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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

A CIÊNCIA DO ERRO - Sobre Verdades, Veracidade e Realidade Objetiva



A CIÊNCIA DO ERRO - Sobre Verdades, Veracidade e Realidade Objetiva
[Uma resposta a Marcelo Gleiser]

"Somos todo ignorantes, mas não sobre as mesmas coisas" - Albert Einstein

E poderíamos apendar o célebre pensador ashkenazi para salvaguardar também a escala da ignorância e a gradação do erro associado ao feito - ou desfeito, ou defeito! Somos todos ignorantes, sim, mas não sobre as mesmas coisas, nem na mesma gradação... 

Respondendo a um tal Daniel, enquanto debatíamos sobre a última eleição brasileira, afirmei que 'sim' existem proposições verdadeiras e falsas - não importa o tema. E podemos 'sim' atestar a força, veracidade, ou falsidade, de proposições; e devemos nos preocupar com isso, para viver melhor, de forma mais ética e justa... E contra toda sorte de relativismos oportunistas, podemos ainda dizer que 'sim' existe uma realidade objetiva. Aguardem até o fim, e entenderão.

Certa feita Asimov recebeu uma carta de um licenciado em literatura inglesa - e não iniciado na busca pelo conhecimento - que muito vem ao caso neste momento - motivo pelo qual devo citá-lo:

“Um jovem especialista em literatura inglesa, tendo me citado, passou a me repreender severamente sobre o fato de que, através dos séculos, as pessoas pensavam ter compreendido finalmente o universo, e através dos séculos ficou provado que estavam errados. Isso significava que a única coisa que podemos dizer sobre o nosso conhecimento ‘moderno’ é que ele está errado.”

Asimov brilharia em sua resposta:

“Quando as pessoas pensavam que a Terra era plana, estavam erradas. Quando as pessoas pensavam que a Terra era – ‘exatamente’ [grifo meu] - esférica, estavam erradas. Mas, se você considera que ‘pensar que a Terra é esférica é tão errado quanto pensar que a Terra é plana’, então a sua visão está mais errada do que as duas juntas.” (‘A Relatividade do Erro’; 1989)

Asimov explicaria ainda que as pessoas estão sempre em busca de certezas absolutas, ou negações absolutas. As pessoas estão platonicamente aprisionadas em uma falsa noção de perfeição; de forma que, se alguma coisa não é "exatamente" ou "absolutamente" perfeita, então ela estará totalmente errada; e isso não nos leva a nada. Existem gradações de erros, sentenças verdadeiras e falsas; e a ostentação de verdades absolutas somente serve ao propósito de turvar a nossa visão  crítica diante da ‘realidade objetiva’ – à qual Gleiser [o Marcelo] chama pejorativamente de "objetvismo"; impedindo que possamos diminuir a confusão reinante, optando por posições mais acertadas do que outras.

"Objetivismo" é particularmente abjeto, irresponsável, e injustificável, partindo de alguém que alega pensar de forma racional; sempre lembrando que um tapa na cara da racionalidade corresponde a um tapa na cara da verdade... Podemos sim ‘endereçar a verdade’, e este é o propósito da investigação científica - muito embora não seja a sua fonte de inspiração... Somos inspirados pela beleza da vida, por nossas paixões, amores, e pela devoção a estes amores e princípios. E aqui discordo de outro conceito da “ilha” - ('A Ilha do Conhecimento – Os Limites da Ciência e A Busca Por Sentido'; 2015) de Gleiser, quando alega que a motivação científica seja a "ignorância". Na verdade, pretendemos escrever a poesia da realidade - e por amor...

Sob o pretexto de uma verdade absoluta, Gleiser questiona que existam verdades - assim como o professor de literatura de Asimov... Gleiser levanta-se para procurar "sentido em sua vida", disparando contra a CIÊNCIA, contra o conhecimento... Mas não demonstra mais do que suas próprias e covardes limitações. Aliás, Galileu, um célebre “cavaleiro do apocalipse”, tendo escolhido ridicularizar crendices infundadas com as de Gleiser, salvaguardaria o vigor de sua lucidez, e a postos, quando disse que:

“Io stimo più il trovar un vero, benché di cosa leggiera, che `l disputar lungamente delle massime questioni senza conseguir verità nissuna. / Mais estimo encontrar uma verdade sobre qualquer assunto leve do que entrar em uma disputa longa sobre máximas questões sem atingir verdade nenhuma.”

Mas Galileu também esteve equivocado algumas vezes, como no notório caso dos anéis de Saturno; afinal, com o seu parco instrumento de trabalho, os discos lhe pareceram como dois astros mais ladeando o planeta. Mas os acertos de Galileu e seu exemplo e vida, valem muito mais do que seus evidentes equívocos – e Gleiser deveria saber disso.

Enquanto especulamos sobre a planura da Terra, estivemos equivocados; mas tratávamos de endereçar a verdade, afinal, a curvatura da superfície terrestre está 'sim' próxima de zero. Este ‘erro’ refletia as limitações instrumentais para a época; mas, e sobretudo, refletia as limitações em termos de critérios para o conhecimento. Ainda não havia uma concisa teoria para o conhecimento, nem estatutos, nem recomendações formais, ou uma metodologia para o conhecimento que estabelecesse um universo de validez, indicando a margem de erro esperada no confronto com a ‘realidade’. As ‘verdades’ eram publicadas com ansiedade e alarde, e, portanto, sem critérios. Tudo estava por saber, e não sabíamos ao certo 'como saber'.

Mas os tempos mudaram, e mudaram com o filósofo grego Eratóstenes (276-195 AEC), um “gênio do tamanho da Terra”, que seria o primeiro a notar que a longitude das sombras, em relação ao mesmo horário do dia, variava com a latitude onde a medição fosse procedida. Eratóstenes sabia que no vigésimo primeiro dia do mês de Junho aconteceria o Solstício de Verão na cidade de Siena, e que, precisamente ao meio dia, o Sol brilharia direto dentro de um poço, iluminando “o seu fundo sem que nenhuma sombra se projetasse em suas paredes”; isso, enquanto em Alexandria, exatamente à mesma hora, ainda haveriam sombras projetadas sobre a parede.

