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quinta-feira, 1 de setembro de 2016

SCIENTIA - UMA ATITUDE



SCIENTIA – Uma Atitude

A senhora M.S. publicou a seguinte e recorrente crítica a um de meus posts sobre a importância da Atitude Científica:

"Por falar no Círculo de Viena, para Karl Popper, do ponto de vista lógico não é nada óbvio que se justifique inferir assertivas universais a partir de assertivas singulares, por mais numerosas que essas sejam. Uma determinada teoria é válida até que seja refutada. Lembremos que inúmeras teorias científicas já reinaram como absolutas e corretas até o dia que foram refutadas, substituídas ou modificadas por outras teorias...É impossível viver sem o auxilio da ciência, no entanto é perigosa a mitificação da mesma pois todo mito é perigoso. Nem o senso comum é tão ingênuo como costuma ser pintado e nem a ciência é tão rigorosa e infalível quanto se apresenta." 
Tenho relevado este tipo de comentário, mas desta vez será diferente... Este tipo de atitude cria muitos e graves problemas, e o silêncio também tem as suas nefastas consequências; de forma que desta vez não vou calar, e a minha resposta virá completa, certeira, e sem rodeios.


UM OBSCURO PATCHWORK PSEUDOFILOSÓFICO

“É melhor acender uma vela do praguejar contra a escuridão.” – Carl Sagan

Senhora M.S., li atentamente sua mensagem, tenho acompanhado suas recentes publicações, de forma que tenho pouca ou nenhuma esperança de que leia a íntegra de minha resposta; muitos menos que aprenda com ela, ou ainda e em tempo decida-se por capitular... Lembrando sempre que o melhor caminho em um beco sem saída sempre é voltar atrás. É nesse momento que distinguiremos ratos e humanos; aqueles que rastejarão pelas cavidades estreitas, escuras, e mal cheirosas, e aqueles que se levantarão refeitos e melhores.

O seu comentário pode parecer ingênuo e primário, mas é intelectualmente desonesto - já que copia as palavras de outras pessoas sem dar o crédito ou citar a fonte -, enquanto esconde um obscuro e recorrente ataque pessoal. Estão presentes os costumeiros e destacados desvios cognitivos da crença na crença, e que me remetem a certa compaixão: o animismo – como se ciência pudesse representar um ser passível de mitificação e idolatria; o intencionalismo – como se a ciência correspondesse a uma espécie de grupo finamente sincronizado, uma corporação dotada de ilimitada ambição e narcisismo; e o clássico maniqueísmo. Mas trata-se também de um bom lote de impropérios e falácias retóricas, e que me desafiam...

As palavras de Popper são citadas fora de contexto, e sugerindo um sentido diametralmente oposto à verdadeira reflexão do autor; também são citadas ipsis litteris, de forma que deveriam estar entre aspas, já que o raciocínio definitivamente não é seu. Você não pode ter lido Popper; você leu sobre Popper no mesmo lugar de onde plagiou as seguintes palavras:

“Em outras palavras, nem o senso comum é tão ingênuo quanto costuma ser pintado, nem a ciência é tão rigorosa e infalível quanto se apresenta.” - Lyard Libório Ferreira

Tristemente desonesto... Mas também inteiramente equivocado e inútil...


A ILHA DA IGNORÂNCIA

"A Filosofia não consistiria afinal em fingir ignorar o que se sabe e saber o que se ignora? Ela duvida da existência, mas fala seriamente do ‘Universo’." - Paul Valéry (‘O Homem e a Concha’)

Mas este obscuro patchwork pseudo-filosófico também representa a oportunidade certa para responder a muitos como você, que nutrem as mesmas falsas certezas, e comentem os mesmos equívocos em detrimento da integridade intelectual; pessoas que bem poderiam contribuir ainda mais no endereçamento da realidade – porque o fazem, amiúde -, em favor de uma vida melhor, aliviando o sofrimento humano, e debatendo com um mínimo de responsabilidade; definem-se como ateus, mas não passam de presas fáceis do pensamento mágico pseudo-filosófico e afins – um novo tipo de esoterismo, uma mera crendice, capitaneada no Brasil pelo autor Marcelo Gleiser, e o seu lamentável livro ‘A Ilha do Conhecimento’. Temem a impopularidade, enquanto aventuram-se em temas que não estudaram suficientemente, capengam e busca de atenção, ou ávidos por provocar qualquer sorte de subversão contra positiva, remando bobamente contra uma maré inventada, não importando se a direção é legítima ou não... Eles precisam falar... e falar antes de pensar... Como se tuitassem no Facebook citando aforismos ao léu no cyber space...

Esta é uma oportunidade de ouro também porque você comete o disparate de citar Popper para desqualificar o empenho científico, e se estrepa... já que Popper é um leal guardião do racionalismo crítico e da atitude científica diante da vida. Pois já que prefere, vamos com Popper; um homem sério, pouco disposto a firulas pseudo-filosóficas de ocasião, às vezes um tanto quanto apodítico, mas que nunca se limitou ao trabalho medíocre de ser um mero operário em um departamento acadêmico qualquer.

