estudo científico e efetivo sobre a prevalência do autismo na população em geral. Então, caminharam pelas ruas de um subúrbio londrino chamado Camberwell em busca de crianças autistas; e isso bastou para perceberem que algo cheirava mal no modelo de Kanner, enquanto a realidade do autismo era muito mais colorida e diversa do que os tons cinzentos sacramentados por seu detrator.

Algumas crianças eram incapazes de se comunicar, enquanto outras descreviam com fascínio com a astrofísica, dinossauros, ou discorriam sobre a genealogia da realeza... Em outras palavras, essas crianças não se enquadravam em alguns dos padrões mais óbvios e monolíticos estabelecidos por Kanner... No início, elas ficaram perplexas e perdidas, lutando com os dados e buscando algum sentido. Como ninguém havia notado essas crianças antes? Lorna então tropeçaria com um artigo publicado na Alemanha em 1944 - um ano após o artigo de Kanner; este artigo esquecido, enterrado com as cinzas de uma época terrível e que ninguém gostaria de lembrar, lançava uma revolucionária luz sobre o tema. Kanner sabia deste artigo concorrente, mas, meticulosa e ambiciosamente, evitou mencioná-lo em seu trabalho.

A História do Autismo seria então recontada... Uma estória alternativa, contada por um homem chamado Hans Asperger que dirigiu uma clínica e uma escola em Viena nos anos 30. As ideias de Asperger sobre ensinar crianças com “diferenças de aprendizado” eram revolucionárias mesmo para os padrões contemporâneos. As manhãs em sua clínica começavam com aulas de ginástica com música, e as crianças faziam peças teatrais nas tardes de domingo. Em vez de culpar os pais por causar o autismo, Asperger o delineou como “uma deficiência poligenética definitiva”, e que requer formas compassivas de apoio e adaptação durante todo o curso da vida do individuo. Em vez de tratar as crianças na clínica como “pacientes”, Asperger as chamava de “seus pequenos professores”, e contou com a ajuda delas no desenvolvimento dos métodos de educação que seriam adaptados a elas.
Crucialmente, Asperger via o autismo como “uma diversidade continuada que abrange uma incrível gama de talentos e deficiências”. Ele acreditava que o autismo e as características autistas são comuns e sempre foram, “vendo aspectos dessa continuidade em arquétipos familiares da cultura pop”, como o cientista desajeitado socialmente e o professor distraído. Ele até chegaria a dizer que “para obter sucesso na ciência e na arte, parece ser essencial uma pitada de autismo” – ou da sedutora “bipolaridade”...

Lorna e Judith logo perceberam que Kanner estava inescapavelmente equivocado sobre a “raridade do autismo”, sobre as “geladeiras”, e tudo mais... Durantes os anos seguintes, elas trabalhariam em parceria com a ‘Associação Americana de Psiquiatria’ para ampliar os critérios de diagnósticos que refletissem a diversidade do que elas chamaram de “o espectro do autismo”. No fim da década de ‘80 e início dos ‘90, suas descobertas tiveram um efeito devastador sobre o modelo de Kanner, a partir do modelo amplo e inclusivo de Asperger.

Tais mudanças pegaram carona no interesse de Hollywood pelo tema, em filmes como ‘Tempo de Despertar’ – que retrata o trabalho de Oliver Sacks, com De Niro e Robin Williams -, e ‘Rain Man’, em 1988, com a atuação inesquecível de Dustin Hoffman -como Raymond Babbitt -, para ganhar quatro estatuetas da Academia... Pediatras, psicólogos, professores, estavam mais curiosos do que nunca sobre a questão; enquanto pais de todo o mundo abriam suas portas, seus lares, e segredos, e já não havia nenhuma geladeira, senão no frio mundo de Kanner.

A combinação de ‘Rain Man’ com as mudanças de conceitos e critérios, criaram um maravilhoso efeito cascata, uma “perfeita tempestade” de consciência sobre o autismo. “O número de diagnósticos começou a subir exponencialmente”, assim como Lorna e Judith previram, permitindo que os autistas e suas famílias finalmente fossem ouvidos, e conseguindo o apoio e os serviços que tanto ansiavam.
E voltamos a Andrew Wakefield, sua fraude e vergonha... Uma poderosa e sedutora estória, tão aparentemente  plausível e equivocada quanto a teoria de Kanner sobre “o autismo raro”. Se a estimativa do Centro de Controle e Prevenção de Doenças, de que “1 em cada 68 crianças nos EUA” está dentro do espectro, estiver correta, “os autistas são um dos maiores grupos minoritários no mundo”. Nos últimos anos, os autistas se uniram na Internet para cunhar o termo e o subsequente conceito de “neurodiversidade”, celebrando as variantes da cognição e condição humana... Nas palavras de Silberman:

“Um jeito de entender a neurodiversidade é pensar em termos de sistemas operacionais humanos. Só porque um PC não está rodando o Windows, não significa que ele esteja quebrado.”

Pelos padrões autistas, o cérebro humano normal pode ser distraído com muita facilidade, é obsessivamente social, e sofre de déficit de atenção em relação a importantes detalhes [sic]... Oitenta anos depois, ainda estamos atrás de Asperger, que acreditava que a “cura” para a maioria dos aspectos disfuncionais do autismo é encontrada em professores compreensivos, profissionais solícitos, comunidades solidárias, e pais que apostam no potencial de seus filhos. Zosia Zaks, autista, diria:

“Precisamos de todas as mãos no convés para endireitar o navio da humanidade.”

Não sei se existe algo a ser “endireitado”, mas celebro a diversidade proposta por Zosia, e amplio... Estou de olho em outras variantes da condição humana, como o dito “Transtorno Bipolar”, entre tantas “diferenças”... MARAVILHOSAMENTE IMPERFEITOS... Nas palavras de Silberman:

“Já que navegamos rumo a um futuro incerto, precisamos de todas as formas de inteligência humana do planeta trabalhando juntas para encarar os desafios que temos como sociedade. Não podemos nos dar ao luxo de desperdiçar um cérebro.”

Todas estas reflexões, portanto, apontam para disposições que salvam e SENTIMENTOS QUE CURAM...

Carlos Sherman

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