Eratóstenes inferiria, então, que a Terra deveria ser esférica - uma revolução para o seu tempo. Com ajuda da trigonometria, considerando a distância entre Siena e Alexandria, e o ângulo formado por este arco em relação ao “centro da Terra”, ele calculou a curvatura correta da Terra. Isso foi medido em “passos” e “estádios”, e envolveu “sombras”; tudo muito impreciso, embora engenhoso, perspicaz, apaixonante e científico...

Endereçávamos a verdade com ainda mais acuracidade, ao que hoje podemos adicionar algumas casas decimais, calculando a curvatura da Terra em 0,0000786 por quilômetro. Isso seria crucial para que pudéssemos revisar toda a cartografia da época;  e os mapas, palmo-a-palmo, passariam a ser muito mais precisos, a navegação revolucionada, e o mundo ‘redescoberto’... Tudo isso graças ao gênio e à ousadia de Eratóstenes, apesar do ‘erro’ irremediavelmente incorporado pelas limitações de seu tempo...
“A ciência, meu rapaz, é feita de erros, mas estes são erros uteis de serem cometidos, pois nos conduzem pouco a pouco à verdade.”
Jules Verne
('Viagem ao Centro da Terra')

Agora a Terra era uma “esfera” perfeita, o que também estaria equivocado por algum tempo. Observando os céus e os demais planetas, o gênio investigativo de Newton demonstraria que a massa terrestre em rotação sofria um acentuado achatamento nos polos. Medidas mais precisas nos permitiriam calcular o grau de elipsidade da Terra. A Terra esferoide ainda seria muito mais próxima de seu passado esférico do que de seu passado plano - e diminuindo a gradação de erro. Uma esfera prefeita nos daria uma curvatura em torno de 12,5 cm/km, enquanto a curvatura elíptica varia de fato entre 12,657 e 12,472 cm/km. Estávamos chegando lá!

Este raciocínio conduzido por Asimov, stricto sensu, nos permite dizer que julgar a Terra esférica é muito mais correto do que considerá-la plana; e tal noção tem enorme impacto sobre as nossas vidas. Também podemos dizer que julgar a Terra plana é muito mais incorreto do que julgá-la esférica, com os mesmos e severos impactos sobre o nosso convívio com a ‘realidade objetiva’. E ensinar tais princípios, valorizar o ‘endereçamento’ obstinado da verdade, é muito mais produtivo do que destacar a imprecisão deitada sobre o caminho...

Mesmo o nosso esferoide ‘perfeito’ seria revisado em 1958, quando o satélite Vanguard I entrou na orbita da Terra. Uma literal vanguarda científica seria capaz de medir a forma da Terra com uma precisão sem precedentes. Descobrimos que nos parecíamos com alguma coisa entre uma ‘pera’ e uma ‘batata’ – flutuando e rodopiando no espaço. Correções da ordem de milionésimos de centímetros por quilômetro foram procedidas, e aqui estamos – graças ao gênio de Eratóstenes...

Vivemos um conflito neuropsicológico de ordem evolutiva; somos causais, dicotômicos, lineares, animistas, intencionalistas, maniqueístas, e tateamos assustados no terceiro milênio, com cérebros de 150.000 anos, adaptados à savana africana... Vagamos perdidos em uma espécie de 'gangorra de absolutos', tudo ou nada, certo e errado, bom ou mal. Mas a realidade se descortina livre, desimpedida, e precisamos estabelecer novos parâmetros e bases de compreensão para conformar avanços ‘objetivos’. O absolutismo, o generalismo, e seu homólogo, o relativismo, tem se prestado ao inconsequente e especioso propósito de justificar medidas autoritárias e dogmáticas, alegando a impossibilidade de exatidão. Pois não seria muito melhor, sempre, acender mais um pequeno lampejo de luz do que tropeçar na escuridão?

Hoje sabemos que a ‘mecânica genética’ de nosso corpo evoluiu para mitigar os erros e mutações em nosso código genético; é isso mesmo, o código genético tem um mecanismo autocorretivo, e desta forma estamos menos sujeitos a mutações drásticas do que estivemos no passado. E podemos dizer que a Ciência conta hoje com o mesmo sofisticado mecanismo: o Método Científico. De forma que a falibilidade assumida da Ciência, de hoje em diante, está muito menos sujeita a erros crassos do que esteve no passado das crenças.

“[...] talvez a Terra seja esférica agora, mas um cubo no próximo século, e um icosaedro oco no próximo, e com a forma de donuts no seguinte. O que ocorre, na realidade, é que quando os cientistas consegue elaborar um bom conceito, eles gradualmente o refinam e ampliam, com crescente sutileza, à medida que seus instrumentos de medição melhoram. As teorias não estão tão equivocadas, mas incompletas.” – Isaac Asimov (idem)

Não é tão importante definir se este valoroso processo se estenderá infinitamente ou não, absolutamente ou não; mas, sobretudo, devemos considerar o bem que este honesto procedimento provê, na medida em que, inescapavelmente, ilumina o que antes era escuridão. O importante não é a perfeição, senão progressar...

Muitas vezes teorias que alcançam o status de revolução científica não passam de um conjunto apropriado manipulações e refinamentos de um corpus de conhecimento pregresso; como quando Copérnico nos levou de um sistema centrado na Terra a um sistema centrado no Sol. Copérnico estava desafiando o que parecia ser óbvio com algo que soava ridículo. Aristarco de Samos e Eratóstenes viveram a mesma experiência...

Normalmente, e há algum tempo, vivemos de refinamentos; caso contrário, e considerando a autorregularão e autocorreção científica em voga, uma teoria estapafúrdia teria vida muito curta. Exemplos pífios, como a “fusão a frio”, não passaram de pseudociência, e não resistiram o crivo científico mais elementar. Isso nos deveria alertar - ainda mais - sobre a necessidade de aprimorar nossos critérios, e não desconsiderá-los – como Gleiser e o “professor de literatura” sugerem.