Você poderia ao menos plagiar um pensamento útil... Mas, e embora não as palavras não sejam suas, foram disparadas por você; então, passo a registrar primeiramente que: você está generalizando o enorme complexo de conhecimento validado ao longo da História do pensamento humano de Ciência – e tudo bem; registro em seguida que: ainda que este conjunto de ações dirigidas pela atitude científica conforma um corpus, sem, no entanto, dispor de uma corporação clara ou cátedra, como a Filosofia; finalmente, devo explicar que: o termo Ciência é claramente apartado da autoridade dita filosófica pelos trabalhos do Círculo de Viena, mas isso jamais implicou em infalibilidade – e o contrário. Jamais se pretendeu o absoluto, em 250 anos de consagrada atitude científica, senão na cátedra de filosofia – seja a filosofia teológica, sociológica, psicológica ou astrológica. Jamais! E desafio você a citar um único exemplo.


O PONTO DE VISTA DE KARL POPPER SOBRE A UNIVERSALIDADE DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO

“É difícil libertar os tolos das correntes que eles veneram.” – Voltaire

Quando Popper se refere a “assertivas singulares” na tentativa de inferir “assertivas universais”, ele está criticando a filosofia, e não a Ciência; e mais precisamente os respectivos e destoantes “essencialismos” em Platão e Aristóteles:

“Escolhemos explicações em termos de leis universais da natureza, oferecemos uma solução precisamente a este último problema (platônico). Pois concebemos todas as coisas individuais e todos os tatos singulares como sujeitos a estas leis: As leis (que por sua vez têm necessidade de maior explicação) explicam assim as regularidades ou similaridades de coisas individuais ou de fatos ou eventos singulares... E essas leis não são inerentes às coisas singulares. (Nem são ideias platônicas exteriores ao mundo.) As leis da natureza, antes, são concebidas como descrições (conjecturais) das propriedades estruturais da natureza — de nosso próprio mundo.” - Karl Popper (‘Conhecimento Objetivo’; 1999)

“[...] Sempre que possamos explicar uma lei ou teoria conjectural por meio de uma nova teoria conjectural de grau de universalidade superior, estamos descobrindo mais acerca do mundo, tentando penetrar mais fundo em seus segredos. E sempre que conseguimos tornar falsa uma teoria dessa espécie, fazemos uma nova descoberta importante. Pois estas falsificações são muitos importantes. Elas nos ensinam o inesperado; e nos confirmam que embora nossas teorias sejam feitas por nós mesmos, embora sejam invenções de nós mesmos, NEM POR ISSO DEIXAM DE SER GENUÍNA ASSERÇÕES ACERCA DO MUNDO [grifo meu]; pois podem chocar-se com algo que nunca fizemos.” (idem)

“[...] as leis universais da natureza podem ser asserções com rico conteúdo, de modo que podem ser independentemente testadas em qualquer parte e a qualquer tempo. [...] A pergunta ‘Que tipo de explicação pode ser satisfatória?’ leva assim à resposta: uma explicação em termos de leis universais testáveis e falsificáveis e de condições iniciais. E uma explicação deste tipo será tanto mais satisfatória quanto mais altamente testáveis forem essas leis e quanto mais bem testadas houverem sido. [...] Desse modo, a conjectura de que a meta da ciência é encontrar explicações satisfatórias leva-nos, adiante, à ideia de melhorar o grau de satisfação das explicações melhorando o seu grau de testabilidade, isto é, passando para teorias mais bem testáveis; o que significa passar para teorias de conteúdo sempre mais rico, de mais alto grau de universalidade e de mais alto grau de precisão. Isto, sem dúvida, esta plenamente em consonância com a prática efetiva das ciências teóricas. [...] ASSIM A TAREFA DA CIÊNCIA CONSTANTEMENTE SE RENOVA. Podemos marchar para sempre, passando a explicações de nível de universalidade cada mais alto – a menos que realmente cheguemos a uma explicação final; isto é, a uma explicação que não seja capaz de qualquer explicação ulterior ou necessite dela.” (idem)

Sendo assim, só podemos de fato nos importar com o endereçamento da realidade, e trabalhando com afinco na redução de gradação de erro, já que não saberemos ao certo quando chegaremos ao fim, se há um fim, ou se já estamos no fim – e na verdade ISSO NÃO IMPORTA. Sob o pretenso pretexto essencialista do absoluto e perfeito, deixamos preguiçosa e arrogantemente de pensar e trabalhar, para simples e responsavelmente progressar... E mais, a Aventura da Ciência está fundamentada em “chocar-se” com o desconhecido, e elucidá-lo sem reservas de domínio. Falar em “ciência absoluta” é uma contradição em termos, e uma acusação no mínimo especiosa:


UM RECADO DE POPPER A VOCÊ

“Há quem defenda os seus erros como se estivesse a defender uma herança.” - Edmund Burke

Sobre o irracional vilipendio da assertiva científica:

“A discussão entre racionalismo e irracionalismo é de longa data. Embora a filosofia grega indubitavelmente começasse como um empreendimento racionalista, havia estrias de misticismo mesmo em seus primeiros começos. É o anseio pela unidade perdida e pelo abrigo do tribalismo que se expressa nesses elementos místicos infiltrados numa concepção fundamentalmente racional. [...] o irracionalismo oracular estabeleceu (especialmente com Bergson e a maioria dos filósofos e intelectuais alemães) o costume ele ignorar ou de pelo menos deplorar a existência de um ser tão inferior como um racionalista. Para eles, os racionalistas — ou os “materialistas”, como muitas vezes dizem — e especialmente o racionalista cientista, são os pobres de espirito, dedicados a atividades amplamente mecânicas e desprovidas de alma, completamente alheios aos mais profundos problemas do destino humano e de sua filosofia. E os racionalistas costumam retribuir rechaçando o irracionalismo como pura insensatez. Nunca antes o rompimento foi tão completo. [...] Nessa disputa, estou inteiramente ao lado do racionalismo. E tanto assim é que, mesmo onde sinto que o racionalismo foi longe demais, ainda simpatizo com ele, sustentando, como faço, que UM EXCESSO NESSA DIREÇÃO [grifo meu] (enquanto excluirmos a imodéstia intelectual do pseudo-racionalismo de Platão) É VERDADEIRAMENTE INOFENSIVO SE COMPARADO A UM EXCESSO NA OUTRA [grifo meu]. Em minha opinião, o único modo pelo qual o racionalismo excessivo é susceptível de mostrar-se daninho será por tender a minar sua própria posição e assim favorecer uma reação irracionalista. Somente este perigo é que me induz a examinar as acusações de racionalismo excessivo mais de perto e a advogar um racionalismo modesto e autocrítico, que reconheça certas limitações. Em consequência, distinguirei, no que se segue, entre duas posições nacionalistas, que rotularei ‘racionalismo critico’ e ‘racionalismo não critico’, ou ‘racionalismo compreensivo’. (Esta distinção é independente da primeira, entre um ‘verdadeiro’ e um ‘falso’ racionalismo, ainda que a meu entender um racionalismo ‘verdadeiro’ dificilmente posa deixar de ser crítico.) [...] Ora, é fácil de ver que esse principio de ume racionalismo não-critico é inconsistente, pois, não podendo ele por sua vez ser sustentado por argumentação ou experiência, isso implica que ele próprio deveria ser repelido. (É ANÁLOGO AO PARADOXO DO MENTIROSO, ISTO É, A UMA SENTENÇA QUE AFIRME A SUA PRÓPRIA FALSIDADE [grifo meu].) O racionalismo não-critico é, portanto, logicamente insustentável e visto como isso pode ser mostrado por um argumento puramente lógico, o racionalismo não-critico pode ser derrotado com suas próprias armas, a argumentação.” – Karl Popper (‘Conhecimento Objetivo’; 1999)

Se leu alguma obra de Popper, qualquer uma, nada aprendeu sobre o Conhecimento Objetivo, sua importância e destaque como a nossa única alternativa; e é exatamente isso que Popper pensava.


O ABSOLUTO E O CIENTÍFICO

Esperamos mais de 30 anos para encontrar o Bóson de Higgs, mas nos preocupamos em dedicar um ano mais à sua validação. De forma que muito me preocupa que o seu ataque se debruce sobre a falibilidade assumida do método científico, enquanto sugere que escutemos a sei lá o que, de sei lá onde... Dê nomes aos bois, conforme proposições com alguma utilidade prática. Absolutismo, mitificação, e idolatria, são questões que merecem muita atenção sim – sendo este o papel derradeiro do Círculo de Viena; mas estes são problemas relacionados à autoridade dita filosófica, e não da atitude dita científica:

“Um princípio de pensamento científico corresponde a uma espécie de honestidade incondicional [...].” – Richard Feynman

É esta honestidade incondicional ou Ética que reside no Ceticismo Científico, confrontando a vacuidade das crenças e os ‘discursos persuasivos’ em favor de mentiras, interesses e sandices. Isso porque as crenças se baseiam apenas na caprichosa, débil ou vã vontade de acreditar – e isso é humano. Não se pode, de forma alguma, comparar a nobre atitude de tornar-se ciente pelo confronto de hipóteses sérias, consequentes, e concernentes com a realidade, com a autoridade especiosa de velhas ou novas convicções. Não se pode usar como desculpa a falibilidade assumida da ciência para validar crenças filosóficas. Uma verdade científica tem uma validez e universo de aplicação, assim como seu erro assumidamente demarcado, e que estará sob o crivo constante, acirrada revisão, e variada fiscalização, sendo esta a maior fortaleza da Ciência, e não o contrário.

Sobre Max Planck, Einstein escreveria:

“Um homem a quem foi dada a oportunidade de agraciar o mundo com uma grande ideia criativa não precisa do louvor da posteridade. Sua própria façanha já lhe conferiu uma dádiva maior!”

A cientista e antropólogo Claude Lévi-Strauss diria no antológico ‘Mythologiques’ (1964) que:

“O cientista não é uma pessoa que dá as respostas certas, ele é aquele que faz as perguntas certas.”

Onde está a idolatria? Onde está a mitificação? Com base em que você fala em “mitificação” e “absolutos”, se a atitude científica inclui uma restrição de validez e o erro associado?