Voltando a Copérnico, e por mais que a proposição heliocêntrica ‘parecesse’ revolucionária, toda esta ‘revolução’ não passava de um problema político-religioso – da alçada do “absoluto” e do “absolutismo”. Cientificamente, no entanto, tratava-se de um refinamento teórico em relação aos movimentos dos já conhecidos corpos celestes. Seria a autoridade religiosa Católica, expressa em seu "livro negro" - ou 'Index' -, quem elevaria o trabalho de Copérnico à condição de heresia, sete décadas depois de sua publicação em 1616, e lá permanecendo até 1822 - mas aí já era tarde, e o estrago já estava feito...

Copérnico pretendia apenas encontrar um modelo que melhor acomodasse a realidade de suas observações celestiais. Neste caso, e em especial, apesar de toda a gambiarra incorporada ao modelo aristotélico-ptolomaico, a sobrevivência do antigo - “salvando a teoria” platonicamente - só seria possível, e por tanto tempo, devido à força da autoridade político-religiosa vigente.

A Teoria da Evolução enfrentou os mesmos credos, e as mesmas barricadas:

“[...] as formações geológicas terrestres mudam muito lentamente, assim como os seres vivos evoluem tão lentamente, que parecia razoável no início supor que não haviam mudanças, e que a Terra e a Vida sempre existiram como são até hoje. Sendo assim, não faria diferença se a Terra e a Vida tivessem bilhões de anos de antiguidade, ou somente milhares. Milhares era mais fácil de compreender.” (idem)

A exemplo do entendimento sobre a curvatura terrestre, quando medições mais precisas revelaram que a Vida evoluía em um ritmo muito lento, porém vigoroso, pudemos aprofundar também a compreensão sobre a idade da Vida. Nasciam a Geologia Moderna, a Evolução, e a Biologia.

“É apenas porque a diferença entre taxa de variação em um universo estático e a taxa de variação em um universo em evolução está entre zero e muito próximo de zero que os criacionistas podem continuar a propagar seus disparates.” (idem)

O raciocínio também se aplica ao mundo dos micro-organismos; um mundo de escalas invisível estava escondido de nós, e toda sorte de crendice seria erigida para preencher as lacunas diminutas hoje ocupada pela microbiologia. Cotidianamente, dizíamos – e muitos ainda dizem: “menino, não tome esta friagem porque você vai ficar gripado”. Recentemente ouvi tal disparate de uma amiga microbiologista, para quem o filho descalço resultaria resfriado. Tratei de recordá-la de dois aspectos: primeiro, como microbiologista, ela estava obrigada a bem conhecer a origem viral de gripes e resfriados; depois, como bióloga, seria imperdoável que ela não recordasse que a seleção natural jamais teria poupado nórdicos, russos, além dos inuits, se tal conjectura fosse minimamente possível...

Os ‘sábios’ conselhos da ‘medicina popular’ estão todos sub judice depois que a ciência adentrou o mundo secreto dos microrganismos, e ajustando a sua escala para uma compreensão profunda e necessária da natureza. A realidade em uma placa de petri... Deuses e tradições evaporavam no ar, enquanto a Ciência aprimorava seus métodos e instrumentos e reduzia suas escalas. O caminho para a descoberta dos antibióticos - como a Penicilina -, vacinas, agentes... e vida, a partir da vida obstinada de homens como Pasteur.

O ‘gap’ entre o conhecimento disponível no acervo científico humano e a nossa práxis cotidiana é gigantesco. Com a desculpa de que ‘não sabemos tudo’ permanecemos ‘sem saber nada’ sobre quase tudo. Apenas tangenciamos a realidade, mas não somos capazes de mergulhar nesta maravilhosa REALIDADE. Quando escrevi 'FIAT LUX - O Homem, Memória do Universo', estabeleci como missão colateral interessá-lo pela realidade, despertando a curiosidade em conhecê-la ‘por dentro’.

O conhecimento científico disponível está muito mais perto de um eventual ‘conhecimento último’ - em cada uma das fronteiras do conhecimento –, do que o 'fulano médio' está da linha de largada para o conhecimento do ensino fundamental. A maioria de nós sequer começou a jornada do conhecimento, e sequer chegou na marca onde diz ZERO.

O físico Marcelo Gleiser diz que o conhecimento é como uma “ilha” em meio ao desconhecido; e que quanto mais esta “ilha” cresce maior serão as suas fronteiras. É verdade. Mas quanto mais esta ilha 'do que é conhecido' cresce, por mais que hajam novas fronteiras, menor será o espaço lá fora - ou daquilo que 'ainda' não conhecemos.

Podemos chutar uma pedra com facilidade, mas pensaremos duas vezes antes de pisar em uma formiga ou esmagar um mosquito, e jamais consideraremos a hipótese de maltratar um cãozinho. Estas são conquistar recentes, afinal aprendemos sobre a complexidade dos sistemas neurais, e sabemos que muitos seres vivos sentem dor e sofrem.

Por isso avançamos sobre o oceano de ignorância que nos cercava, arbitrado pela crença de que o homem era uma espécie de “escolhido”, sendo o único sujeito à dor. Ainda assim, na Bíblia e em Aristóteles, alguns homens são mais escolhidos do que outros, e a escravidão é amplamente aceita e recomendada. Matar um infiel - na Bíblia e no Corão - é antes um dever... Pelo humanismo, pela iluminação científica, sabemos que isso não é correto. Tais fronteiras não aumentaram a nossa ignorância, mas certamente abriram novas fronteiras dentro da “ilha”...