UMA PERIGOSA MITIFICAÇÃO

“Aristóteles afirmou que as mulheres têm menos dentes do que os homens. Tendo sido casado duas vezes, nunca lhe ocorreu verificar tal afirmação, apenas examinando as bocas de suas esposas.” - Bertrand Russell (‘O impacto da ciência na sociedade’; 1951)

Pois notem o descaso do “filósofo” em relação a qualquer tipo de comprovação de seus postulados; mas notem com ainda mais atenção a certeza magnânima de Aristóteles na sua AUTORIDADE – na autoridade de seus constructos! É chocante e apavorante. Estudar o cérebro de Aristóteles seria a alegria da Neurociência, mas seus devaneios não poderiam ser levados em conta na orientação de qualquer outro estudo, sobre qualquer outro assunto – a não ser na cátedra de Filosofia. O Círculo de Viena sim separou a autoridade do conhecimento, e nunca mais fomos os mesmos – pelo bem da humanidade e da vida.

A perigosa mitificação da bandeira que você inconscientemente defende, e não assume; a carcomida bandeira corporativa da autoridade filosófica e seus derivados – a filosofia da religião ou teologia, a filosofia do comportamento ou psicologia, a filosofia do social ou sociologia, e a filosofia da previsão ou astrologia. Mas tais cursos ou disciplinas representam negócios, e a terminologia genérica de seus rótulos não será suficiente para garantir a propriedades de seus constructos e matérias de estudo – já que estão consagrados sobre falácias. A utilidade sobrevirá! Assim como os profissionais em suas fileiras não bastarão pelo título. Sempre lembrando que os “primeiros filósofos” não eram filósofos senão pensadores... A Filosofia batizou filósofos profissionais com o tempo, mas foi erigida por homens como você e eu, dispostos à autoridade sobre a realidade, ou o seu limpo descortinar... até Viena.

A capacidade intelectual é humana, e está em voga desde antes de sua discussão em Atenas; e aqui devo deitar por terra uma velha falácia: o pensamento estruturado não começa na Grécia. O que é fundado na Grécia e cunhado pela História, de fato, é uma linha de pensamento: o Essencialismo. Pensar, conhecer, sempre esteve associado à atitude de tornar-se ciente: Scientia – a versão latina para a palavra CONHECIMENTO. O que batizamos por Filosofia tem impulso no Essencialismo Platônico. Os Jônicos continuaram a ser protocientistas.

“Somente uma vez antes em nossa história houve a promessa de uma civilização científica brilhante. Beneficiária do Despertar Jônico [...].” (Sagan; ‘Cosmos’; 1980)

Mas nem toda a cultura helenística se beneficiaria deste despertar, e este é o papel da predominância em nossos hemisférios cerebrais. E presumo que este seja um assunto muito objetivo ou “cientificista” para suscitar vosso interesse. Mas este é o ponto, este é o problema, esta é a base de toda esta mal fadada discussão. E tal doutrina – o Essencialismo -, moldada nas possibilidades neuropsicológicas humanas, se mostraria uma aliada fiel dos diversos fascismos em curso, moldando um fenômeno que Popper batizaria – com muita propriedade – de “Historicismo” (Popper; ‘A Sociedade Aberta e Seus Inimigos – Volume I e II’; 1998), e um caminho mordaz para as sociedades que pretendem a liberdade e a fraternidade. Os sistemas essencialistas e historicistas pré-helênicos estavam fundados no sobrenatural; agora tentávamos legitimar tais sistemas transformando homens em deuses. Não é por acaso que na contracapa desta obra de Popper está escrito:

“Um trabalho cuja importância é de primeira linha e que deve ser largamente lido por sua crítica de mestre aos inimigos da democracia, antigos e modernos. Seu ataque a Platão, embora não seja ortodoxo, está inteiramente justificado em minha opinião. Sua análise de Hegel é mortal. Marx é dissecado com idêntica agudeza e é, em parte, devidamente responsabilizado pelas desgraças atuais. Este livro é uma defesa vigorosa e profunda da democracia, oportuno, interessantíssimo, magistralmente escrito.” - Bertrand Russell

Eu elencaria muitos mais nomes, como Heidegger, Sartre, Foucault, Kant, Leibniz, Descartes, Aristóteles – e Popper também o faz... E o que sobraria para a cátedra de Filosofia, diante deste completo esvaziamento e associação ao Fascismo e à crença? E ainda: o que política e democracia têm a ver com isso? Tudo, pois o conhecimento – ou ‘scientia’ em Latim – se aplica a tudo. Enquanto cumpre-me perguntar, em sua crítica: quem o que grêmio estaria em condições de moderar os eventuais excessos “cientificistas” e “objetivistas” cometidos por cientistas – ou por uma tal Ciência? E quem, após o Círculo de Viena afirmou que leis ou teorias científicas são eternas ou absolutas? Quem?