“O conhecimento avança, e a região inexplorada recua [...] com nosso conhecimento expandido.” – Linda Randall

Um dia, este espaço tomado pelo desconhecido representou a diferença entre morrer na selva de dor de dente aos 23 anos; ou ministrar uma dose de 500mg de Cloridato de Tetraciclina, e voltar a sorrir por mais 40, 50, 60 anos. O importante não é chegar ao fim, mas seguir em frente, viver a viagem, viver uma vida digna, útil, e prazenteira; contribuindo como Humanidade, para que enderecemos a verdade.

Gleiser insiste, sob o tendencioso pretexto de que a Ciência não poderá ser exata ou completa, que uma tal “espiritualidade”, ainda mais inexata, e na verdade “irreal”, poderá ser invocada para preencher as lacunas...

“Uma balança mede o nosso peso com precisão dada pela metade de sua menor graduação: se a escala é espaçada por 500 gramas, só poderemos aferir o nosso peso com precisão de 250 gramas. Não existe medida exata: toda medida deve ser expressa dentro da precisão do instrumento usado e o faz com ‘barras de erros’. [...] uma medida de 70 quilos deve ser expressa como 70 +/- 0,25 kg [...]. Não existem medidas perfeitas, sem erro.”

Em busca do exato, do absoluto, do “espiritual”, esquecemos ou desconhecemos sobre a existência de gradações de erro, e uma falibilidade assumida na atitude científica - sendo essa sua maior fortaleza. Saber de tudo, repito, é um agravante religioso - e não científico... E esta atitude covarde, politicamente e falsamente "correta", orquestrada, é o que mais prejudica o avanço científico e humano.

“Quem pensa ver algo sem falhas, pensa naquilo que nunca existiu, que não existe, e que nunca existirá.” - Alexander Pope

O vigoroso e genial físico Richard Feynman dá o seu depoimento:

“Um princípio de pensamento científico corresponde a uma espécie de honestidade incondicional [...].”

É esta honestidade incondicional ou Ética que reside no Ceticismo Científico, confrontando a vacuidade das crenças e os ‘discursos persuasivos’ - em favor de mentiras, interesses e sandices. Isso porque as crenças se baseiam apenas na caprichosa, débil, ou vã, vontade de acreditar. Não se pode, de forma alguma, comparar a nobre atitude de tornar-se ciente pelo confronto de hipóteses sérias, e consequentes com a realidade, com a autoridade especiosa de velhas ou novas convicções.

Não se pode usar como desculpa a falibilidade assumida da ciência para validar crenças. Uma verdade científica tem uma validez e universo de aplicação, assim como seu erro assumidamente demarcado, e que estará sob crivo constante, acirrada revisão, e variada fiscalização, sendo esta a maior fortaleza da Ciência, e não o contrário.

Sobre a pretensa critica ao erro científico, devo reagir lembrando que dogmas religiosos não podem ser revistos, e por isso mesmo, sua defesa se faz com cinismo, agressividade, violência - e no passado ‘médio’, por meio dos artefatos do terror ‘inquisitório’. Asimov nos ensinou sobre a ‘relatividade do erro’ e não da VERDADE...

E insisto que nenhum debate dito filosófico ou político – e sob nenhum pretexto - estará isento da necessidade de entender - antes - a 'realidade' e os subsequentes parâmetros que regem a nossa tênue lucidez neuropsicológica.

Sim, mas e daí? Uma balança caseira de precisão de uma ou duas casas decimais está sob um crivo mais ‘frouxo’ em termos científicos; mas quanto mais ciência mais exatidão: medimos a temperatura média do Universo com precisão de 5 casas decimais. Não há como ser ‘exato’, ‘absoluto’, mas e daí? Indicar a margem de erro é uma lição Ética da Ciência e não o contrário. Deus e a religião não indicam suas margens de erros, e justificam isso alegando que o absoluto a deus pertence - ou é “incognoscível”... E não precisamos da perfeição, já que a natureza e o universo emergem da imperfeição e da diferença. O argumento de Gleiser é platônico...

Asimov concorda com isso, e tem algo mais a dizer sobre a Ciência e a escuridão:

“Existe apenas a Luz da Ciência, e acendê-la em qualquer lugar é como acendê-la em todos os lugares.”

Um anúncio afixado diante de uma igreja batista americana, da seita ‘New Canaan’ [ou ‘Nova Canaã’], alertava:

“Um livre pensador é um escravo de Satan.”

Sei que Gleiser alegará que esta congregação é doentia, ou que ele não fala “desse tipo de espiritualidade”, mas crimes contra a liberdade de pensamento, sempre estão associados à religião...

“Com ou sem religião, pessoas boas podem se comportar bem e as pessoas ruins podem fazer o mal; mas para que pessoas boas façam o mal, elas precisam de religião.” - Steven Weinberg (discurso em Washington em 1999)

Sobre os “limites do conhecimento”, Asimov desafia:

“Se o conhecimento pode nos trazer problemas, não será através da ignorância que iremos resolvê-los.”

Gleiser insiste na escuridão ‘científica’ justificada por sua inexatidão e reducionismo, mas tolera sem pesos ou medidas uma tal “espiritualidade”... Convido a advertência de Sagan no adágio de abertura de seu inesquecível ‘O Mundo Assombrado por Demônios’:

“É melhor acender uma vela do que praguejar contra a escuridão.”

Por que escrever uma obra para ressaltar os limites da Ciência, se as fronteiras continuam “dentro da ilha”? E como Gleiser citou a Lucrécio, inestimável livre pensador, e o verdadeiro algoz dos deuses - que seria seguido pro Jean Meslier, para que Nietzsche levasse a fama; eu também gostaria de citar Lucrécio, e este aforismo me parece mais do que apropriado:

“Assim como as crianças tremem e têm medo de tudo na escuridão cega, também nós, à claridade da luz, às vezes tememos o que não deveria inspirar mais temor do que as coisas que aterrorizam as crianças no escuro.” - Titus Lucretius Carus (‘De Rerum Natura’ ou ‘Sobre a Natureza das Coisas’; 60 AEC)

Mas existem verdades? Existe uma verdade absoluta? A primeira questão é objeto de trabalho da Ciência, a segunda parte de pressupostos fechados e dogmas religiosos; mas podemos sim afirmar que existem verdades, existem asserções verdadeiras, assim como proposições mais corretas do que outras, e gradações de erro. E sabemos disso com ainda mais segurança depois de Tarski, Russell, Frege, Popper, Sagan e Asimov...

O filósofo e matemático alemão Friedrich Frege (1848-1925) escreveria – abrindo os trabalhos:

“Entendo por pensamento não o ato subjetivo de pensar, mas o seu conteúdo objetivo.”

Um pensamento é um processamento neural; mas aqui, e para todos os efeitos, será por meio da linguagem que trataremos de manifestar o seu conteúdo ou ‘objeto’. A linguagem é inata, hoje sabemos - embora dependa de imprinting -, mas a escrita não. O filósofo e matemático polonês Alfred Tarski (1901-1983) solucionaria o problema da correspondência entre uma proposição formulada pela linguística e a realidade; e o fez de forma surpreendentemente simples, intuitivamente satisfatória, e irrefutável.

Tarski focou na formulação semântica de proposições:

“A sentença (T) é verdadeira se, e somente se, o que ela diz é verdade.”

Onde ‘T’ seria a Convenção de Tarski...

Imagine que você e eu estamos contemplando uma bela cadeira vermelha, estilo Luis XV - exatamente como esta, bem ao lado da lareira em minha sala. A proposição “Esta cadeira é vermelha” seria verdadeira se e somente se “esta cadeira” for vermelha. Isso parece justo! Ou não? E óbvio! Então qual foi a contribuição de Tarski?

A sacada de Tarski foi eliminar ‘nebulosidades’ semânticas, preocupando-se em formatar de maneira objetiva a formulação das sentenças ou proposições, e evitando truques, verbosidades e falácias retóricas. Para isso ele utilizou os conceitos de “objeto” ou conteúdo, “verdade” ou veracidade, “metalinguagem”, “metalinguagem semântica” e “linguagem-objeto”. Por exemplo: se tomamos o português como metalinguagem e o inglês como linguagem-objeto, e o seguinte objeto “the dog is sleeping” poderíamos formular a seguinte sentença em nossa metalinguagem semântica: ‘a proposição do inglês (linguagem-objeto) “the dog is sleeping” (objeto) corresponde aos fatos (é verdadeira) se e somente se o cachorro está dormindo’.

A verdade começa por uma formulação semântica adequada, que permita a sua comprovação ou refutação. O que está vago e mal definido, não pode ser confrontado com a realidade. E se existe uma metalinguagem na qual podemos apresentar proposições, descrever fatos, então, também será possível, e de forma trivial, estabelecer a correspondência entre fatos e proposições, endereçando assim a verdade ou a veracidade de sentenças e argumentos. Isso, e bastando alguma honestidade retórica e integridade intelectual, conforme acentuado por Feynman, nos leva à atitude científica...

A Convenção de Tarski (T) pode ser formalmente descrita por:

(T) ‘X’ é verdadeiro se, e só se, ‘p’; 
onde ‘p’ é o predicado que pretendemos validar 
para a sentença ‘X’

O exemplo utilizando uma linguagem-objeto em inglês serviu para conter eventuais arroubos relativistas mais básicos, inter-linguísticos, ou ainda interculturais. Vale repetir que a construção linguística é inata; em milhares de dialetos e diferentes linguagens em todos os tempos e lugares, sempre estiveram presentes as figuras do sujeito, verbo – ou ação -, substantivo e predicado; já o vocabulário e as regras gramaticais precisarão ser aprendidos - e à duras penas.

Observem que o predicado “[...] corresponde aos fatos” ou “[...] é verdade” está protegido pela metalinguagem, não importando se algum dialeto por ventura venha a evitar esta ‘vital’ caracterização... Sendo assim “[...]” ou “X” poderá ser definido nos termos de qualquer linguagem-objeto; então, enfoquemo-nos na verdade, e utilizando como linguagem-objeto a nossa própria língua vernácula: o ‘português’.

E neste ponto podemos entender por que buscamos por proposições verdadeiras ou positivas na Ciência, com o auxilio de Popper:

“De uma classe (ou um sistema) de proposições, que são todas verdadeiras, nenhuma proposição falsa pode ser assumida.”

Enquanto os postulados religiosos ou “espirituais” dormem em berço esplendido, percebam o cuidado em estabelecer ‘verdades’ ou ‘veracidade’... Isso implica que, embora deus seja um bolso cada vez mais vazio, e enquanto reduzimos inequivocamente o oceano de ignorância, ainda assim não poderemos, apenas por princípio, descartar a existência de deuses ou do “unicórnio cor-de-rosa”...

“De teorias (sistemas de proposições) que concordem com os fatos, não se pode derivar nenhuma proposição lógica que não concorde com os fatos.” - Karl Popper

Esta importante regra, que de fato perfaz uma atitude ética, explica por que em Ciência efetivamos proposições positivas, buscando a veracidade ou verdades, e nunca proposições negativas. “A Terra descreve uma orbita fechada – ou captiva - em torno do Sol” é uma proposição científica; mas “não existem gnomos empurrando a Terra” não é – por mais que saibamos ser uma proposição lúcida... Podemos invalidar ou provar a falsidade de uma proposição positiva. Por exemplo, “a Terra é plana e está assentada sobre colunas” é uma proposição científica, e também é inteiramente falsa; mas “a Terra não é verde” não nos leva a lugar algum.

Claro que existe o ‘fato’ da vida finita, de forma que o fator ‘tempo a perder’ está sempre em jogo, assim como a questão: ‘Cui bono?’. Ou seja, não podemos, cientificamente, e em princípio, negar a existência de Tupã; mas podemos considerar a busca pela sua existência uma tremenda idiotice quando confrontamos a mais absoluta falta de evidências; isso, além do flagrante conflito com proposições já demonstradas como: “culturas primitivas praticaram o animismo”, ou “culturas primitivas, desconhecedoras do ciclo da chuva, cortaram gargantas e fizeram danças rituais para que chovesse”... E daí a escolha é sua!