ENDEREÇANDO A VERDADE

“Quando as pessoas pensavam que a Terra era plana, estavam erradas. Quando as pessoas pensavam que a Terra era – ‘exatamente’ [grifo meu] - esférica, estavam erradas. Mas, se você considera que ‘pensar que a Terra é esférica é tão errado quanto pensar que a Terra é plana’, então a sua visão está mais errada do que as duas juntas.” – Isaac Asimov (‘A Relatividade do Erro’; 1989)

Asimov explicaria ainda que as pessoas buscam por certezas absolutas, ou negações absolutas. As pessoas estão platonicamente aprisionadas em uma falsa noção de perfeição; de forma que, se alguma coisa não é exatamente’ ou absolutamente perfeita, então ela estará totalmente errada. Isso não nos leva a nada. Existem gradações de erros, sentenças verdadeiras e falsas; e a ostentação de verdades absolutas, somente serve ao propósito de turvar a nossa visão diante da ‘realidade objetiva’ – à qual Gleiser chama pejorativamente de ‘objetvismo’ -, impedindo que possamos diminuir a confusão reinante, optando por posições mais acertadas do que outras.

‘Objetivismo’ é particularmente abjeto, irresponsável e injustificável; assim como a acusação de “cientificismo” dirigida aos homens que mudaram o mundo pra melhor, e deflagrada pelo seu “professor” de Filosofia, em sua “aula para o terceiro ano” – provavelmente do ensino médio. O seu ataque está dirigido contra o argumento inconteste de que 250 anos de Ciência triplicaram a expectativa de vida humana, diminuindo em quarenta vezes a mortalidade infantil, e reduzindo em mais de cem vezes a violência - o que multiplicou em sete vezes a população do planeta...

Podemos endereçar a verdade, podemos testar a veracidade, a lucidez... e este é o propósito da investigação científica; muito embora não seja a sua fonte de inspiração. Somos inspirados pela beleza da vida, por nossas paixões, amores, pela devoção a estes amores e princípios. E aqui discordo de outro conceito da “ilha” de Gleiser, que a motivação ciência seja a ignorância. Pretendemos escrever a poesia da realidade, e por amor.

Sob o pretexto de uma verdade absoluta, Gleiser questiona que existam verdades, assim como o a senhora. Aliás, Galileu, um célebre “cavaleiro do apocalipse”, tendo escolhido ridicularizar crendices infundadas, salvaguardava o vigor de sua lucidez, e a postos, quando disse que:

“Io stimo più il trovar un vero, benché di cosa leggiera, che `l disputar lungamente delle massime questioni senza conseguir verità nissuna. / Mais estimo encontrar uma verdade sobre qualquer assunto leve do que entrar em uma disputa longa sobre máximas questões se, atingir verdade nenhuma.”

Mas Galileu também esteve equivocado, como no notório caso dos anéis de Saturno; afinal, com os seus parcos instrumentos de trabalho, mas revolucionários para a época, os discos lhe pareceram como dois astros mais ladeando o planeta. Mas os acertos de Galileu, seu exemplo e vida, valem muito mais do que seus evidentes equívocos – e você poderia ter ao menos intuído isso, por uma questão de justiça.

Enquanto especulamos sobre a planura da Terra estivemos equivocados, mas tratávamos de endereçar a verdade; afinal, a curvatura da superfície terrestre está próxima de zero. Este ‘erro’ refletia as limitações instrumentais para a época, mas, sobretudo as limitações em termos de critérios para o conhecimento. Ainda não havia uma concisa teoria para o conhecimento, nem estatutos, nem recomendações formais, ou uma metodologia para o conhecimento que estabelecesse um universo de validez, indicando a margem de erro esperada no confronto com a realidade. As “verdades” e “leis” eram publicadas com ansiedade e alarde, e, portanto, sem critérios; tudo estava por saber - muito embora não se parecessem nem de perto com os achaques autoritários e arbítrios dos constructos ditos filosóficos.

Mas os tempos mudaram; e mudaram com o filósofo grego Eratóstenes (276-195 AEC), um “gênio do tamanho da Terra”, que seria o primeiro a notar que a longitude das sombras, em relação ao mesmo horário do dia, variava com a latitude onde a medição era procedida. Eratóstenes sabia que no vigésimo primeiro dia do mês de Junho aconteceria o Solstício de Verão na cidade de Siena, e que, precisamente ao meio dia, o Sol brilharia direto dentro de um poço, iluminando “o seu fundo sem que nenhuma sombra se projetasse em suas paredes”; isso enquanto em Alexandria, exatamente na mesma hora, ainda haveriam sombras projetadas sobre a parede. Ele inferiu então que a Terra era esférica, uma revolução para o seu tempo. Com ajuda da trigonometria, considerando a distância entre Siena e Alexandria, o ângulo formado por este arco em relação ao “centro da Terra”, ele calculou a curvatura correta da Terra. Isso foi medido em “passos” e “estádios”, e envolveu “sombras”; tudo muito impreciso, embora engenhoso, perspicaz, apaixonante e científico.