A Teoria da Verdade como Correspondência, nos assegura que um pensamento pode ser considerado verdadeiro se a proposição que formula este pensamento é verdadeira. Proposições gerais ou universais devem ser encaradas como fundamentalmente hipotéticas, mesmo que possam ser verdadeira. E por isso é tão importante o caráter científico de ‘reduzir seus problemas’ e ‘limitar suas proposições’, já que buscamos o acercamento e o endereçamento da verdade. Começando humildemente, podemos construir proposições verdadeiras de grosso calibre, com no caso do Modelo Padrão.

A Metodologia Científica é um sério e consequente conjunto de recomendações, ao que Gleiser jamais poderia haver chamado de ‘cientismo’... O que é isso? E cientistas não passam de homens neuropsicologicamente curiosos, obstinados, talvez ousados, e certamente sem temores conservadores; homens buscando a verdade, e falhando em encontrá-la – mas inexoravelmente atidos a ela. E falhando podemos aprender, e recomeçar; o que parecia ser uma potencial falsificação da teoria newtoniana da gravidade, no caso da orbita calculada para Urano, nos levou ao descobrimento de Netuno...

Mas voltemos à verdade, voltemos à minha cadeira vermelha, afinal você pode estar esperando para me desbancar. Então temos a seguinte proposição, devidamente formatada, uma questão semântica que pode ser submetida ao escrutínio da ciência:

“Esta cadeira é vermelha” é uma proposição verdadeira se, e somente se, esta cadeira é vermelha.
Mas como podemos assegurar que o vermelho que você vê é o mesmo que eu vejo? E como podemos definir o que é ou não vermelho? Simples: imagine você que, providencialmente, eu trago comigo um espectrofotômetro; um daqueles aparelhos que medem a frequência dentro do espectro eletromagnético, podendo exprimir a cor em um número ‘objetivo’, e em comprimento de onda ou frequência - não importando que sejamos daltônicos ou portadores de icterícia. Através de uma singela convenção linguística, concordamos que comprimentos de onde dentro de determinada faixa nos leva ao termo em português: vermelho.

Uma psicóloga amiga, neste ponto, interpelou: mas cálculos matemáticos são exatos? Devo dizer que ‘sim’, lato sensu; mas entendo o ponto de vista dela, e sua confusão, stricto sensu. Ela, vocês, e Gleiser, estão interessados no ‘erro’ referente a esta medição; afinal este é um equipamento desenvolvido por físicos e engenheiros para medir o espectro da luz visível.

[um equipamento vendido pela Internet, e que apresenta um valor objetivo em um display LCD, com uma precisão de 0,15 DE, levando apenas alguns segundos para calcular o resultado]

Diante de situações cotidianas como esta, me preocupo em entender como um ‘experimento’ tão trivial suscita tanta contestação e controvérsia. Qualquer crendice, qualquer afirmação descabida, tem maior respeito, autoridade, e aceitação, do que o conhecimento objetivo de fenômenos naturais. Será o sistema educacional? Será a relativização filosófica? Serão tendências neuropsicológicas? Ou a conjunção sistêmica de todos estes fatores? Certamente não se trata de um problema relativo às “limitações da ciência” – como afirma Gleiser... Outras limitações e outras fronteiras estão em jogo – todas elas devidamente estudadas pela Neurociência...

Consideremos algumas variantes do Paradoxo do Mentiroso, sendo a mais antiga que se tem notícia a versão do jônico Eubulides de Mileto, sucessor de Euclides de Mégara, ainda no século VI AEC:

“Um homem diz que ele está mentindo. O que ele diz é verdadeiro ou falso?”

Ainda no século VI, o paradoxo também foi associado a Epimenides ‘de Creta’, que teria dito:

“Todos os cretenses são mentirosos.”

Um tal "São Jerônimo" teria aplicado o conceito a David, quando afirma nos samos bíblicos que:

“[...] Todos os homens são mentirosos.” - Salmos [116:11]

Trata-se apenas de um truque lógico, com uma confissão moral... Teofrasto, sucessor de Aristóteles, escreveria três rolos de papiro sobre este paradoxo, e Crisipo mais seis. Todo este trabalho, e toda esta perda de tempo silogística seriam enterrados pelas areias do tempo. Esta antinomia prova que um argumento pode parecer lógico embora seja falso – e por vezes, como é o caso, ridículo...

“Esta frase não é verdade.”

Verdadeiro ou falso? Logicamente astuto, moralmente pouco recomendável ou desonesto. Tarski salientou que o truque fundamental do Paradoxo do Mentiroso reside no uso de uma linguagem semanticamente ‘fechada’ ou ‘negativa’ – conforme já foi explicado. Por isso, provar a inexistência constitui um absurdo lógico. Mas devemos fundar aqui pelo menos duas ressalvas. Quando Sagan diz:

“A ausência da evidência não significa evidência da ausência.”

Faço a seguinte ressalva, ampliando:

A ausência de provas não é prova da ausência, e muito menos da existência.

Os argumentos contra a existência de ‘propósitos morais’ para o universo são vastos e fortes. E não existem argumentos em favor de ‘propósitos’ morais religiosos que não tenham sido invocados por meio de mentiras, fraudes, falácias retóricas e engôdos semânticos... Nenhuma comprovação, nenhuma pista, nada. Por que devemos considerar religiões – qualquer uma – como um domínio de conhecimento?

O Universo e a Vida estão desenhados pela aleatoriedade e pela involuntariedade - quer gostem ou não. Podemos inventar opiniões, mas não poderemos inventar fatos - não impunemente! E sem provas, fatos, ou evidências, não existe - de fato - conhecimento.

“O que pode ser afirmado sem provas também pode ser rejeitado sem provas.” – Christopher Hitchens

Eu também ampliaria dizendo que:

O que é afirmado sem provas pode e deve ser rejeitado...
Finalmente:

“Quem nada sabe em tudo crê.” – Jan Neruda

Isso opõe Ciência e religião, e não as nivelas - nunca... Contemple e observe o Universo como ele realmente é, e maravilhe-se com isso; e ensinemos aos nossos filhos a encarar suas próprias fronteiras sem ‘verdades absolutas’, nem mentiras politicamente corretas, ou “alívios” que obliterem a LUCIDEZ. Considere a aterrorizante possibilidade de que um ser humano, saudável por natureza, possa estar privado de vivenciar a realidade. Considere a possibilidade do desperdício desta vida? Deus é um argumento ‘autocontraditório’, embora pareça tranquilizador, mas não nos liberta como humanos plenos. Nas célebres palavras de Cornelius Tácitus:

“Tranquilitas non Libertas.”

Ao que eu modestamente agregaria:

Tranquilitas non Veritas.

Quando nos curvamos à autoridade, ou nos entregamos ao mero solipsismo, sem a submeter as nossas proposições ao exame de sua pertinência, estaremos potencializando problemas de toda sorte nas mais diversas áreas. Algumas disciplinas estão fundadas sobre falácias, e vivem da autoridade e da idolatria, impulsionadas pelo historicismo, como a filosofia social, política, religiosa, ou de relações humanas.

Diferentes modalidades de fascismos pipocaram nas mãos de líderes carismáticos, messiânicos ao totalitários; unidos em torno de uma identidade nacional, estatal, racial ou religiosa, e mobilizados de forma submissa à luta derradeira com alguma entidade metafísica, demônios diversos, judeus, judeus, judeus, capitalistas, etc... Esta é a sina historicista, com origem na lateralização de nossos hemisférios cerebrais - mas esta é outra tese.

Sabemos ainda, pelo entendimento do comportamento humano, que algumas mentes estão mais capacitadas do que outras para encontrar padrões e ordem em meio ao caos. Algumas mentes estarão ainda destinadas a seguir e idolatrar líderes, enquanto algumas fantasiaram doentiamente sobre a realidade. Alguns líderes estarão destinados à iluminação, enquanto outros pretenderão, pela nevoa espessa e pela escuridão, um reinado de medo... Alguns estarão fadados à generosidade e a solidariedade, enquanto outros praticarão o mais sórdido egoísmo, através de controle rígido e totalitário. O narcisismo, a pulsão de vida e a procriação darão o tom, estamos bem distantes da savana africana, embora dispondo do mesmo aparato neural.

Vale notar que racionalismo e sensibilidade emocional não são mutuamente exclusivos. São características independentes, e que podem até colidir em nosso cérebro, estampado em nosso comportamento, mas uma pessoa emocional não significa uma pessoa irracional, e vice-versa. O sentimento é outra estória, é a verbalização da sensação emocional pura; e, portanto, estará impregnado pela linguagem, pela cultura, e por nossos estratagemas políticos. Daí a confusão...

Existem pessoas sentimentalistas, ou seja, que usam o sentimento - alegando emoção - como linguagem, em detrimento de medidas mais racionais e efetivas; mas isso é um estratagema... Daí a tal “espiritualidade”! A emoção é bioquímica, é involuntária, é real, física, e comanda as nossas vidas - sempre... O hipocampo, responsável por selecionar e copiar trechos de nossa memória de curo prazo em nossa memória de longo prazo, trabalha acossado pela emoção, ou limitado pela falta dela. O racionalismo é uma capacidade genética, neural e bioquímica, e que não anula a emoção; sendo, inclusive, deflagrado por ela.

Gleiser comete muitos erros crassos em sua retórica quando deixa de trabalhar em prol do conhecimento para fazer o que chama de “estratégia diplomática”, e recusa a verdade... Ele comenta que deu uma entrevista para uma rádio AM, e diante de uma plateia composta por pessoas simples – “operários e diaristas”; ao final, conta ele, foi interpelado por um senhor “com rugas precoces no rosto sujo de graxa”:

“Quer dizer que o senhor quer tirar até Deus da gente?”

Conheci muitos senhores com rugas prematuras mundo afora; e bem sei que o fenômeno da biologia da crença e o efeito rebanho não escolhem classes sociais... Mas a crença em deuses, a tendência a crendices sobrenaturais, pode ser indutiva de piores condições sociais. De qualquer forma, uma boa instrução definitivamente pode ser um fator limitante no caso da tendência crente inata, contribuindo com a lucidez; e um fator estimulante quando a neuropsicologia é fértil para o convívio com a realidade. Mas, vamos responder ao senhor com “rugas prematuras” citado por Gleiser:

Não será mentindo sobre deuses forjados pelo historicismo para o mero controle político que o você aliviará o sofrimento deste senhor!

Por que Gleiser não lhes falou sobre os avanços em termos de Ciência Médica, com a redução da mortalidade infantil e o aumento da expectativa de vida, conforme supracitados? Gleiser não pensou que este senhor de rugas, por sua hesitação, e nesta mesma noite, vai pagar o dízimo a algum estelionatário? Este humilde senhor, além de estar livre da poliomielite, da varíola, do tifo, do sarampo, da morte prematura – com o sem rugas -, poderia estar livre de ser sumariamente roubado!

No século XVIII as velhas crenças teológicas estavam sob fogo cruzado do livre-pensamento; mas a vontade de crer era ativada e reaparecendo delirante sempre que uma possibilidade ‘sobrenatural’ se acercava. A varíola foi uma destas oportunidades para a ignorância religiosa desfilar o ‘círio’, e desatando uma tempestade de protestos teológicos contra a ‘razão’... Um clérigo anglicano publicou um sermão onde afirmava que:

“[assim como] as pústulas de Jó eram devidas à inoculação do diabo, assim havia sucedido com a crescente epidemia de varíola.”