Endereçávamos a verdade com ainda mais acuracidade, ao que hoje podemos adicionar algumas casas decimais, calculando a curvatura da Terra em 0,0000786 por quilômetro. Isso seria crucial para que pudéssemos revisar toda a cartografia da época, e os mapas, palmo-a-palmo, passariam a ser muito mais precisos; a navegação seria revolucionada, e o mundo seria ‘redescoberto’. Tudo isso graças ao gênio e à ousadia de Eratóstenes, apesar do ‘erro’ irremediavelmente incorporado pelas limitações de seu tempo. Agora a Terra era uma “esfera” perfeita, o que também estaria equivocado. Observando os céus e os demais planetas, o gênio investigativo de Newton demonstraria que a massa terrestre em rotação sofreria um acentuado achatamento nos polos. Medidas mais precisas nos permitiriam calcular o grau de elipsidade da Terra. A Terra esferoide seria muito mais próxima de seu passado esférico do que de seu passado plano; evoluímos em termos de gradação de erro. Uma esfera prefeita nos daria uma curvatura em torno de 12,5 cm/km, enquanto a curvatura elíptica varia de fato entre 12,657 e 12,472 cm/km.

Este raciocínio conduzido por Asimov, stricto sensu, nos permite dizer que julgar a Terra esférica é muito mais correto do que considerá-la plana; e tal noção tem enorme impacto sobre nossas vidas. Também podemos dizer que julgar a Terra plana é muito mais incorreto do que julgá-la esférica, com os mesmos e severos impactos sobre o nosso convívio com a ‘realidade objetiva’. E ensinar tais princípios, valorizar o ‘endereçamento’ obstinado da verdade, é muito mais produtivo do que destacar a imprecisão deitada sobre o caminho.

Mesmo o nosso esferoide ‘perfeito’ seria revisado em 1958, quando o satélite Vanguard I entrou na orbitar a Terra. Uma literal vanguarda científica seria capaz de medir a forma da Terra com uma precisão sem precedentes. Descobrimos que nos parecíamos com alguma coisa entre uma ‘pera’ e uma ‘batata’ – flutuando e rodopiando no espaço. Correções da ordem de milionésimos de centímetros por quilômetro foram procedidas, e aqui estamos – graças ao gênio de Eratóstenes.

Vivemos um conflito neuropsicológico de ordem evolutiva, causais, dicotômicos, lineares. Perdidos em uma gangorra de absolutos, tudo ou nada, certo e errado, bom ou mal. A realidade se descortina livre, desimpedida, e precisamos estabelecer parâmetros e bases de compreensão, para conformar avanços ‘objetivos’. O absolutismo, o generalismo, e seu homólogo, o relativismo, tem se prestado ao inconsequente e especioso propósito de justificar medidas autoritárias e dogmáticas, alegando a impossibilidade de exatidão. Pois não seria muito melhor, sempre, acender mais um pequeno lampejo de luz do que tropeçar na escuridão?


TORNAR-SE CIENTE POR ÉTICA, AMOR E ESPERANÇA

Hoje sabemos que a ‘mecânica genética’ de nosso corpo evoluiu para mitigar os erros e mutações em nosso código genético. É isso mesmo, o código genético tem um mecanismo autocorretivo; e desta forma estamos menos sujeitos a mutações drásticas do que estivemos no passado. E podemos dizer que a Ciência conta hoje com o mesmo sofisticado mecanismo: o Método Científico. De forma que a falibilidade assumida da Ciência, de hoje em diante, está muito menos sujeita a erros crassos do que esteve no passado das crenças.

Não é tão importante definir se a aventura científica se estenderá indefinidamente ou não, sendo esta uma que não merece maior interesse; mas, sobretudo, devemos considerar o bem que este honesto procedimento provê, na medida em que, inescapavelmente, ilumina o que antes era escuridão. Muitas vezes, teorias que alcançam o status de revolução científica, não passaram de um conjunto apropriado manipulações e refinamentos de um corpus de conhecimento pregresso. Como quando Copérnico nos levou de um sistema centrado na Terra a um sistema centrado no Sol. Copérnico estava desafiando o que parecia ser óbvio, com algo que soa ridículo. Aristarco e Eratóstenes viveram a experiência.

Portanto, e há algum tempo, vivemos de refinamentos; caso contrário, e considerando a autorregularão e autocorreção científica em voga, uma teoria estapafúrdia teria vida muito curta. Exemplos pífios como a “fusão a frio” não passaram de pseudociência. O que deveria nos alertar ainda mais sobre a necessidade de aprimorar nossos critérios, e não desconsiderá-los – como Gleiser e o “professor” que você plagiou sugerem.

Não está bem claro o que pretende com o seu “comentário obscuro”, mas posso antever o que está por trás: medo e ignorância. Obscuro quando questiona o valor do empenho humano em favor do acumulo de conhecimento comprovado - ou “Método Dedutivo Baseado em Provas” (Popper; ). Verdadeiros livres-pensadores, portanto filósofos ou cientistas, suportam e endossam minhas reflexões, como Paul Valéry, Nietzsche, Onfray, Popper, Russell, Hume, Smith, Einstein, Feynman, Dawkins, Darwin, Schrodinger, Voltaire, Huxley, Sagan – para quem:

“Cada aspecto da Natureza revela um mistério profundo e toca nosso sentimento de admiração e respeito. Teofrasto estava certo. Os receosos do universo, os que pretendem uma visão e conhecimento não existentes de um Cosmos centrado em seres humanos preferem o conforto passageiro da superstição. Eles evitam mais do que confrontam o mundo. Mas, aqueles que com coragem explorarem a trama e a estrutura do Cosmos, mesmo onde este difere profundamente de seus desejos e preconceitos, penetrarão em seus mistérios mais profundos. [...] Não existe outra espécie na Terra que faça ciência. Ela é, até então, uma invenção inteiramente humana, evoluída através de uma seleção natural no córtex cerebral, por uma razão muito simples: ela funciona. Não é perfeita e pode ser mal utilizada. É somente uma ferramenta, mas até agora a melhor que temos, autocorretiva, progressiva, aplicável a tudo. Possui duas regras. Primeira: não existem verdades sagradas; todas as suposições devem ser examinadas criticamente; argumentos de autoridade não têm valor. Segunda: tudo que seja inconsistente com os fatos deve ser rejeitado ou revisto. Devemos compreender o Cosmos como ele é e não confundir isso com como gostaríamos que fosse.” (Sagan; ‘Cosmos’; 1980)

Russell é elegante no endosso a Sagan – que também era filósofo:

“O que é necessário não é a vontade de acreditar, mas o desejo de descobrir, que é justamente o oposto.” – Bertrand Russell

Em uma carta a Hans Mühsam, datada de 09 de julho de 1951, um Einstein bem velhinho observaria:

“Uma coisa eu aprendi em uma longa vida: que toda a nossa ciência, comparada com a realidade, é primitiva e infantil - e ainda assim é a coisa mais preciosa da qual dispomos.”


O RECADO DE NIETZSCHE

Nietzsche; integro intelectualmente, honesto, e preciso... desafia os habitante da torre de marfim:

“O que nos incita a olhar uma metade dos filósofos com desconfiança e a outra metade com ironia, não é o fato de percebemos como são ingênuos, nem como erram e se enganam com facilidade e frequentemente. Não é também sua infantilidade e leviandade que nos chocam, mas a falta de honestidade com que fazem grande alarde de sua virtuosidade, quando se questiona, ainda que superficialmente, o problema de sua sinceridade. Todos fingem ter descoberto e alcançado suas verdadeiras opiniões pelo desenvolvimento de uma dialética pura, fria e impassível, distinguindo-se dos místicos que, mais honestos e menos hábeis, falam de ‘inspiração’. No fundo, sustentam, com argumentos posteriores, uma tese antecipada, uma afirmação arbitrária, provenientes de um capricho, de uma intuição ou de um desejo íntimo e abstrato. Defendem com astúcia e de modo rebuscado os próprios conceitos, empíricos, que batizam de ‘verdades’. Estão muito longe da intrepidez da consciência que confessa a si mesma sua mentira, e muito distantes do valor que se deseja ouvir, seja para advertir um amigo, colocar em guarda o inimigo, ou para ridicularizar a si mesmo. A hipocrisia ríspida e virtuosa com a qual o velho Kant nos leva pelas tortuosas veredas de sua dialética, para nos induzir a aceitar seu imperativo categórico, é um espetáculo que nos faz sorrir e sentir o imenso prazer de descobrir as pequenas e maliciosas sutilezas dos velhos moralistas e dos pregadores da moral. Somemos a isso a charlatanice, pretensamente matemática, com que Espinosa mascara sua filosofia, ou seja, o amor à sua sabedoria, para interpretá-la como lhe convém e assim intimidar, desde logo, a audácia do atacante que tivesse o atrevimento de levantar os olhos para esta virgem invencível, verdadeira Palas Atena. Quanta timidez e vulnerabilidade revela este disfarce de um doente solitário!” - Friedrich Nietzsche (‘Além do Bem e do Mal’; Cap.1, Prop.5; 2006)


EPÍLOGO – LUCIDEZ, O BEM MAIS PRECIOSO

“Aquele que se sabe profundo esforça-se por ser claro; aquele que gostaria de parecer profundo à multidão esforça-se por ser obscuro. Porque a multidão acredita ser profundo tudo aquilo de que não pode ver o fundo. Tem tanto medo! Gosta tão pouco de se meter na água!” – Friedrich Nietzsche (‘A Gaia Ciência’; 2012)

O valor do conhecimento objetivo também é a inescapável questão que o dramaturgo grego Aristófanes (447-385 AEC) nos coloca com requintes de sarcasmo e humor, em sua inteligente e magistral peça ‘As Nuvens’ (423 AEC):

“[...]
Estrepsíades: - Queres dizer que Zeus é uma invenção?
Sócrates: - Zeus? Que Zeus? Não há Zeus. Que Zeus?
Estrepsíades: - Que Zeus? Quem então faz a chuva? Me responde?
Sócrates: - Quem faz a chuva? As nuvens, certamente. A prova, neste caso, é conclusiva: Tu já viste jamais chover com céu sem nuvens? Se fosse Zeus, podia chover com um céu todo claro. Ou não podia?
Estrepsíades: - Podia, é claro. Tens razão, portanto. Tens razão, tens razão, mas eu pensava que Zeus, com um regador, fazia a chuva. Mas ainda há uma coisa: e a trovoada?
Sócrates: - São as nuvens também. Simples processo de convecção. Isto é coisa provada.
Estrepsíades: - Eu muito te admiro, mas confesso: Não é fácil seguir teu raciocínio.
Sócrates: - Escuta, pois. As nuvens o que são? Uma densa de água solução. A tumescência move-se e provoca em consequência a precipitação. E consequentemente com algum esforço então as massas se distendem, e as massas distendidas fazem: Pum! [...]”