Vários ‘ministros’ eclesiásticos escoceses publicaram manifestos contra a Ciência Médica, e em especial contra a recente descoberta da circulação sanguínea, os estudos de anatomia, fisiologia, etc. – assim como o estudo de ‘células-tronco’ em nossos dias; afirmando que estávamos “tratando de desafiar o julgamento de deus” – sobre quem deve ou não deve morrer... Mas a varíola responderia a toda esta carolice com mais e mais mortes; quanto mais oravam e praguejavam contra a Ciência, mais mortos... Os terrores teológicos foram acalmados pelo terror imposto pela ‘realidade da morte’!

A controvérsia parecia declinar, quando foi descoberta a VACINA... Os ‘clérigos’ de todas as facções da cristandade afirmavam em uníssono que:

“[a vacina era um] insolente desafio aos céus, e à VONTADE DE DEUS.”

Em Cambridge e na Sorbonne universitários cristãos unidos pronunciaram sermões opondo-se à VACINA. O mais grave sucedeu quando, em 1885, e já no século XIX, houve um disparo no número de casos da doença em Montreal, Canadá, e a parte católica da população repudiou a vacinação. Um sacerdote católico declarou que:

“Se estamos afligidos pela varíola é por que comemoramos o carnaval no último inverno, festejando a carne e ofendendo ao Senhor.” 

As mortes vieram sem trégua sobre os católicos; ‘Deus’, por alguma misteriosa razão, pouparia apenas àqueles que foram ‘vacinados’...

“Os Padres Oblatos, cuja igreja estava situada no coração do distrito infestado, seguiram denunciando a vacina; foi exortado aos fiéis para que se dedicassem a diversos tipos de devoção; com a permissão das autoridades eclesiásticas, foi ordenada uma grande procissão com um solene chamamento à Virgem, e foi cuidadosamente especificado o uso do rosário.” (White; op. cit., v.II, p.60)

Pobres fiéis, todos aniquilados pela varíola! Esta seria uma excelente estória para desmistificar, diante do “senhor de rugas” sobre os mal-entendidos envolvendo a nobre atitude científica – esta sim, uma verdadeira ‘bendição’... E existem outros exemplos...

O mesmo sucederia com o advento da descoberta dos efeitos anestésicos do clorofórmio, pelo médico escocês Sir James Young Simpson (1811—1870). Simpson, em 1847, recomendou o uso no parto, ao que o clero lhe respondeu com Gênesis [3:16]:

“E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.” - Gênesis [3:16]

Simpson, no entanto, logrou aprovar os anestésicos para os homens, salientando que:

“Deus anestesiou Adão, adormecendo-o, antes de extrair sua costela.”

Terrível! Sim, precisamos abolir tudo isso, o Corão, a Torá, o velho e o novo testamento, a RELIGIÃO; para vivermos melhor, com mais saúde, paz, e em ‘verdadeira harmonia’. E não seremos capazes da fazê-lo se não pudermos entender e combater, o primeiro fundamento contido em tais livros; i.e., o ‘enaltecimento da ignorância’ pelo repúdio à razão e ao entendimento, ao conhecimento REAL, factual, científico... E a subsequente ‘glorificação da submissão’, da servidão e do conceito de ‘manada’...

Não seremos capazes de abolir tais livros se não pudermos entender ‘antes’ a clara sentença de morte à consciência e àqueles que a conservam: os ‘hereges’... E não poderemos dar este passo, se não pudermos constatar também o preconceito, o sectarismo, o racismo, a pulsão de MORTE, e o regozijo pela morte, contido em tais mensagens apologéticas.

Precisaremos confrontar os dogmas de tais sociedades extremamente preconceituosas, estratificadas, eliminando o aspecto 'pecaminoso' de escolher não se casar, e de viver como pretendemos; eliminando a figura absurda do dote, e enaltecendo a figura do afeto entre parceiros, entre casais. Esta não é a supremacia de uma cultura sobre a outra, senão a supremacia da liberdade sobre a opressão. Precisamos enaltecer o valor PENSAMENTO repudiando o culto à SUBMISSÃO...

E neste ponto devolvo a citação do ‘Pequeno Príncipe’ a Gleiser - porque este gesto de coragem é o verdadeiro gesto de amor:

“Os homens esqueceram a verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.” – (Antoine de Saint-Exupéry; ‘O Pequeno Príncipe’)

Um homem de bem poder até seguir em frente com sua preferência devota, mas não pode esconder a VERDADE alegando que não existem verdades... E escutem a Galileu quando sabiamente adverte que a melhor forma de endereçar a verdade é propor proposições bem demarcadas e objetivas; questões genéricas, e A VERDADE ABSOLUTA que tanto te preocupa, só servem para destruir proposições claras e objetivas, e benéficas à VIDA... Sim, porque diminuímos a mortalidade em 40 vezes, a violência em 100 vezes, e triplicamos a expectativa de vida porque existem verdades... Mas subimos em uma rampa acendente, com picos de altos e baixos; e fascismos, como estamos presenciando em nossa país, destroem os sonhos de algumas gerações. Acentuando mais uma vez que existem gradações de erro, existem verdades, existem mentiras...

Charles Bukowski, que muitos idolatram sem limites, não passou de um cínico e debochado; enquanto se autodestruía, publica e narcisisticamente, levou um mundo de bobos à vã idolatria... O mesmo fenômeno, com severos agravantes, pode ser dito do mito de Che Guevara, um psicótico covarde e assassino... Sendo estas proposições amplamente comprovadas - embora de outra classe de verificação, a documental.

MAS SIM, EXISTEM VERDADES - mesmo que não as queiram encarar... E relativizar a existência de proposições verdadeiras tem sido o primeiro ato daqueles que, logo em seguida, passarão a reclamar autoridade sobre a realidade - e sem apresentar qualquer tipo de prova, senão o CINISMO e, não raro, o DEBOCHE... Mas estarei aqui para denunciar!

Sob o obscuro pretexto de não atingir a perfeição muitos deixam de fazer a sua parte, capengando, e impedidos de culminar naquilo que realmente importa: PROGRESSAR!

Q.E.D.

Carlos Sherman

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