Em ‘As Nuvens’ Aristófanes nos apresenta a um personagem, um filósofo chamado Sócrates - provavelmente inspirado no próprio filósofo Sócrates que ainda era vivo à época -, que mantém uma escola de ceticismo. Um fazendeiro das vizinhanças se sai com as habituais perguntas obtusas feitas pelos fiéis, ao que o filósofo responde de forma assertiva e jocosa. O fazendeiro surpreso pergunta - e.g.: “queres dizer que Zeus é uma invenção?”; ao que o filósofo responde irônico: “Zeus? Que Zeus? Não há Zeus.”. O fazendeiro insiste estupefato, afinal, se Zeus não existe, então, quem seria responsável pela chuva? Se não há Zeus, quem manda a chuva para regar as plantações? Convidando o pobre homem a utilizar os seus parcos neurônios, Sócrates destaca que se Zeus pudesse fazer chover, haveria, ou poderia haver, chuva até em céus sem nuvens, e isso nunca acontece. Na verdade o que observamos é que céus repletos de nuvens, e nuvens pesadas, estão diretamente relacionados com a ocorrência de chuvas; de onde o sábio conclui que a causa mais provável das chuvas “são as nuvens”, observando ainda que “isto é coisa provada”.

O fazendeiro concorda surpreso com a astúcia do filósofo, mas insiste, então, que Zeus seria o responsável por colocar as nuvens em posição: “[...] certamente deve ser Zeus”. “Não”, objeta Sócrates, e explica sobre a ação do clima, dos ventos, da temperatura e da humidade. Nesse caso, replica mais uma vez velho rústico, “de onde vêm os raios para punir os mentirosos e os que agem mal?”. Os raios - é gentilmente explicado a ele - “não parecem discriminar justos e injustos”. E de fato, lembrando que frequentemente é noticiado que eles atingem “os templos do próprio Zeus olímpico”... Isso é suficiente para derrotar o fazendeiro; muito embora, e em seguida, ele abjure de sua derrota, demonstrando a mais abjeta falta de reverência, queimando a escola e cuidando para que Sócrates, o sábio, o cético, o professor, o cientistas, estivesse dentro. Assim os seus temores estão aplacados e a sua ignorância pode reinar soberana.

Assim trabalhou a pira funerária quando a tradição conservadora resistiu à verdade inconformada. Conhecemos o padrão. São muitos os livres-pensadores que passaram pelo mesmo, ou escaparam por pouco. Todos os grandes confrontos entre o direito ao livre-pensar e à liberdade de expressão contra a autoridade dogmática, repetiram e repetem a mesma fórmula, e tiveram a mesma sorte: o letal enfrentamento da volúpia filosófica de cunho autoritário e religioso, em apelo ao sobrenatural, e contra a força da mente investigativa.

Vale recordar mais uma vez que Sócrates, o Sócrates histórico, estava vivo, e seria plausível pensar que esta encenação possa de alguma forma tê-lo implicado ainda mais nos episódios que conduziram à sua prisão, julgamento, e condenação à morte - exatamente por desafiar à autoridade dos deuses do Olimpo. ‘As Nuvens’ também podem ter influenciado Lucrécio, o precursor do ateísmo; que, por sua vez, teria servido de influência para Spinoza, e que influenciaria a Jean Meslier, que daria o golpe de misericórdia, para que Nietzsche levasse a fama...

Epicuro sincretizaria e convergiria toda a herança do pensamento racionalista jônico, abderiano, e algo mais... Isso depõe, ainda no século IV AEC, contra toda e qualquer tentativa de contextualização. O livre-pensamento sempre manteve representantes, homens que abraçariam a causa de Leucipo, Demócrito, Epicuro. Lucrécio, o maior herdeiro do epicurismo, bem definiria o enredo de Aristófanes:

“Quem pode girar todas as esferas estreladas e soprar sobre toda a terra o calor frutífero de cima, estar a postos em todos os lugares e todo o tempo, reunir nuvens negras e sacudir o céu plácido com terrível trovão, arremessar raios que muitas vezes destroem seus próprios santuários, se enfurecer no deserto, recuando para exercitar a pontaria, de modo que seus dardos possam errar o culpado e matar o inocente?”

Quem? O cérebro humano, inexato, complexo, em processo evolutivo, e incrivelmente sujeito a ilusões, delírios, e alucinações; isso, além dos conhecidos e diversos ‘Desvios Cognitivos de Confirmação’... Estas são palavras de um filósofo, um poeta ou um cientista? São palavras de um homem verdadeiramente lúcido, livre e pensante. Palavras de uma mente apta, neuropsicologicamente clara e sadia.

Inventamos e zelamos pelo Método Científico, entre outras coisas, porque precisamos testar a nossa lucidez...

Q.E.D. [A resposta de M.S.]

Carlos Sherman

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